Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

“A ambição é evoluir para uma grande farmacêutica”

António Portela sucedeu ao pai em 2011 na condução da empresa da família

Rui Duarte Silva

Entrevista a António Portela, Presidente executivo da Bial

António Portela, 42 anos, sucedeu ao pai na condução do negócio da Bial num momento em que o país seguia a cartilha da troika, cortando 30% no mercado das farmacêuticas. Nos seis anos de gestão executiva, este ex-nadador de alta competição atravessou sem perder o pé o inferno do ensaio clínico fatal em França (2016) e subiu ao céu com a entrada no mercado do segundo medicamento made in Portugal. O rumo segue inalterado: fazer da pequena Bial uma farmacêutica de dimensão mundial. A empresa desenvolveu e comercializa o Zebiniz (antiepilético) e o Ongentys (doença da Parkinson).

Para quando o lançamento de um terceiro medicamento made in Bial?
Nunca antes de 2020. Destina-se à hipertensão pulmonar arterial, uma doença muito grave mas que afeta poucas pessoas. Os esforços estão concentrados no lançamento do Ongentys e a preparar a sua entrada nos Estados Unidos e no Japão. Não temos dimensão para fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

O Ongentys está em quatro mercados europeus, mas não em Portugal. É paradoxal, não é?
Estamos em negociações com o Infarmed. Claro que gostaria que já estivesse disponível. O processo segue a tramitação normal.

Mas se países como a Alemanha ou Inglaterra já o aprovaram parece que há má vontade.
Não, não há má vontade. Temos de conviver com as regras. A agência europeia faz a aprovação técnica e científica. O preço e a comparticipação dependem do regulador de cada país.

Com o Zebinix a aprovação foi mais rápida.
Foi? Não me lembro. Os processos não são comparáveis, passaram-se sete anos. Sendo o país de residência da Bial, gostava de o ter disponível. Não ajuda quando chegamos a outros países e dizemos que ainda não está em Portugal.

O custo de um medicamento (€300 milhões) é igual ao de uma barragem, mas o prazo de amortização é mais curto.
Há um risco grande. A cifra de €300 milhões é o investimento direto no desenvolvimento de cada molécula, sem contar os custos indiretos e o que se perde pelo caminho. Em 25 anos, a Bial deitou para o lixo 12 mil moléculas. A literatura internacional fala em custos, incluindo todos os gastos, entre €1500 e €2000 milhões. E diz que só dois em cada 10 conseguem recuperar o investimento feito. Isto é assustador!

Dois em cada 10? Como é que a indústria ganha dinheiro?
A maioria não recupera o investimento. Há outros que têm de compensar o esforço financeiro. No caso do Zebinix, no mercado desde 2009, ainda não recuperámos o investimento.

Em quantas moléculas estão a trabalhar?
Temos seis moléculas patenteadas em todo o mundo. Duas já estão no mercado, há uma terceira numa fase mais avançada e muitas outras em fases anteriores. Só patenteamos quando temos um grau de certeza de que podem funcionar. O foco está nos medicamentos para o sistema nervoso central e cardiovascular.

Investem €50 milhões por ano em Investigação & Desenvolvimento. Como financiam?
Desde 2010 até hoje investimos €400 milhões. Um valor enorme para a nossa dimensão, mas não muito grande atendendo ao que está em causa. Recorremos a capitais próprios, dívida bancária e fundos comunitários. Temos um empréstimo do Banco Europeu de Investimento (BEI), de €60 milhões e fizemos há dois anos um empréstimo obrigacionista de €50 milhões.

A banca nacional apoia?
Sentimos esse apoio. Hoje é mais fácil porque temos resultados. A banca foi acreditando nos projetos. Agora estamos menos dependentes de dívida.

Que balanço faz do desempenho comercial do Zebinix e do Ongentys?
Os casos são diferentes. O Zebinix tem sete anos, está em 44 mercados e envolveu um processo de aprendizagem enorme. Não tínhamos recursos para o comercializar e optámos pelo licenciamento para os Estados Unidos e também para a maioria dos mercados europeus. As coisas têm corrido bem, mas se voltasse atrás faríamos de forma diferente.

