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A primeira escaramuça da guerra de divisas em 2018

FOTO DANIEL ROLAND/GETTY IMAGES

O euro valorizou 1,7% face ao dólar durante a semana em que Mario Draghi acusou a Administração Trump de violar as regras da “linguagem” a usar em matéria cambial. Em Davos, Merkel alertou que “o multilateralismo está ameaçado”, enquanto Trump reafirmou a intenção de “reformar o sistema do comércio internacional”

Jorge Nascimento Rodrigues

A semana do Fórum Económico Mundial em Davos saldou-se por uma primeira escaramuça nas guerras de divisas que podem vir a marcar 2018.

Este facto geopolítico acabou por ficar atrás do palco, pois a “celebração” - para citar uma palavra usada repetidamente em Davos por Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) - do otimismo sobre a aceleração da economia mundial nos próximos dois anos hegemonizou o evento.

O euro valorizou esta semana 1,7% face ao dólar, tendo chegado a atingir um máximo de mais de três anos quando registou 1,2537 dólares na quinta-feira à tarde durante a conferência de imprensa de Mario Draghi a seguir à reunião do conselho do Banco Central Europeu (BCE). Em meia hora de respostas do italiano a questões sobre a “volatilidade” no euro, a moeda única apreciou quase 1% face ao dólar.

Desde início do ano, a tendência de apreciação do euro em relação à moeda norte-americana já soma 3,5%. Como salientou um estudo do Institute of International Finance (IIF), divulgado esta semana, a moeda única europeia foi a divisa que mais se valorizou face ao dólar desde a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos. Tendo chegado quase à paridade em 20 de dezembro de 2016, o euro já se apreciou 20% em dólares.

O ataque de Draghi a “alguém” que toda a gente sabia quem era

O súbito disparo do euro na quinta-feira deveu-se ao ataque muito duro do presidente do BCE à “linguagem” em matéria cambial usada por “alguém” em Davos, no dia anterior.

O “alguém” era o secretário do Tesouro norte-americano Steven Mnuchin que advogou um dólar fraco no curto prazo. “Obviamente que um dólar fraco é bom para nós pois se relaciona com comércio e oportunidades”, referiu Mnuchin, o que desencadeou no dia seguinte a revolta de muitos membros do conselho do BCE durante a reunião em Frankfurt, reação que seria tornada pública por Draghi.

O presidente Trump à chegada a Davos tentou arrefecer a guerra de palavras, dizendo, numa entrevista exclusiva à CNBC, que as afirmações do seu secretário do Tesouro tinham sido “retiradas do contexto” e que a Administração “em última análise quer um dólar forte”. Mnuchin acabaria por dizer que "a longo prazo, acreditamos, fundamentalmente, na força do dólar". Mas o mal de curto prazo estava feito.

O pecado de Mnuchin nos Alpes suíços foi ter rompido com a “linguagem” pública das Administrações norte-americanas desde o secretário do Tesouro Robert Rubin (1995-1999) na presidência Clinton que instituiu a defesa oficial do “dólar forte”, mesmo que, em privado, presidentes e secretários sussurrassem o contrário. Tanto mais que, ainda em outubro passado, à margem da assembleia anual do FMI em Washington, os responsáveis mundiais tinham acordado em evitar usar as taxas de câmbio como instrumentos de competitividade nacional. Draghi considerou que os americanos estão a violar o preceito acordado multilateralmente.

Um outro peso pesado do BCE, Benoît Coueré, diria, mais tarde em Davos que as discussões sobre câmbios deviam confinar-se às reuniões multilaterais do G7 e do G20, e sair da praça pública. “A última coisa que o mundo precisa agora é de uma guerra de divisas”, concluiu o economista francês que é membro do conselho executivo do banco desde 2011.

Contudo, o quadro mundial no sistema de divisas já não é mais bipolar, repartido entre o dólar e o euro, como protagonistas principais. Ele passou a ser tripolar, segundo um estudo de Camilo E Tovar Mora e Tania Mohd Nor, publicado esta semana pelo FMI. O bloco do dólar domina, com um peso de 40% do PIB mundial, face a 30% do bloco dominado pelo renminbi, a moeda chinesa, que poderá projetar-se como dominante nos BRICS e outras economias cada vez mais dependentes da China em vários continentes, e 20% para o bloco do euro.

