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Apertar a política monetária não vai resolver o fraco crescimento da produtividade

Maurice Obstfeld, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, ‘choca’ os defensores da liquidação da politica monetária expansionista numa intervenção proferida esta quarta-feira numa Conferência conjunta com a OCDE e o Banco de Pagamentos Internacionais

Jorge Nascimento Rodrigues

“Uma política monetária apertada não é a resposta para o fraco crescimento da produtividade”, afirmou Maurice Obstfeld, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) num artigo publicado esta quarta-feira no blogue europeu VOX que serviu de base à intervenção que proferiu na abertura de uma conferência conjunta do Fundo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e o Banco de Pagamentos Internacionais (conhecido pela sigla inglesa BIS). O artigo tem a coautoria de Romain Duval, do departamento de investigação do FMI.

O economista sublinhou que a tendência de desaceleração do crescimento da produtividade nas economias desenvolvidas e nos países de baixo rendimento é anterior à grande crise financeira. O que o colapso financeiro em 2007 e 2008 e depois a recessão de 2009 provocaram foi a “amplificação” dessa tendência gerando um processo posterior de histerese, ou seja, a preservação da tendência descendente, que perdura mesmo face ao final da crise e a um bom andamento da retoma económica.

“Apesar de toda a esperança e discussão sobre um renascimento da produtividade em virtude dos avanços tecnológicos, nos períodos entre 2000 e 2007 e 2011 e 2016, a produtividade total dos fatores caiu de 1% para 0,3% nas economias desenvolvidas, uma queda de 0,7 pontos percentuais, e de 2,8% para 1,3% nas economias emergentes e em desenvolvimento, um recuo de 1,5 pontos percentuais”, sublinha Obstfeld. As razões estruturais permanecem, tornando “muito desafiador regressar inclusive às taxas modestas de crescimento da produtividade anteriores à crise”.

Não a uma ‘normalização’ prematura

Não foi a política monetária expansionista, de resposta à crise, que endureceu aquela resistência a uma alteração da tendência de abrandamento do crescimento da produtividade. “Provavelmente as políticas monetárias até provocaram efeitos colaterais involuntários sobre a recente experiência no crescimento da produtividade, mas a magnitude e o sinal são pouco claros - de fato, essas consequências não intencionais podem até ter um efeito global positivo. Essa ambiguidade reflete os canais múltiplos, muitas vezes conflituantes, através dos quais essas políticas podem afetar a produtividade”, sublinha o economista.

Referindo-se especificamente à situação na Europa, Osbtfeld refere: “Se os fatores financeiros estão a reduzir o crescimento da produtividade, a melhor abordagem é lidar com esses fatores financeiros diretamente - no caso da Europa, através de medidas para fortalecer os sistemas bancários e facilitar a reestruturação de empresas - em vez de normalizar a política monetária prematuramente”.