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FMI revê em alta crescimento mundial para 2018 e 2019. Mas duvida que a aceleração seja durável

O Fundo Monetário Internacional aumentou em duas décimas as previsões de crescimento mundial para este ano e o próximo. O ritmo anual vai acelerar para 3,9%, segundo as previsões divulgadas esta segunda-feira no World Economic Forum em Davos. Mas o crescimento não regressa ao ritmo de 2011, superior a 4%

Jorge Nascimento Rodrigues

A aceleração do crescimento económico mundial continuou no ano passado e vai prosseguir este ano e no próximo, segundo as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgadas esta segunda-feira no World Economic Forum (WEO), em Davos, na Suíça. O risco de um abrandamento global, como se registou de 2014 a 2016, foi eliminado do horizonte próximo.

“São boas notícias”, refere Maurice Obstfeld, o economista-chefe do Fundo, ao anunciar hoje à tarde a atualização das previsões e projeções do World Economic Outlook (WEO), o principal documento do Fundo contendo previsões e recomendação de políticas.

É a primeira vez que o FMI apresenta esta atualização de previsões económicas no fórum de Davos, que se tornou no principal encontro anual de chefes de Estado e de governo, responsáveis financeiros e líderes empresariais e de opinião.

“Com o início do ano de 2018, a economia mundial está a ganhar velocidade”, sublinhou Obstfeld na conferência de imprensa em Davos, vincando o otimismo. O crescimento anual do PIB global subiu de 3,2% em 2016 para 3,7% em 2017 e deverá continuar a acelerar para 3,9% em 2018 e 2019, segundo a atualização das projeções divulgadas pelo WEO em outubro passado, aquando da assembleia geral anual da organização.

Quatro economias do G20 em destaque

Em relação às previsões de outubro passado, o Fundo reviu, agora, em alta a estimativa para 2017, de 3,6% para 3,7%, e aumentou em duas décimas as projeções para 2018 e 2019, que passaram de 3,7% para 3,9%.

Apesar do otimismo com esta aceleração, o ritmo ainda ficará aquém do crescimento superior a 5% em 2010 e a 4% em 2011, depois da recessão de 2009.

A revisão em alta para 2018 e 2019 deve-se sobretudo à mexida significativa nas projeções para quatro economias do G20 – Alemanha, Arábia Saudita, Estados Unidos e México.

Em termos acumulados, o FMI subiu em 1,1 pontos percentuais as projeções para os dois anos nos casos da Arábia Saudita e do México e em um ponto para a Alemanha e os EUA. Em relação a estes dois últimos países são boas notícias para Portugal, pois são o terceiro e quinto destinos das exportações de produtos Made in Portugal.

Em virtude do peso elevado da contribuição do crescimento nos EUA para a dinâmica mundial, o choque fiscal da Administração Trump deverá ter um efeito positivo global até final de 2020. "O efeito [do choque fiscal] no crescimento dos EUA é estimado ser positivo até 2020, culminando em 1,2% durante esse ano", refere o documento de atualizações do FMI. Os prováveis efeitos negativos virão de 2022 em diante.

Riscos de curto prazo

Há, no entanto, dois riscos endógenos neste período das projeções hoje divulgadas que deverão ser monitorizados: um abandono menos gradual da política monetária expansionista dos principais bancos centrais do mundo e “ajustamentos disruptivos” nos mercados financeiros, quer nas bolsas, que registam atualmente preços elevados das ações, quer no mercado da dívida se ocorrer uma subida súbita dos juros.

A que se juntam “fatores não económicos”, como os riscos geopolíticos, sobretudo na Ásia e no Médio Oriente, riscos políticos derivados de uma viragem para “modelos de governo mais nacionalistas ou autoritários”, e eventos climáticos extremos, sublinhou Obstfeld.

O otimismo atual alimenta-se ainda da dinâmica anual do comércio internacional, que subiu de 2,5% em 2016 para 4,7% em 2017 e que se deverá manter acima de 4% nos dois anos seguintes, graças à revisão em alta de 1,1 pontos percentuais em termos acumulados para 2018 e 2019. O desafio para esta dinâmica é o falhanço dos esforços de cooperação multinacional. Esta cooperação é para o FMI absolutamente vital e pode ser ameaçada pelo “aumento das barreiras ao comércio e o realinhamento dos quadros de regulamentação”, lê-se no documento do FMI.

Olhar para além do curto prazo

Mas o otimismo para aqui. Obstfeld não deixou de fazer um aviso sobre o médio prazo: “O momento presente reflete uma confluência de fatores que é pouco provável que dure por muito tempo “. E acrescentou: “O nosso ponto de vista é que a atual recuperação, ainda que bem vinda, é pouco provável que se torne no ‘novo normal’. Enfrenta perigos de médio prazo que crescerão com o tempo. Constatamos várias razões – em certa medida, refletidas nas nossas projeções de médio prazo – para duvidar da durabilidade do momento atual”.

O FMI recomenda, por isso, que o otimismo atual seja temperado. “A próxima recessão poderá vir mais cedo do que se espera e as munições para a combater são muito mais limitadas do que há uma década atrás, sobretudo porque as dívidas públicas estão muito mais elevadas”, sublinhou.

“O maior risco de todos talvez seja a complacência”, por isso, os “responsáveis políticos deverão olhar para além do curto prazo”, acrescentou. “Agora é a altura de criar amortecedores, reforçar as defesas contra a instabilidade financeira, investir em reformas estruturais, em infraestruturas produtivas e nas pessoas”, concluiu. E isso tanto é válido para economias desenvolvidas como mercados emergentes e em desenvolvimento, em particular para os países exportadores bafejados atualmente pela subida dos preços das matérias-primas.

Novas previsões em abril

A atualização hoje apresentada em Davos abarca apenas os grandes agregados, da economia mundial e dos principais grupos de economias desenvolvidas e emergentes ou em desenvolvimento, e 16 países membros do G20.

Portugal e outras economias médias e pequenas não terão novas projeções publicadas pelo FMI antes da reunião da primavera em 20 e 22 de abril em Washington, ocasião em que será publicada a primeira edição do ano do WEO.