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Portugal tem a sétima maior redução do endividamento

Os indícios de nova 'bolha' financeira multiplicam-se no ano em que a grande crise comemora 10 anos

FOTO Andrew Kelly /REUTERS

Desalavancagem. Em 2012, o conjunto da economia portuguesa devia cinco vezes o seu PIB. Atualmente, está em quatro vezes. E teve uma das maiores descidas entre 2016 e 2017

Portugal reduziu o peso da dívida no PIB em 18 pontos percentuais entre setembro de 2016 e setembro de 2017, integrando o grupo de economias desenvolvidas que, à escala mundial, mais emagreceram o sobreendividamento, segundo dados do “Global Debt Monitor” publicado pelo Institute of International Finance (IIF). O grupo inclui 11 economias europeias, com destaque para o Luxemburgo e a Irlanda que registaram as maiores reduções, situando-se Portugal em 7º lugar (ver tabela).

Note-se que o IIF, a associação da finança privada mundial, inclui na sua avaliação da dívida de um país o endividamento gerado por todas as entidades — particulares, empresas, Governo e sector financeiro. Não se trata apenas da dívida pública, que habitualmente está em maior destaque, nem somente do agregado do sector não financeiro (particulares, empresas e Governo) divulgado regularmente pelo Boletim Estatístico do Banco de Portugal. O IIF analisa também as variações no endividamento do sector financeiro, a partir da evolução das suas emissões de dívida e do crédito obtido fora do país. Não deixa, contudo, de sublinhar que, em algumas economias desenvolvidas, como é manifestamente o caso do Luxemburgo, a volatilidade do sector financeiro é muito marcada.

Nos doze meses analisados pelo estudo do IIF, o principal motor do emagrecimento na maioria das 11 economias europeias foi a redução do peso do endividamento do sector financeiro. Esse padrão marcou, também, a evolução portuguesa. Metade do emagrecimento do peso da dívida portuguesa naquele período deveu-se à redução operada naquele sector, cujo endividamento caiu quase 9 pontos percentuais do PIB face a 4,7 pontos para as empresas e 3,5 para os particulares. O menor contributo para a descida veio do Estado, que apenas reduziu o peso da sua dívida em um ponto percentual do PIB nestes doze meses terminados em setembro. Para o final do ano de 2017, o Governo tem uma meta de 126,2% do PIB — reafirmada esta semana por António Costa — que corresponde a uma redução de 3,9 pontos percentuais face a 2016.

Irlanda lidera corte 
na dívida pública

De destacar que quatro periféricos do euro reduziram o seu endividamento em relação ao PIB, com destaque para a Irlanda, cujo esforço de redução foi sobretudo devido ao sector empresarial, mas onde a queda do peso da dívida do sector financeiro também desempenhou papel importante.

Foi também a Irlanda que mais reduziu o peso da dívida pública no PIB: 4 pontos que bateram os 3,9 de Itália, os 3,7 de Espanha e o ponto português. A Grécia, pelo contrário, agravou o peso da dívida pública em 1,5 pontos, afastando-se da tendência geral nos outros periféricos nos últimos doze meses.

Apesar de a Itália registar um endividamento público superior em 10 pontos percentuais ao português tem uma dívida global inferior. Mais concretamente, 325% do PIB contra os 404% portugueses. Refira-se que a dívida pública considerada pelo IIF não é a medida pelo critério de Maastricht, que é o usado nas regras europeias.

Corte brutal desde 2012
 graças à banca

Numa retrospetiva mais longa, a economia portuguesa atingiu um pico histórico de endividamento total no final de 2012 com 496% do PIB. Caiu depois quase 100 pontos percentuais fechando, em setembro passado, em 404% (ver gráfico). Esta quebra impressionante em cinco anos, equivalente a toda a riqueza gerada em um ano, dá bem a dimensão do processo de contração brutal do endividamento da economia portuguesa durante os anos mais duros do processo de resgate e após a ‘saída limpa’.

Aquela redução foi, contudo, feita pela desalavancagem no sector financeiro, que contribuiu para metade daquela quebra, e pelo desendividamento das empresas (uma queda de 30 pontos percentuais) e dos particulares (uma diminuição de 20 pontos percentuais).

Pelo contrário, nos últimos cinco anos o Estado português aumentou em 14 pontos percentuais do PIB o seu endividamento, chegando a registar um pico de 145,9% em março de 2015. Deu um ‘salto’ de 126,2% no final de 2012 para 140,6% em final de setembro passado, segundo dados do IIF para a dívida pública. Já no critério de Maastricht, no final do terceiro trimestre do ano passado, a dívida estava em 130,8% do PIB.

O pecado da ‘gula’, contudo, não é só português. O padrão foi similar para Espanha e Itália naquele período. A dívida pública subiu 25 pontos percentuais do PIB no nosso vizinho peninsular e 19 pontos percentuais na ‘bota’ italiana. Uma subida em relação ao PIB respetivo superior ao que ocorreu em Portugal.