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‘Efeito Amazon’ já chegou a Portugal

Entregas e logística são os fatores determinantes do sucesso do comércio eletrónico

Jane Barlow - PA Images

Caos instalou-se nas entregas do Natal num mercado a ajustar-se ao gigante do comércio eletrónico


A Amazon ainda não está em Portugal diretamente, mas o ‘efeito Amazon’ já se faz sentir. A redução dos custos das entregas em Portugal a partir de Espanha, aliada ao Natal e à loucura com as compras online, e às estimativas subdimensionadas de vendas da Amazon nesta época, colocaram o gigante do comércio eletrónico no centro de uma onda de queixas devido a atrasos nas encomendas.

Entre as novas terminologias que passaram a fazer parte do léxico da gestão, o ‘efeito Amazon’ é o que mais dores de cabeça tem dado, em particular ao retalho e à grande distribuição. Uma denominação que se refere aos ajustamentos e disrupções que os mercados sofrem com a entrada deste retalhista, que onde entra provoca desde uma descida vertiginosa dos preços, ao fim de determinados modelos de negócio, passando por despedimentos em massa ou procura superior à oferta em determinadas áreas que não estão dimensionadas para o tráfego gerado pela Amazon.

Uma experiência de compra à distância de um clique, no conforto de casa ou de um telemóvel, a preços baixos, com uma seleção alargada de produtos e entrega rápida são os ingredientes que fazem da Amazon o paraíso para os consumidores e o inferno para a concorrência. No Natal, o ‘efeito Amazon’ deu-se a conhecer com o caos instalado no envio de encomendas, que está entregue à SEUR.

Escusando-se a falar diretamente sobre a Amazon, Mónica Ruivo, diretora-geral da SEUR Portugal, avança que estão a ser feitos todos os esforços “para ajudar os nossos clientes a responder ao crescimento que estão a ter nas suas vendas e a nossa intenção é que recebam as suas remessas o mais rápido possível”.
A responsável desta empresa de entregas explica que as previsões feitas com as empresas que são suas clientes apontaram para um crescimento de 20% da atividade no último trimestre, que se poderia intensificar em datas como a Black Friday. “Estas previsões foram amplamente excedidas, muito pelas promoções mais agressivas e de duração alargada, face a anos anteriores”, refere Mónica Rufino.

“Este enquadramento provocou um aumento generalizado da atividade para todo o sector de transporte urgente, com um carácter absolutamente excecional especialmente na região de Lisboa, que cresceu mais de 95% face à média do ano”, explica a diretora-geral da SEUR, garantindo que não houve outra região em toda a Península Ibérica que tenha registado este aumento. “Desde 26 de dezembro, a atividade desceu significativamente e estamos já a recuperar para os níveis de serviço que prestamos aos nossos clientes regularmente ao longo do ano”, garante.

A perturbação nas entregas, no entanto, não foi igual para todos os operadores. Fonte oficial dos CTT garante que apesar da greve as encomendas distribuídas foram entregues até à semana passada, a tempo do Natal. “A greve afetou pouco e alguns dos nossos carteiros trabalharam no sábado, 23 de dezembro, para escoar alguns volumes adicionais próprios da época, que se somaram a distribuidores CTT Expresso que também estiveram quer no sábado quer na véspera de Natal, domingo, 24 de dezembro”, explica a mesma fonte.

Em relação às reclamações no Portal da Queixa contra os Correios (964), o maior número entre as empresas de entrega de encomendas, fonte oficial da empresa desvaloriza essa informação, que foi divulgada no fim de semana passado. “Os dados que têm sido atribuídos ao Portal da Queixa dizem respeito a períodos anteriores à época do Natal. Como felizmente o número de encomendas derivadas de comércio eletrónico, uma das nossas claras alavancas de crescimento, está a crescer expressivamente, tal dá origem a que todos os números, volumes, faturação, reclamações, etc., sejam maiores. Como os CTT são claros líderes deste mercado, entre 33% e 50%, e só nos primeiros nove meses do ano transportaram 23,5 milhões de encomendas, seria improvável que não apresentassem um maior número de reclamações, muitas relacionadas com a passagem na alfândega, tema que ultrapassa os CTT”, refere.

Pedro Palha, especialista da consultora PWC, sustenta que a Amazon vai demorar um tempo até recuperar a confiança dos consumidores, mas o comércio eletrónico é uma tendência imparável devido às novas gerações para quem é cada vez mais fácil comprar através da internet. Os atrasos de encomendas no Natal “são o reflexo da incapacidade das empresas de entregas e de uma tendência de consumo de quem prefere evitar filas nas lojas”, argumenta Pedro Palha.

A Amazon sabe que as entregas são o fator determinante do sucesso e, por isso, dedicou o último ano a fortalecer esta área com a aquisição de centros comerciais, nomeadamente nos Estados Unidos, para transformá-los em centros de logística Fulfillment by Amazon. Esta estratégia foi adotada para dar resposta aos crescimentos de vendas de 40% e aos planos de expansão através da prestação de serviços de armazenamento, embalamento e expedição de produtos de outras empresas, que estão à venda no site da Amazon. A inteligência artificial e a robotização da mão de obra no retalho é outra das apostas da Amazon, que no final deste ano estima ter 75 mil robôs, o que equivale à destruição de 170 mil postos de trabalho. Até à hora de fecho desta edição a Amazon não esteve disponível para prestar declarações.