Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

“Crescimento económico global vai continuar forte”

Os países com maior dívida devem aproveitar o bom momento económico para a reduzir, defende Keith Wade

FOTO SCHRODERS

Keith Wade Economista-chefe da Schroders

Pedro Lima

Pedro Lima

em Londres

Editor-adjunto

Keith Wade é economista-chefe da gestora de ativos Schroders desde 1988. Em entrevista ao Expresso, revela que a recuperação do comércio e do investimento têm sido surpreendentes a nível global. Mas antecipa riscos.

O crescimento económico mundial tem estado a bater a maior parte das previsões. Também tem sido surpreendido por números melhores do que o previsto?
Sim. Se olharmos para o início do ano vemos que as economias estão a ter melhores desempenhos, principalmente no segundo semestre, onde verdadeiramente se verifica uma descolagem. Aconteceu muita coisa que não tínhamos antecipado. Em primeiro lugar, a recuperação do comércio a nível global. Por outro lado, esperávamos que o ciclo de investimento avançasse, mas não tão depressa. Há também o facto de a China estar mais forte e os preços das matérias-primas estão um pouco mais robustos. Mas a maior surpresa foi a zona euro. Se olharmos para as previsões feitas em 2016, elas apontavam para um crescimento, neste bloco, de 1,2% este ano. Está nos 2,4%.

Esta força deverá manter-se?
Sim, é o que prevemos para 2018, os principais indicadores continuam muito fortes. E é importante que este crescimento esteja a ser sincronizado em diferentes partes do mundo.

Que riscos identifica?
A retirada do programa de estímulos pelo Banco Central Europeu só agora está a começar, e sabemos que vai aumentar progressivamente de tamanho, antecipando-se assim uma redução da liquidez. Isso é essencialmente um risco para os mercados financeiros. O comércio global poderá também surpreender-nos. Há a possibilidade de os estímulos orçamentais no euro serem superiores ao que esperamos. Há quem antecipe um crescimento global de 3% no próximo ano, parece-me demasiado elevado.

Vê o risco de rebentamento de bolhas?
Claramente os preços nos mercados acionistas estão muito elevados, muito por causa dos baixos juros. A redução das compras de ativos pode ter como efeito a subida das yields e, por essa via, dar origem ao rebentamento dessas bolhas. Mas os mercados acionistas darão um retorno maior, por via da melhoria dos resultados e dos dividendos, do que os mercados obrigacionistas.

No início da presidência de Donald Trump houve quem dissesse que seria boa para a economia americana e, por esse motivo, boa para a economia mundial. É essa a sua opinião?
O que é que ele fez até agora? Essa é a questão. Não fez grande coisa. Parte do seu pacote fiscal seria bom para a economia, há uma parte sensível na redução dos impostos para as empresas. Há também alguns níveis de desregulação que podem ser boas medidas. Mas tem de ter cuidado para não estimular em excesso a economia, gerando riscos de inflação. Fez algumas coisas positivas, a questão é mesmo o que ele disse que ia fazer e não fez. Disse que ia considerar a moeda chinesa como especulativa e não o fez. Ainda não abandonou a NAFTA, apesar de continuar a dizer que o fará. O que é certo é que a confiança dos empresários tem estado a aumentar.

Porque é que a inflação está tão baixa?
Janet Yellen, ex-presidente da Reserva Federal, fez uma análise sobre o assunto e disse que não conseguia explicá-lo, o que é um pouco preocupante. Acho que há um ‘efeito Amazon’, a concorrência que a Amazon está a introduzir no mercado, o efeito disruptivo, provavelmente vamos vê-lo no valor das ações, nas lojas, no emprego, isso tem um efeito deflacionário significativo. Também houve muita austeridade, com impacto nos salários da Função Pública, o que pode servir como âncora no sector privado. A minha preocupação é que, ao tentar trazer a inflação para 2%, os bancos centrais mantenham as taxas de juro demasiado baixas por demasiado tempo.

O BCE exagerou no programa de compra de ativos, já o devia ter retirado?
Faz sentido discutir se não foi demais e se não criou grandes distorções no mercado, mas tem sido um importante contributo para a recuperação na Europa. Reduziu o prémio de risco em muitas economias. A retirada dos estímulos responderá à questão sobre se a recuperação das economias europeias é ou não sustentável. Eu acho que é.

Os países continuam viciados no crédito?
É necessário um período de bom crescimento de forma a conseguir reduzir essa dívida. Estamos a entrar numa altura dessas. Os mercados querem ver se países como Portugal, Itália e de certa forma Espanha reduzem a sua dívida enquanto ‘o sol está a brilhar’.

Como vê o desempenho de Portugal?
Não posso comentar o caso português porque não o sigo. Mas de modo geral tenho visto os indicadores e parecem-me muito bem.

O Expresso viajou 
a convite da Schroders