Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Davos assusta-se com o “rinoceronte cinzento” da dívida chinesa

GETTY

O célebre bicho apareceu esta terça-feira nas neves dos Alpes. Um painel de economistas e financeiros no primeiro dia do Fórum Económico Mundial revelou-se preocupado com o peso da dívida chinesa e o risco que representa para a economia mundial

Jorge Nascimento Rodrigues

Um ‘rinoceronte cinzento’ fez o seu aparecimento logo no primeiro dia do Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, nas neves alpinas.

A bizarra expressão foi esta terça-feira usada num painel de debate para chamar a atenção do problema que a dívida chinesa coloca à segunda maior economia do mundo e à própria economia global.

A expressão entrou nos debates económicos. A imagem é simples: toda a gente vê o enorme bicho na sala, mas ninguém se atreve a lidar com ele. E, por isso, é um sério problema antecipando estragos assinaláveis. Para os especialistas em previsões tratam-se de perigos relevantes que são subestimados apesar de muitos sinais de alerta.

Mas vamos aos factos que suscitaram a evocação do bicho. No final do terceiro trimestre do ano passado, a dívida total chinesa ascendia a 295,54% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo os dados mais recentes divulgados pelo Global Debt Monitor do Institute of International Finance (IIF), a organização mundial do sector financeiro privado.

Rogoff trouxe o bicho para o debate

Este nível de dívida em relação ao PIB nem sequer é o mais elevado entre as grandes economias. O Japão lidera com 527,54%. A zona euro regista 390,92% e os EUA ficam-se por 325,73%. A título comparativo, Portugal registava 404,3% em final de setembro passado.

Apesar de estar otimista sobre o andamento atual da economia mundial, o economista Kenneth Rogoff foi o primeiro a trazer o ‘rinoceronte cinzento’ para a discussão de hoje ao chamar a atenção que a dinâmica de endividamento da China poderá ser o prelúdio de nova crise. O professor da Universidade de Harvard avisou que a segunda maior economia do mundo revela muitas das características de “uma crise financeira típica em construção”.

Mas outro dos participantes no debate deitou água na fervura. Fang Xinghai, vice-presidente do organismo supervisor das bolsas chinesas, aceitou a qualificação de ‘rinoceronte cinzento’ para o risco, mas garantiu que a situação estabilizou. “O país há dois anos reconheceu o problema e tomou medidas que estão a começar a mostrar resultados positivos”, garantiu o economista chinês, doutorado na Universidade de Stanford.

O peso enorme da dívida empresarial

A expressão não é ignorada na China. Bem pelo contrário. De facto, o jornal ‘Diário do Povo’, porta voz do Partido Comunista, começou a usar mais intensivamente aquela expressão no verão do ano passado para chamar a atenção da dinâmica explosiva de crédito à economia e da acumulação de dívida. “Tanto o cisne negro quanto o rinoceronte cinzento: nenhum tipo de risco pode ser encarado de forma leviana”, dizia um editorial do jornal em julho do ano passado.

Porque razão, então, os menos de 300% registados para a China assustam os responsáveis financeiros e vários economistas de nomeada que debateram hoje em Davos uma futura crise financeira mundial?

Porque no envelope global daquela dívida total, a maior parcela de 163,19% do PIB diz respeito a dívida do sector económico não financeiro, a maior fatia em termos relativos entre as grandes economias do mundo, um rácio que compara com 72% para os EUA, 102% para o Japão e quase 103% para a zona euro. A média mundial é de 92%. Entre as 26 economias emergentes cobertas pela análise do IIF só Hong Kong ultrapassa a China com 257,54% do PIB.

Um livro marcante que projetou o rinoceronte cinzento

A expressão ‘rinoceronte cinzento’ foi inventada para se distinguir dos ‘cisnes negros’, eventos impossíveis de prever (pois se julgava que cisnes dessa cor nem sequer existiriam), um conceito criado por Nassim Nicholas Taleb, ou mesmo dos ‘cisnes cinzentos’, eventos que podem ser antecipados até certo ponto, mas considerados improváveis.

A expressão ‘rinoceronte cinzento’ não era muito usada pelos economistas antes do livro de Michele Wucker lhe dar projeção mundial em 2016. Em "The Gray Rhino: How to Recognize and Act on the Obvious Dangers We Ignore” (“O Rinoceronte Cinzento: Como Reconhecer e Agir em Relação aos Perigos Óbvios que Ignoramos”), a autora norte-americana analisou exemplos de eventos que estavam claramente à frente do nariz, mas que os responsáveis políticos pura e simplesmente ignoraram. O livro tornou-se um best seller na China, mesmo na edição em inglês.