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Agitação nos mercados. Bitcoin colapsou, bolsas em correção severa

Após uma segunda feira terrível nos Estados Unidos, as bolsas europeias registaram hoje uma forte correção

DAVID MOIR

Correção ou início de um ciclo de descidas nas bolsas mundiais? Wall Street afundou e contagiou a Europa

O nervosismo tomou conta dos mercados depois do pânico em Wall Street. A abertura esta terça-feira em perda ligeira dos índices americanos desanuviou o ambiente das bolsas europeias, que fecharam o dia em perda mas recuperam dos mínimos que registaram a meio da sessão. Mas o pessimismo domina.

A Europa respira melhor, mas já neutralizou em poucos dias os ganhos de janeiro. Os mercados não conseguem evitar o contágio das praças americanas, que registaram uma segunda-feira terrível – o Dow Jones caiu 4,6% e registou a maior perda em pontos (1120) de sempre.

Em Portugal, a correção desta terça-feira foi mais suave (1,46%) do que na Europa, com Mota-Engil, Novabase, BCP, Sonae, EDP, Galp e Ibersol a liderarem as perdas com desvalorizações acima dos 2%.

O atual nervosismo tem o epicentro nos Estados Unidos. As bolsas acumularam “ganhos desvairados” desde que Donald Trump foi eleito, tornando os mercados frágeis e à mercê de uma forte correção. O pretexto foi o receio de uma subida da taxa de juros e da inflação. Operadores notam que, no passado, ciclos de valorização como este levam a que em fevereiro as cotações regressem aos mínimos do ano. No caso atual, já baixaram dessa fasquia.

Indústria financeira em causa

“Ninguém pode ter certezas se é uma correção ou o início de um novo ciclo, mas parece-me uma correção mais que saudável e desejada”, comenta ao Expresso Emanuel Figueiredo, fundador da gestora LBV, baseada em Londres. Para um ciclo negativo “seria necessário uma subida do juros nos Estados Unidos mais rápida e ampla ou um abrandamento pronunciado do crescimento económico, fatores que não se perfilam no horizonte”, acrescenta Emanuel.

Para o desempenho nos últimos dias da bolsa americana, o gestor cita a influência de fundos como os ETF - Exchange Trade Finance e de mecanismos da indústria financeira de exposição à volatilidade dos mercados e que têm o efeito de amplificar as oscilações.

DANISH SIDDIQUI

Alguns destes fundos terão sido encerrados segunda-feira devido às perdas avultadas que registaram pelo tal efeito amplificador. A vantagem dos ETF é terem comissões de gestão muito baixas e foi um expediente encontrado pelos operadores para injetar no mercado acionista a liquidez abundante.

Bruno Serdoura integra em Nova Iorque a equipa de investimento do conglomerado segurador XLCatlin. Diz que a correção atual “é um fenómeno natural face à forte subida verificada nos últimos meses”.

A correção “ajuda a dissipar o sentimento de complacência que se instalara nos investidores”. O gestor de ativos nota que “as boas notícias a nível macroeconómico e os fortes resultados das empresas cotadas” são fatores de otimismo que indiciam que ainda não estaremos a entrar numa fase de bear market.

O principal gestor do fundo da Standard Life Aberdeen (30 mil milhões de dólares de ativos), Martin Gilbert, escreveu esta terça-feira de manhã no Twitter que os mercados “estão apenas a corrigir dos excessos”. A queda dos mercados acionistas é uma correção “atrasada, saudável e bem-vinda”, escreveu Martin Gilbert.

Uma opinião consensual entre os operadores é que o mercado global evoluiu para uma nova fase de mais incerteza e maior volatilidade.

Bitcoin. Acima de zero é cara

De um outro campeonato é a bitcoin. Se os mercados acionistas derrapam, a bitcoin afunda e colapsa. Depois de em dezembro ter atingido o pico de 20 mil dólares (€16 mil ao câmbio atual) e de ter valorizado 1400% só no ano passado, a primeira e mais conhecida moeda digital tem registado quedas sucessivas. Esta terça-feira, a bitcoin chegou a descer para os 6 mil dólares (€4,8 mil), subindo posteriormente para os 7 mil (€5.6 mil) às 14h59 (hora em Lisboa), segundo o CoinMarketCap. Às 18h59 estava, no entanto, a subir 1,31% face às últimas 24 horas. Em 2018, já derreteu metade da sua cotação.

À mesma hora, a moeda ethereum valia 721 dólares, registando uma queda de 3,3% nas últimas 24 horas, e o riple estava a subir 1,72%, situando-se nos 71 cêntimos de dólar .

A quebra acentuada desde sexta-feira passada levou a capitalização de mercado das moedas criptográficas a descer aos 277 mil milhões de dólares (€223 mil milhões) esta terça-feira, naquele que é o valor mais baixo desde o final de novembro.

DAVID MOIR

Esta tendência decrescente das criptomoedas, associadas a uma volatilidade extrema, tem vindo a reboque de um conjunto de fatores. Os avisos em relação aos seus perigos de especulação têm tido eco em vários países e pela voz de vários atores, com os mais recentes a virem a público através de Nouriel Roubini. O economista, que na semana passada considerara a bitcoin “a maior bolha da história humana”, escreveu esta terça-feira que a sua cotação “vai cair para zero”: “acima de zero a bitcoin é cara”, disse no Twitter. E antecipa que alguns investidores “usarão uma tática de manipulação de mercado para sustentar a cotação da bitcoin” mas que tal não impedirá a aterragem violenta da cotação.

Segunda-feira, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, reconhecera que a bitcoin e outras criptomoedas são “ativos muito arriscados”, que devem ser mantidos com prudência, nomeadamente por bancos. “As moedas virtuais estão sujeitas a grande volatilidade. O seu preço é completamente especulativo", declarou Draghi, no Parlamento Europeu. E o vice-presidente da Comissão Europeia, Valdis Dombrovskis, pediu aos reguladores para adaptarem as regras financeiras à volatilidade das moedas.

Esta terça-feira foi também a vez de o director-geral do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) engrossar o coro de advertências. Apelou aos governos e reguladores, em nome da proteção dos cidadãos e os investidores, para que tomem medidas para travar a propagação das criptomoedas. “Por muito que se pense tratar-se de um sistema de pagamentos alternativos, sem intervenção governamental, na prática converteu-se num mistura de bolha, fraude de esquema Ponzi e desastre ambiental”, afirmou Agustín Carstens, o diretor-geral do BIS. O BIS coordena os bancos centrais.

Se 2017 surpreendera como o ano do boom das criptomoedas, este ano ameaçam rebentar. Em dois meses acumulam perdas de quase dois terços (65%), depois do pico dos 20 mil dólares (€16 mil) em dezembro.

Mas há quem considere esta quebra acentuada natural para a altura do ano: o Ano Novo chinês, que decorre a 16 de fevereiro, pode oferecer uma explicação, considera o empreendedor David Mondrus. Citado pelo “Investing News”, o presidente executivo do Trive, plataforma de pesquisa baseada na tecnologia blockchain (que está na base das moedas digitais), justifica a queda com o facto de os chineses estarem alegadamente a tirar dinheiro para o Ano Novo, que ocorre a 16 de fevereiro. E acredita que depois disso as moedas vão recomeçar a valorizar.