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Indústria automóvel: expansão esbarra na mão de obra

Os quatro construtores com bases em Portugal vão duplicar a produção para 300 mil unidades FOTO Paulo Vaz Henriques

FOTO Paulo Vaz Henriques

Fileira automóvel vai contratar 7800 até 2020. Mas falta gente

A fileira automóvel, impulsionada pelo reforço de produção dos quatro construtores presentes em Portugal, vai precisar até 2020 de mais 7800 trabalhadores. Isto depois de, nos últimos cinco anos, ter gerado 8221 novos empregos, um quarto de toda a indústria transformadora.

Mas o cluster debate-se com a falta de mão de obra e sofre com a dificuldade de recrutamento. Todas as empresas de componentes se queixam”, diz ao Expresso o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), Tomás Moreira. A angústia na hora de recrutar “não depende da natureza da função”. É transversal “a todas as especialidades e regiões” e “poderá comprometer os planos de expansão” do sector. A competição é cada vez intensa entre empresas.

A maioria das 900 empresas da fileira está na faixa litoral e algumas delas atenuam a escassez “recrutando a 40 ou 50 quilómetros da fábrica, oferecendo transporte gratuito”, diz Tomás Moreira. O gestor não arrisca o número para traduzir o défice, lembrando que, na metalurgia e metalomecânica, a associação patronal aponta para 28 mil vagas de emprego por preencher.

Salário e modelo de negócio

O ex-secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, reconhece a escassez laboral na indústria, mas nota que há realidades diferentes. Depende das regiões, do sector e da estratégia empresarial. A metalurgia e fundição “com salários baixos, condições duras e tecnologia ultrapassada” é muito menos atrativa do que, por exemplo, os plásticos ou moldes. Na Marinha Grande, até o manobrador de um empilhador ganha mais de 1000 euros por mês — a mesma função noutras zonas tem um salário inferior. Se uma empresa “não pode pagar 700 euros por mês o problema está no modelo de negócio e não no salário”, diz João Vasconcelos. A “indústria tem de mudar de imagem e remunerar melhor”. As unidades que competirem nos salários “com o turismo ou a distribuição é evidente que não conseguem recrutar”.

João Vasconcelos nota que multinacionais como a Bosch ou empresas como a Yazaki Saltano ou a Simoldes “não sofrem com a falta de mão de obra no mercado”. Quando precisam, recrutam em empresas da zona. O ex-secretário de Estado conta que seguiu os processos de instalação no Minho de três fornecedores da PSA de Vigo “em que o custo de produção caía para metade, comparado com uma operação em Espanha”. Num dos casos, a opção portuguesa resultou mais favorável do que Marrocos. O ex-governante verifica aqui “ganância em excesso” e defende uma repartição mais equitativa do lucro entre o capital e o trabalho.

Tomás Moreira diz que a dificuldade de recrutar num país com uma taxa de desemprego de 8%, “decorre da falta de apetência para a indústria e prova que há um desajustamento entre a oferta e a procura que terá de ser resolvido pela qualificação”. Mas essa tarefa “deve caber ao Estado e não às empresas de modo isolado”.

Vasconcelos ressalva que o desemprego atual, retirando os irrecuperáveis, se concentra nos grandes centros, afetando em especial a administração pública ou os serviços financeiros. E dá o exemplo da multinacional francesa de componentes Lauak que escolheu Grândola para uma segunda base (200 empregos) para sugerir que as empresas devem optar por localizações fora da faixa litoral e das cinturas das grandes cidades. No interior, o processo de recrutamento é mais fácil.

De acordo com o retrato que a Deloitte traçou para a Associação do Cluster Automóvel (Mobinov), o caminho da fileira até 2020 “será marcado por uma aceleração na produção de veículos em Portugal”, com os quatro construtores a duplicarem o número de unidades produzidas. Esta evolução terá um efeito virtuoso nos fabricantes de componentes que têm reforçado a sua quota no mercado internacional. No conjunto, o universo laboral do cluster vai crescer até 2020 de 72.866 para 80.672 empregados.

Na avaliação da produtividade (Valor Acrescentado Bruto por trabalhador), o estudo da Deloitte regista que a fileira automóvel está muito acima da restante indústria portuguesa (€43 mil face a uma média de €28,7 mil) e ocupa o 16º lugar no campeonato europeu.

Este é um dos sectores mais sujeitos ao desafio que a automação e a robótica, como realçou o primeiro-ministro, António Costa, na sessão da Mobinov. João Vasconcelos reconhece um novo paradigma mas afasta riscos ou ameaças. A Autoeuropa “instalou 400 robôs para pintura e chapa que levaram à contratação de mais 1400 pessoas para as outras secções”, diz Vasconcelos.