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Como a arte urbana ajuda o mercado a bater recordes

Pantónio, França. Na 13ª divisão administrativa de Paris, conhecida pela Chinatown e por uma série de edifícios descaraterizados, António Correia pintou o mural mais alto da Europa. Os peixes em tumulto representam o movimento das populações e integram-se no projeto StreetArt13, que visa transformar o bairro num “museu a céu aberto”, aliciante para o turismo

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Valorização. Obras de Vhils, Bordallo II ou Add Fuel integram a ‘assinatura portuguesa’ da arte urbana pelo mundo

Rute Barbedo

O que a arte pública gera em dinheiro privado é conversa que dá pano para mangas. Mas, no campo do imobiliário, é cada vez mais concreta a valorização de edifícios, apartamentos, estabelecimentos comerciais e, sobretudo, áreas urbanas pela intervenção de artistas internacionais. Veja-se o que aconteceu ao bairro de Shoreditch, em Londres, populado por obras de Borondo, Banksy ou dos portugueses Add Fuel ou Vhils, este último curador do Festival Iminente, que também se moveu na zona leste londrina, no ano passado.

Shoreditch é hoje uma das áreas mais desejadas para viver em Londres, sobretudo pelas camadas jovens. Embora os preços pareçam ter estabilizado, entre 2013 e 2014, registaram-se aumentos entre 25 e 30%. “Em 2014, o que quer que puséssemos no mercado vendia, independentemente do preço”, recorda Martin Phillips, diretor da agência de Shoreditch da Fyfe Mcdade. O mesmo efeito de atração replica-se um pouco por todo o mundo, desde Montréal — onde as paredes já estiveram bem mais vazias e a habitação muito mais barata; a Wynwood, em Miami, uma antiga zona de armazéns que se tornou um destino da moda através da operação da família Goldman; ou, saindo do mundo ocidental, à ilha de Djerba, na Tunísia, uma aldeia em que as rendas mais do que duplicaram depois de um festival de arte urbana que juntou 150 artistas, entre os quais, quatro portugueses.

O adeus a ‘imagens negativas’

Do outro lado do oceano, em Montréal, Canadá, onde podemos encontrar um Vhils ou um Pantónio numa caminhada entre os muitos murais que o Governo do Quebeque tem incentivado a pintar (1% do orçamento público destina-se a iniciativas artísticas), o luso-canadiano Alexander Patricio, agente imobiliário na Royal LePage Tendance, não tem dúvidas de que existe “uma ligação direta entre projetos de street art e a subida das avaliações imobiliárias em alguns bairros, como Plateau ou St-Henri”. “As pessoas querem viver em bairros onde tenham um sentimento de pertença e as características especiais da street art criam essa conexão”, acredita.

Add Fuel, Tunísia. Diogo Machado participou, juntamente com 150 artistas, no projeto Djerbahood, organizado pela galeria parisiense Itinerrance, em 2014. As rendas de habitação mais do que duplicaram depois do festival

Add Fuel, Tunísia. Diogo Machado participou, juntamente com 150 artistas, no projeto Djerbahood, organizado pela galeria parisiense Itinerrance, em 2014. As rendas de habitação mais do que duplicaram depois do festival

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Olhando para Plateau, um núcleo duro da arte urbana, Patricio conta: “Antigamente, a maioria dos imigrantes vindos de Portugal fixava-se nesta parte da cidade porque havia pequenos negócios de portugueses e as casas eram acessíveis. O que era um gueto agora é uma das áreas mais procuradas para habitar, muito devido ao estilo de vida, restaurantes incríveis, bares, lojas, etc. Podemos dizer que, hoje, Plateau tem a sua identidade. Se é por causa da street art? Acho que sim.” Mas não é só a arte que faz os preços escalarem. Fatores como a segurança, a qualidade do sistema de ensino e, nos últimos dois anos, a criação de emprego gerada por grandes investimentos nas áreas da inteligência artificial e das tecnologias de informação compõem o bolo.

As palavras de Alexander Patricio não andam longe das conclusões do estudo “The Art of the Property Deal” (“A arte dos negócios imobiliários”, em tradução livre), desenvolvido pela Universidade de Warwick, no Reino Unido, e divulgado em 2016. Os autores analisam que a arte pode ajudar a remover a imagem negativa de uma área urbana ao mesmo tempo que atrai lojas, cafés e restaurantes, o que, por sua vez, valoriza os bairros e cativa novos moradores.
Em agosto, num estudo encomendado pela Affordable Art Fair, concluiu-se que a street art pode fazer subir em milhares o preço de uma unidade de habitação, até “mais do que 50 mil libras” (aproximadamente €56 mil). A suportar a tese, 43% dos britânicos inquiridos admitiram que era mais importante viver numa área com pinturas murais do que ter um café por perto, e que estariam dispostos a pagar por isso. 29% por cento afirmaram que gostariam de encomendar uma obra a um artista para o exterior da sua habitação.

Imobiliárias e arquitetos 
investem

“Hoje, os artistas recebem pedidos para pintar murais porque os proprietários pensam que isso atrairá novos inquilinos ricos e afastará os graffiti que normalmente os desencorajam”, escreveu Elena Martinique na Widewalls, uma revista especializada na cultura urbana. Muitas vezes, os arquitetos já incluem nos seus projetos espaço para intervenções de arte urbana.