As guerras de divisas se irromperem não se confinarão, nem mesmo nas palavras, a tiros entre Frankfurt e Washington.

Guerras comerciais no horizonte?

A questão de fundo é que, para a Administração norte-americana, a fraqueza do dólar é fundamental para “corrigir” a balança comercial do país, cujo défice mensal em dezembro está em máximos desde 2008 na balança de produtos. O défice das contas externas deverá atingir perto de 550 mil milhões de dólares (€443 mil milhões) no final de 2017.

Segundo economistas do IIF, “o dólar precisa de se depreciar mais uns 10% para que a balança comercial dos EUA atinja um nível considerado ‘justo’”.

A Administração federal em Washington tem de mostrar ‘serviço’ no campo do comércio internacional, tanto mais que se aproximam as eleições de novembro para muitos lugares nas duas câmaras do Congresso a meio do mandato presidencial.

Assim, surge um cordão político umbilical entre as guerras de divisas e as guerras comerciais.

Não por acaso, as referências ao dólar fraco coincidiram esta semana com a decisão da Administração Trump em impor tarifas aduaneiras sobre as máquinas de lavar, sobretudo exportadas da Coreia do Sul, e os painéis solares, vindos da China, Coreia do Sul e Malásia. A decisão foi acompanhada, em Davos, por uma linguagem bélica do secretário norte-americano do Comércio, Wilbur Ross: “Sempre houve guerras comerciais. A diferença é que, agora, as tropas dos EUA estão a chegar às muralhas”.

Um dos primeiros a reagir em Davos foi Jack Ma, o fundador do gigante chinês Alibaba: “É muito fácil lançar uma guerra comercial. Mas é muito difícil parar o desastre de uma tal guerra”. E deixou um aviso: “Se o comércio para, começa a guerra”.

O uso de linguagem bélica em matéria de comércio e os comentários sobre o dólar fraco não são aspetos isolados da Administração Trump. Como sublinhou Draghi, na conferência de imprensa, o BCE está apreensivo muito para além da questão cambial, está preocupado “com o estado geral das relações internacionais” que Trump está a turvar.

A “reforma” do sistema mundial de comércio, objetivo de Trump

Ora o que Trump veio dizer em Davos no fecho do Fórum foi o que pensa precisamente sobre o ‘estado geral das relações internacionais”, sobretudo em matéria económica. Na substância não disse nada de novo, recordou o entendimento da nova Administração sobre a política global, e a substância do seu pensamento estratégico defendido na corrida eleitoral.

O pensamento de Trump é simples: o objetivo é “a reforma do sistema de comércio internacional”. Os EUA passaram a advogar um comércio internacional baseado na “reciprocidade” - abandonando o conceito de "comércio livre". Para tal, a estratégia fundamental é sair dos acordos multilaterais como fez em relação à Europa e à Ásia, e usar caso a caso acordos bilaterais. Trump não pretende “isolar” os EUA.

O seu conceito de projeção global não é fechar-se, mas sim defender na cena internacional unilateralmente a “America First”. Daí o estabelecimento de acordos bilaterais com o Japão - país chave na defunta Parceria Transpacífico, conhecida pela sigla em inglês TPP - e o Canadá - um dos membros do acordo tripartido da NAFTA, que está em renegociação, e da ex-TPP - no ano passado e o objetivo de fechar outros, já este ano, com a Austrália e Nova Zelândia (outros dois ex-membros da referida TPP).

Admitiu, no entanto, no seu discurso em Davos, poder “talvez” aceitar negociar na Ásia “em grupo” com os países da defunta TPP com quem ainda não firmou acordos bilaterais. Uma abertura saudada pelos homens de negócio presentes no Fórum Económico Mundial.

Este pendor de Trump para a saída de acordos multilaterais anteriores recebeu em Davos críticas da chanceler alemã Merkel e repetidos avisos contra o risco de défice de “cooperação internacional” pela diretora-geral do FMI. "O multilateralismo está ameaçado", disse Merkel, recordando que 2018 marca o centenário do final da Iª Guerra Mundial.

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