O quê, por exemplo?
Nos Estados Unidos contávamos ter a aprovação em 2010 e só conseguimos chegar ao mercado em 2014. Esse atraso teve um impacto tremendo. Deveríamos ter antecipado que a FDA-Food and Drug Administration iria exigir mais um ensaio que custou €30 milhões, fazer uma abordagem ao mercado de forma diferente. Ficou a aprendizagem de como lidar com a FDA. Com o Ongentys preparámos as coisas de forma diferente.

Nessa altura, dizia que a Bial não tinha pergaminhos nos Estados Unidos. Já superou esse défice?
Sim, a FDA já aprovou três indicações, entre as quais a aplicação na pediatria em que os reguladores são mais exigentes. O primeiro processo foi exigente, com um escrutínio que nos pareceu exagerado. Mas tem correspondido de forma exemplar, sem percalços, em milhares e milhares de doentes de epilepsia. O défice está superado.

Assinaram este ano um contrato para a venda do Ongentys no mercado americano.
Temos um acordo com a Neurocrine que pode ir até aos 150 milhões de dólares (€127 milhões). Só no primeiro trimestre de 2018 teremos uma ideia, face à reação da FDA, de quando chegará ao mercado. No Japão, assinámos uma parceria em 2013 com a Ono Pharmaceuticals. O mercado japonês é muito importante na doença de Parkinson por ter uma esperança de vida grande. Na Europa, a opção foi entregar a comercialização a filiais próprias. Neste ano de estreia está acima das expectativas.

Quanto pesam os dois novos medicamentos na faturação, em 2017?
O Zebinix pesa um terço (€90 milhões) e o Ongentys gera €10 milhões.

Por quantos anos vigora a exclusividade de cada um?
A patente é valida por 20 anos, a partir do registo. O Zebinix foi patenteado em 1996, e como registou um tempo de desenvolvimento grande, teve uma extensão até 2022. No Ongentys a data que conta é 2005. Estamos arrependidos deste caminho? De maneira nenhuma.

E ganham dinheiro com os outros 50 que fabricam?
Nos medicamentos mais antigos, há casos em que uma caixa de 30 comprimidos custa €2 ou €3. Vendem muito, mas a rentabilidade é baixa. Não é por aí que vamos ganhar dinheiro. A rentabilidade futura está nos novos medicamentos.

Admite um cenário de uma fusão envolvendo a Bial?
Na Europa, nos últimos 10 anos, só 27 empresas conseguiram levar novos medicamentos ao mercado. A Bial é talvez a mais pequena desse grupo. Mas não queremos ficar pequenos para sempre. Neste sector, as empresas são muito grandes porque os investimentos são enormes. Mas antes elas foram pequenas e médias. A nossa ambição é evoluir para uma grande farmacêutica.

Preferem ir mais devagar mantendo o carácter familiar.
O que já fizemos deu muito trabalho, é muito duro esperar 10 ou 12 anos para uma molécula chegar ao mercado. Agora que fizemos duas, temos o direito de desfrutar. Fizemos este caminho com gosto, com resistência e automotivação. Às vezes perguntam-nos de forma mais direta se estamos disponíveis para vender a empresa.

E se surgir uma oferta irrecusável, acima dos €500 milhões?
Não vendemos, nem por uma oferta irrecusável. Os últimos anos têm sido de investimento. Como empresa familiar, o pensamento é de longo prazo. Neste momento, não estaremos a ser recompensados, mas trabalhamos para ter outra dimensão e obter uma recompensa maior.

Portugal tem dimensão para uma empresa com o perfil Bial?
Tem para aquilo que quisermos. Há 25 anos o meu pai definiu três linhas estratégicas: qualidade, inovação e internacionalização. A diferença é pela inovação e aí a dimensão de Portugal deixa de ser relevante. Um novo medicamento pressupõe uma visão global. Não é pago nem pelos mercados europeus.

E merece a Bial?
O país tem todas as condições. É o mercado onde nascemos e crescemos, temos uma afetividade inerente. Comparados com outros países, não temos desvantagens. Sinto que a Bial é reconhecida e acarinhada, porque sozinhos não teria sido possível. Mas acho também que somos um bom exemplo do uso de incentivos, gerando valor acrescentado, emprego, exportações.

Como antecipa a Bial centenária, em 2024?
O principal desafio é continuar a desenvolver novas moléculas e acelerar a expansão internacional, para ter faturação e rendimento para investir mais I&D. E ter, pelo menos, mais um medicamento no mercado.