Bordalo II, Irlanda. O esquilo vermelho do artista e ambientalista Artur Bordalo, pintado no final do ano passado, situa-se numa área de Dublin, na Irlanda, que está a ser alvo de um grande plano de reabilitação. Um dos novos edifícios do projeto para as docas está orçamentado em €125 milhões

Bordalo II, Irlanda. O esquilo vermelho do artista e ambientalista Artur Bordalo, pintado no final do ano passado, situa-se numa área de Dublin, na Irlanda, que está a ser alvo de um grande plano de reabilitação. Um dos novos edifícios do projeto para as docas está orçamentado em €125 milhões

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Martinique indica o caso de um edifício em Chelsea, Nova Iorque, que suporta duas pinturas do brasileiro Eduardo Kobra. Desde 2012, “o valor de mercado subiu de 880 mil para 2.075.000 dólares, e o agente imobiliário Michael Rosser afirma que os murais contribuíram em 15% para este crescimento. Peças de Banksy ficaram conhecidas por fazerem duplicar o valor de propriedades de um dia para o outro”, relata.

Na maior parte das vezes, os projetos são apresentados como ações de reabilitação urbana com motivações sociais e apoiados por autarquias e empresas de mediação imobiliária, como a Kaufman & Broad (parceira da iniciativa StreetArt13, que renovou a imagem do 13º arrondissement, em Paris) ou a The Ratkovich Company (em Los Angeles, que pagou a WRDSMTH para pintar oito murais na baixa da cidade).

No verão de 2014, a Galerie Itinerrance levou 150 artistas a uma zona longe das vistas turísticas de Djerba —a aldeia de Erriadh —, na Tunísia, entre os quais Pantónio, Mario Belém, Paulo Arraiano e Add Fuel. “Gostei muito [do lugar] e fiquei com intenções de lá voltar. Soube que por 200 euros poderia alugar uma boa casa e, um ano mais tarde, fui passar três meses a Erriadh. A casa mais barata que encontrei tinha uma renda de 500 euros e a que custava 200 já estava a 800”, relata Pantónio.

Vhils, Estados Unidos. Alexandre Farto foi um dos portugueses convidados pelo Wynwood Walls a figurar numa das maiores concentrações de arte urbana do mundo, em Miami. Numa zona anteriormente marginal da cidade, vendeu-se uma propriedade de 3900 metros quadrados por 53,5 milhões de dólares, em 2016

Vhils, Estados Unidos. Alexandre Farto foi um dos portugueses convidados pelo Wynwood Walls a figurar numa das maiores concentrações de arte urbana do mundo, em Miami. Numa zona anteriormente marginal da cidade, vendeu-se uma propriedade de 3900 metros quadrados por 53,5 milhões de dólares, em 2016

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Que posição toma o artista no processo? “A pintura de uma fachada ou a organização de um festival de pintura envolve muitos custos — bilhetes de avião, muitos litros de tinta, alojamentos, alugueres de gruas e restaurantes — que exigem patrocinadores. É fácil, no processo de intenções e de negociações, a ideia inicial de expressão artística se subverter para uma ferramenta de uma campanha de marketing dissimulada. Eu tento perceber se serei uma dessas ferramentas de marketing”, admite o artista português que pintou em Paris, em 2014, o mural mais alto da Europa, de 66 metros.

O caso Goldman

Entre os reis do negócio com a arte urbana figuram os nomes de Tony Goldman — o ‘visionário do imobiliário’ nos Estados Unidos, falecido em 2012 —, Jessica Goldman Srebnick e Peter Tunney, que em 2015 fundaram a Goldman Global Arts com o objetivo de curar grandes projetos a nível global. Foi o que aconteceu no bairro de Wynwood, em Miami, para o qual prometeram “acrescentar vida a edifícios sem ela, cor e presença a fachadas brandas, ativar ruas abandonadas com atividade pedestre e, através das artes, criar uma comunidade onde indivíduos de todas as origens e demografias pudessem participar”. Transformaram uma zona de armazéns negligenciados num grito da moda, começando por investir em obras de arte urbana que, por sua vez, atraíram grandes marcas.

A par da intervenção de artistas cotados como os portugueses Vhils ou Bordalo II, o chileno Inti, a francesa Miss Van ou os brasileiros Os Gémeos, os preços do imobiliário (ainda hoje) não param de bater recordes. Em outubro de 2016, uma propriedade de 3900 metros quadrados entre a 26ª e a 27ª ruas de Wynwood foi vendida por 53,5 milhões de dólares. No mesmo ano, a Christie’s patrocinou (e esteve presente com amostras de imóveis de luxo) a aclamada feira Art Wynwood. “Com uma exibição de arte contemporânea de classe mundial, a Art Miami e a Art Wynwood tornaram-se duas das mais exclusivas plataformas de marketing para as nossas habitações de alta qualidade”, notou Rick Moeser, vice-presidente da Christie’s International Real Estate.

Ainda assim, poderá não ser o prédio pintado por Obey, um dos artistas urbanos mais cotados do momento, o mais caro de uma avenida cosmopolita. Pedro Soares Neves, investigador na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, acredita que não é um artista nem um edifício isolado que conseguem marcar o fenómeno da valorização imobiliária pela arte urbana. Há todo um ambiente que se conjuga. Além disso, “podem beneficiar mais os edifícios em frente àquele que serve de suporte à pintura”, acrescenta o investigador, aludindo à teoria da vista e à envolvência do bairro. Pagarão também estes moradores mais IMI?