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O desafio de crescer sem turismo fast-food

João Vieira Pereira (Expresso) moderou o debate que decorreu no Teatro Micaelense, em São Miguel, Açores, e que contou com a participação de Filipe Macedo (Turismo dos Açores), Isabel Barata (SATA), Jan de Pooter (Tranquilidade/Açoreana), João Welsh (CBK) e Miguel Muñoz Duarte (Nova School of Business)

Fernando Resendes

As oportunidades e os riscos que se colocam ao turismo numa região em que o sector cresce a dois dígitos há dois anos. A solução passa por manter-se como destino autêntico e genuíno

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

O turismo nos Açores está a mudar. Desde 2014 que se regista um crescimento sustentado pela liberalização das linhas aéreas e nos últimos dois anos até tem estado a crescer a dois dígitos (ver caixa). Além disso, segundo o diretor regional do Turismo dos Açores, Filipe Macedo, o tipo de visitante tem vindo a mudar. Era tudo muito organizado (tours), mas agora há mais turistas independentes que compram o destino de forma diferente. Mais: o principal mercado emissor já não é só o alemão, notando-se um maior número de visitantes dos EUA, Espanha e Holanda. E é por isso mesmo que o turismo nos Açores está num importante ponto de viragem: ou segue pelo turismo fast-food e de massas, que descaracteriza e retira competitividade à região, ou mantém-se como um destino autêntico e genuíno com que é caracterizado desde sempre e que, acima de tudo, fez com que crescesse a dois dígitos nos últimos dois anos.

A julgar pelas opiniões dos oradores presentes na quarta conferência “Seguros: Os Novos Desafios”, organizada pela Tranquilidade/Açoreana e pelo Expresso e que esta quarta-feira debateu os desafios e as oportunidades do turismo nos Açores, a resposta é simples: o caminho a seguir não pode ser o do turismo de massas.

“Os Açores não podem querer ter unidades turísticas das grandes cadeias hoteleiras, não podem querer encher os Açores de restaurantes fast-food, não podem aceitar que os restaurantes tenham as fotografias dos menus ou que tenham chamadores de clientes à porta, não podem ter a ambição de receber muitos grupos... A melhor estratégia para os Açores é não se transformar num destino turístico, porque se for vai perder os seus fatores diferenciadores”, comentou o administrador do grupo CBK, João Welsh, um dos participantes no debate. Uma opinião partilhada pelo professor da Nova School of Business Miguel Muñoz Duarte: “Temos de colocar os Açores no mapa internacional certo, que não é o da praia da Rocha ou o do Zezé Camarinha”, disse na apresentação que fez no arranque da conferência, notando ainda que, para atingir isto, seria essencial criar a marca Açores. “Qual é a Apple do Atlântico? Tem de ser os Açores!”

Autenticidade e natureza
Para estes dois oradores, não há dúvidas. “Temos de nos preservar como destino único e diferente”, disse Miguel Muñoz Duarte. Ou seja, os Açores “têm de ir à procura de um turismo que se envolva com a natureza”, que mantenha a autenticidade e genuinidade que sempre os caracterizaram, reparou João Welsh. Aliás, para o CEO da Tranquilidade/Açoreana, Jan de Pooter — um holandês a viver agora em Portugal —, os Açores têm um potencial muito grande, comparável ao da Nova Zelândia, onde a promoção do turismo é maioritariamente feita pela autenticidade da paisagem e pelas experiências na natureza.

Para atingir este desejos e objetivos é importante formar as pessoas e dar-lhes remunerações adequadas, não só pelo turismo que fazem e promovem como pelo crescimento que isso trará para a região. E, reparou João Welsh, é importante que, no planeamento das infraestruturas que vão agora começar a ser necessárias por causa do crescimento do turismo, haja capacidade de dizer ‘não’. “Temos de ter cuidado com qualquer tipo de euforias”, disse. Filipe Macedo, outro dos participantes, assegurou que é também este o caminho que a Direção Regional do Turismo quer seguir, não só na promoção como no planeamento das infraestruturas, que está a ser adequada ao crescimento dos turistas de forma ponderada.

“Os Açores são caracterizados por ter unidades de pequena e média dimensão e, pela informação que temos dos licenciamentos aprovados, assim irá continuar. Estão previstos mais 12% de hotéis, mas no alojamento local e apartamentos turísticos o crescimento previsto é de 67% e de 52% no turismo rural”, explicou, salientando: “Não estamos preocupados.” Além disso, nos últimos anos houve uma alteração no tipo de promoção que a Direção Geral do Turismo faz. “Era um turismo contemplativo e migrámos para uma promoção de turismo de experiência. As vacas felizes seriam um bom mote, mas o que definimos é uma promoção como turismo de natureza ativo”, adiantou.

