Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Os líderes também são temporários

Há cada vez mais gestores seniores a colocar a sua experiência de carreira ao serviço de outras empresas, como diretores temporários 


FOTO JEAN-SEBASTIEN EVRARD/AFP/Getty Images

Estratégia. São experientes, altamente qualificados e as empresas procuram-nos cada vez mais. Os gestores interinos vieram para ficar

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Cada vez mais empresas portuguesas a recorrerem a trabalhadores independentes altamente qualificados para exercerem cargos de liderança temporários. O fenómeno tem a designação de interim management (gestão temporária) e embora não seja novo, só nos últimos anos tem vindo a conquistar terreno num tecido empresarial ainda muito conservador em matéria de liderança, como o nacional.

Da parte das empresas, a procura por esta solução que permite dar uma resposta rápida a necessidades estratégicas do negócio — como a abordagem a mercados internacionais, o lançamento de novos produtos ou serviços, a implementação de uma estratégia de transformação organizacional, ou até um processo de consolidação financeira — tem aumentado de tal forma que há consultoras de recrutamento a reforçarem esta área de negócio e novas empresas a surgir no mercado. Entre os profissionais, a modalidade também está a ganhar adeptos. São cada vez mais os gestores seniores, muitos experientes e qualificados, a querer trabalhar por missões com duração definida. E não o fazem por falta de outras oportunidades, mas por opção.

Em 2016, a consultora de recrutamento Michael Page realizou uma radiografia ao sector nacional dos “temporários especializados”. O estudo realizado não permitiu à empresa alcançar o número exato de profissionais que nesse ano trabalhariam em cargos de gestão interina, mas foi suficiente para traçar o seu perfil. Nessa altura, o inquérito realizado junto de cerca de 500 líderes de empresas que recrutam gestores temporários e 1148 profissionais em funções, apurou que 58% dos gestores interinos no ativo tinham mais de duas décadas de carreira e 49% possuíam um mestrado ou um MBA. Qualificações e experiência acumulada que afastam, a uma primeira análise, a teoria de que apenas se torna temporário quem não encontra oportunidades de trabalho permanentes. Essa é, de resto, uma realidade cada vez menos expressiva a nível global. Um estudo realizado pela plataforma Upwork e pela Freelancers Union, revela que há um número crescente de profissionais qualificados a trabalhar a nível global como freelancers (de forma independente), por missões ou projetos, por opção própria e a tendência deverá continuar a aumentar nos próximos anos.

Impulsionador de carreiras

O estudo da Michael Page concluiu que três em cada quatro gestores interinos em funções em Portugal gosta das suas funções, embora reconheça que trabalhar nesta modalidade coloca níveis de pressão maiores. O estudo concluía que 79% precisavam de alcançar mais objetivos em menos tempo e que 69% sentiam que os objetivos de desempenho eram mais difíceis do que em funções permanentes. Ainda assim, “67% destes profissionais admitiam que a sua carreira evoluiu ao trabalhar em regime de interim management”.

Os dados, ainda que reportando a 2016, permanecem os mais atuais sobre o panorama nacional da gestão interina. Mas Sara Zorro, consultora sénior da Michael Page, reconhece que o mercado tem vindo a mudar e que nos últimos anos, a procura das empresas por este tipo de gestores aumentou. O número de gestores disponíveis para trabalhar interinamente também ganhou outra dimensão. Nem todos profissionais colocados pela Michael Page em funções de gestão interina têm percursos profissionais de décadas e a especialista da consultora até reconhece que “os millennials estão entre os profissionais qualificados que demonstram grande disponibilidade para trabalhar em funções de direção de projetos ou departamentos em regime temporário”.

Há várias formas de abordar a gestão interina. O elo comum entre elas é sempre o elevado nível de qualificação dos profissionais e o facto de serem sempre funções de direção e de curta duração (seis meses, aproximadamente). Nas consultoras de recrutamento o processo segue trâmites semelhantes ao de uma colocação em regime de trabalho temporário. A empresa tem uma bolsa de especialistas disponíveis, com um vasto leque de qualificações e níveis de senioridade distintos, e faz a conjugação desses candidatos com as necessidades da empresa.

Em muitos casos, o gestor temporário pode passar a efetivo. Essa é a expectativa de grande parte dos candidatos e de algumas empresas. “100% dos profissionais estão disponíveis exercerem funções de gestão interina desde que sintam que a intenção da empresa é a integração”, explica Sara Zorro. Isto é particularmente sentido em sectores como o Legal, os Recursos Humanos, a Logística ou as direções comerciais e de Marketing. É mais difícil que aconteça em áreas como as tecnologias e a contabilidade, onde os profissionais têm pouca apetência para assegurar cargos de gestão interina. A consultora reconhece também que “muitas empresas optam por esta modalidade para terem períodos de experiência mais alargados, mas a intenção é a contratação”.

Temporários por opção

Nas consultoras de gestão, o processo é ligeiramente diferente. O leque de candidatos disponíveis é normalmente menor, mas o seu perfil é, forçosamente, muito experiente, altamente qualificado e sem perspetivas de permanência na empresa cliente, além do período em que dura a missão de gestão interina. É esta a realidade da consultora de performance empresarial Argus que acaba de se associar ao Wil Group, multinacional especializada em gestão interina, para lançar a área no mercado nacional.

Da equipa de Paulo Leal, diretor associado da empresa em Portugal, fazem parte 15 gestores altamente qualificados e com uma média de 30 anos de carreira, que trabalham junto dos clientes da empresa, em cargos de direção executiva temporários, consoante as necessidades que venham a ser identificadas e o contexto que a organização atravessa. O líder esclarece que a decisão de alargar a atividade da Argus em Portugal à área de gestão interina, partiu da convicção de que este é um mercado que está a crescer exponencialmente e onde o país ainda tem grande imaturidade.

Há, reconhece, cada vez mais procura destes gestores para funções de direção operacional de primeira linha — “em casos em que o objetivo é a melhoria do desempenho da empresa, a transformação do negócio, a reestruturação financeira, a gestão de ativos ou condução de processos de venda” — mas, ao contrário do que é prática noutros países, o recurso a gestores interinos para cargos de topo (CEOs), ainda é basicamente inexistente em Portugal.

Paulo Leal admite, contudo, que o cenário pode vir a mudar. Até porque são várias as vantagens que a gestão interina assegura a profissionais e empresas (ver caixa). O que, segundo o especialista, não deixa já margem para dúvidas é que o recurso a gestores interinos é hoje prática corrente em todos os sectores de atividade, da banca à indústria. Onde exista uma empresa com necessidades específicas de gestão, “esta é uma forma eficaz de dar resposta a problemas concretos”, afirma. Esta, realça, é uma tendência crescente, até porque, “cada vez as empresas têm necessidades de competências mais específicas”.

Outro mito que diz estar a desfazer-se é o de que estes gestores trabalham temporariamente porque estavam em situação de desemprego ou não encontraram outras opções. “A gestão interina não é uma solução de recurso para estes profissionais. É uma opção de carreira de quem soma um longo percurso na gestão de empresas e coloca o seu conhecimento ao serviço de líderes a braços com problemas ou dilemas estratégicos”, conclui.