Muito para crescer
Dizer ‘não’ a construções megalómanas ou a um crescimento desproporcional da oferta, por exemplo, de alojamento local não significa um travão ao crescimento. Até porque os Açores acordaram tarde para o turismo e ainda têm muito para crescer e para promover. “Estamos a falar de crescimentos com uma base muito reduzida. Tivemos menos de dois milhões de dormidas em 2016. É um quarto das dormidas na Madeira”, disse Filipe Macedo, lembrando que os Açores não são apenas São Miguel e a Terceira, as ilhas mais visitadas, mas sim um arquipélago de nove ilhas.

Além disso, o turismo nos Açores está longe de se encontrar consolidado. De acordo com Isabel Barata, vogal executiva da companhia aérea açoriana Sata, ainda existe uma grande sazonalidade, que é preciso combater, por exemplo, promovendo outro tipo de atividades, como o vulcanismo. Ou então, sugeriu João Welsh, aumentar o período de época alta.

“Não vale a pena criar pacotes específicos para a época baixa. Temos de tornar a época alta mais elástica e, em vez de três meses, passar a ser de quatro e depois de cinco”, concluiu.

Faltam grandes cadeias nacionais e internacionais

O turismo nos Açores tem tido uma subida significativa nos últimos anos. Segundo informação do Instituto Nacional de Estatística (INE), as dormidas cresceram 18% em 2015, 21,1% em 2016 e tudo indica que, este ano, aumentarão ainda mais porque, de acordo com os dados disponibilizados pelo Serviço Regional de Estatística dos Açores, já há mais dormidas até agosto do que em todo o ano passado. Mas, apesar deste bom momento, existem ainda constrangimentos, ou seja, o crescimento talvez pudesse ser ainda maior. Um deles é o facto de só se chegar aos Açores de avião, mesmo que agora haja mais oferta por causa das low-cost. Outro é a falta de grandes cadeias nacionais e internacionais, que ajudariam a divulgar o destino junto de um maior número de clientes e de mais nacionalidades. Neste momento, 59% dos turistas que visitam a região são estrangeiros, sendo a maior parte do Norte da Europa, nomeadamente da Alemanha. Mas a Secretaria Regional da Energia, Ambiente e Turismo quer atrair mais nacionalidades, como a norte-americana, espanhola, francesa ou canadiana. Este é um dos desafios do Governo Regional que também traçou como objetivo a promoção das ilhas centrais do arquipélago e ainda o aumento do período de época alta.

Discurso direto

“Qual é a Apple do Atlântico? Têm de ser os Açores. Temos de colocar os Açores no mapa internacional certo, que não é o da praia da Rocha ou do Zezé Camarinha”
Miguel Muñoz Duarte
Professor da Nova School of Business

“A melhor estratégia para os Açores é não se transformar num destino turístico. Os Açores não podem aceitar restaurantes fast-food, chamadores de clientes. Não têm de ir à procura dos grupos, mas sim de um turismo que se envolva com a natureza”
João Welsh
Administrador do grupo CBK

“Os Açores são caracterizados por ter unidades de pequena e média dimensão e pela informação que temos dos licenciamentos aprovados assim irá continuar. Não estamos preocupados”
Filipe Macedo
Diretor Regional do Turismo dos Açores

Cinco tendências do sector

Dar resposta ao imediatismo digital
Aqui-agora-já A digitalização e as novas tecnologias, seja uma simples aplicação para smartphone sejam as mais avançadas como a Internet das Coisas, são um desafio para qualquer sector ou negócio, e o turismo dos Açores não é exceção. Uma das situações a que a região terá de se adaptar é que, com o advento do digital, os turistas exigem tudo “aqui-agora-já”, ou seja, existe um maior imediatismo e as empresas do sector têm de saber dar resposta a isso.

Hoje, o digital traz outro desafio: o tratamento de dados. Mas no futuro será o tratamento das perceções que as empresas retirem do contacto com o turista. É daí que virá a inovação do sector.

Os Açores têm-se destacado no turismo nacional pela sua autenticidade e características naturais, e a tendência será manter a aposta nisso. Mas é também de destacar a segurança da região, que será cada vez mais um fator essencial para as escolhas e para a experiência do turista, principalmente com o crescimento do terrorismo.

Apostar na formação
RECRUTAMENTO Mesmo com a ameaça dos robôs e os automatismos, serão sempre as pessoas a marcar as experiências de turismo e, por isso, é preciso recrutar, manter e aproveitar as pessoas certas, e essas são as que têm a cultura e a qualidade de serviço adequada. No entanto, isso não tem sido fácil de encontrar, porque ainda existe pouca formação no sector que esteja à altura dos parâmetros atuais, que, como já referido, são mais existentes e imediatos. Ou seja, é preciso investir mais na formação turística.

21,1
por cento. De acordo com dados do INE, em 2016, os Açores tiveram o maior crescimento de dormidas do país: 21,1%. E este ano continua a crescer, principalmente na hotelaria tradicional, que é a primeira escolha dos turistas. Dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores apontam para quase 1,3 milhões de dormidas até agosto, mais do que o milhão de todo o ano passado

2 visões sobre o futuro dos seguros

Miguel Muñoz Duarte, Professor da Nova SBE

O turismo está na moda. Não é só em Lisboa nem no Porto, mas um pouco por todo o país e também nas regiões autónomas onde se tem apostado neste importante eixo estratégico.

Mas esta moda não acontece só em Portugal. Vivemos realmente tempos de grande euforia um pouco por todo o mundo, com um mercado de viagens e turismo cada vez mais global e mais exigente. A concorrência pela quota de turistas é cada vez mais feroz, e as nações, as regiões e as cidades travam duras batalhas competitivas. Tudo em prol de ser mais atrativo para quem viaja, faz férias, passeia, faz desporto ou viaja em negócios. É todo um mundo novo com o turismo global em explosão como recentemente se escrevia no “Financial Times” a propósito dos destinos emergentes, no qual Portugal se inclui.

Mas esta nova arena, mais internacional e competitiva, tem desafios muito interessantes quer ao nível da cadeia de valor, como da experiência, como sobretudo ao nível do posicionamento internacional para competir globalmente e para colocar um destino no mapa internacional do turismo. Para isso é premente que as nações, regiões ou cidades entendam que a sua marca é essencial nesta corrida. É essencial que entendam que o conjunto de perceções que as pessoas têm sobre elas, que deve ser, tal como os outros ativos, alimentado, trabalhado e investido.

Neste contexto, inovar no turismo é cada vez mais investir na criação e gestão de uma marca com uma ideia central forte, única e diferenciadora. Uma marca é, pois, condição essencial para competir no panorama do turismo internacional e isto não se consegue apenas com as habituais discussões que vemos acontecer sobre infraestruturas, apoios, campanhas, cartazes e demais instrumentos. É preciso ir mais fundo e abrir a discussão estratégica sobre os ativos intangíveis da região, potenciais pontos de diferenciação e possíveis inspirações para uma ideia central da região.

Portugal não é diferente. Se queremos competir por um turista internacional, num mercado cada vez mais global e fugir do turismo de menor valor acrescentado, necessitamos que as nossas marcas destino ganhem uma ideia central estruturante para gerar novas abordagens, atratividade reforçada e sobretudo para inspirar as pessoas, os locais, para uma experiência cada vez mais integrada e coerente. Só assim conseguiremos ser cada vez mais um dos destinos mais aspiracionais do mundo.

Jan de Pooter, CEO da Tranquilidade Açoreana

Uma das melhores notícias do ano em Portugal tem sido a da expansão contínua e sustentada do turismo. Boa notícia para os portugueses em geral e para os açorianos em particular: a região autónoma dos Açores destaca-se no aumento do número de dormidas e do volume de receitas, com crescimento na casa dos dois dígitos, liderando a média nacional. Tudo indica que em 2018 esta dinâmica deverá manter-se em todo o país, como o provam os investimentos já concretizados ou em preparação.

O sector do turismo e este crescimento assinalável representa um desafio estimulante para a indústria seguradora, que tem vindo a ser confrontada com a urgente necessidade de adaptação a realidades que não se confinam às tradicionais áreas de negócio. O aumento da procura turística implica uma capacidade de resposta cada vez mais inventiva e dinâmica do sector segurador aos riscos específicos que o sector do turismo apresenta.

Nesse sentido, há que explorar novas abordagens e novos conceitos, sempre orientados pelo princípio da excelência do serviço, oferecendo coberturas de risco específicas e tão diversas que possam cobrir, por exemplo, desde atos de terrorismo a danos por água do mar ou responsabilidade civil por intoxicação alimentar.

A evolução da própria atividade turística implica também um uso intensivo de plataformas digitais e de novas formas de comunicação e transação eletrónica, que criam novos desafios para o sector, nomeadamente quanto à proteção de dados dos clientes e à cibersegurança.

Também nesta área, o sector segurador soube acompanhar as necessidades das empresas, dispondo de soluções de cobertura para riscos cibernéticos, que podem desempenhar um papel importante num sector altamente digitalizado como o turismo.

Iremos continuar a dar resposta às oportunidades que o crescimento do sector do turismo nos tem apresentado e a dar suporte ao crescimento sustentado e seguro de projetos nesta área, tão vital para a economia nacional.

Portugal está hoje na elite do turismo mundial. Atingiu este lugar por direito próprio e por uma estratégia que valoriza não só a história, a beleza natural e a autenticidade, mas também a cultura empreendedora do país. A região dos Açores — com a qual temos uma relação especial através da nossa marca Açoreana — também passou a ser uma referência no turismo de natureza. Criámos oportunidades num sector que terá sempre futuro. Há que saber aproveitá-las.

Textos originalmente publicados no Expresso de 1 de dezembro de 2017