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Cidades médias com modelo de desenvolvimento

Boas práticas empresariais não faltam à região Centro, 
onde Viseu assume um papel importante

Marcos Borga

No IX Encontro Fora da Caixa ficou claro que na zona Centro existem bons exemplos de capacidade empresarial, como Viseu

As cidades médias da região Centro têm conseguido encontrar o seu modelo de desenvolvimento e podem retirar enormes vantagens da globalização. O Centro do país pode mesmo tornar-se charneira entre as duas grandes regiões que contam nos mapas europeus: o nordeste, com o Porto, Braga e Aveiro; e o arco metropolitano de Lisboa, de Leiria a Sines e Évora.

“Se pensarmos em termos globais, conseguimos ultrapassar a periferia, na qual Portugal se encontra em termos europeus e criar dinâmicas que nos permitam crescer”, diz Félix Ribeiro, o especialista que coordenou o estudo da Gulbenkian sobre regiões. Em mais uma edição dos Encontros Fora da Caixa, em Viseu, Félix Ribeiro lembra que “Portugal fez uma transformação notável nos últimos 20 anos e isso foi feito a partir de duas regiões que são dinâmicas”. Perante os mais de 500 empresários que participaram na iniciativa da CGD, à qual o Expresso se associa-se, Félix Ribeiro foi ainda mais claro: “Apenas precisamos de concentrar conhecimento e ter capacidade empresarial.”

O ‘país-donut’
Paulo Macedo reconhece que o Centro do país e de um modo particular “Viseu estão a atrair conhecimento e a reunir novas competências” e crédito não falta. O presidente da Caixa Geral de Depósitos diz que o banco público “tem liquidez para investir em bons projetos e em empresas inovadoras” e destaca a aposta que a região faz “em sectores tradicionais, como a madeira e cortiça, transportes e agroalimentar”.

Félix Ribeiro esclarece que a interioridade não é um dilema ou uma dificuldade e socorre-se de uma estranha analogia para o exemplificar. “A geografia é deformável conforme o problema que queremos resolver. Nós temos um país, como um donut, que tem uma parte saborosa e outra que é um buraco. Esse buraco pode unir as duas regiões com que Portugal entra na globalização. A região não tem concentração, mas distribui-se num quadrado cheio de iniciativa.” Um quadrado que “oferece estabilidade a Portugal com comunidades que são capazes de se organizar para ajudar a competir”.

Exemplos de boas práticas não faltam à região, onde Viseu toma papel dianteiro, uma cidade que “deslumbra, por ter qualidade de vida e equilíbrio”, diz José João Guilherme, administrador-executivo da CGD.

Completar a acessibilidade
Nas empresas também há vontade de quebrar as contingências e preencher “o buraco” apontado por Félix Ribeiro. “O interior de hoje não é o interior de há 20 anos, de Vilar Formoso ao litoral são 200 quilómetros e, estar onde estamos, com ligação rápida à fronteira, é economia para quem exporta”, analisa o administrador da Movecho, empresa que se especializou em design e que trabalha no sector das madeiras e cortiças. Luís Abrantes sustenta que “a Movecho não tem dificuldades em recrutar talento, as pessoas procuram qualidade de vida e isso Viseu oferece” e aponta um exemplo claro: “Em 200 colaboradores, 44 são licenciados.” Ao lado, Pedro Polónio, administrador da Patinter, uma das maiores empresas de transportes da Península Ibérica e que transporta muita das exportações da região, lembra que “a interioridade nem sempre é geográfica”. E sustenta: “Quando falamos de queijo da Serra, fruta, carne ou granito não há interioridade e a região é central na produção destes produtos.” Indo mais longe, Polónio reforça que “é difícil” considerar Viseu como interior porque, se olharmos para o mapa da Europa, Portugal é periférico: “Somos muito litorais e temos que olhar bem para o mar e aproveitar esta potencialidade. E perder o queixume do interior, a adjetivação de quem vive a 70 quilómetros do mar. E não falar tanto do interior como se só tivéssemos defeitos e fossemos menos capazes.” Para a Patinter a economia viseense tem “enorme atratividade e boas acessibilidades”, mas faltam pontas que fazem perder esse valor: “Temos a A25 mas faltam 20 quilómetros a ligar ao IP3 que oferece fracas condições e cria entropias. Mais do que interioridade, precisamos gastar aqui os milhões porque são milhões que multiplicam e há investimentos à espera.” Ou seja, que se complete a malha de acessibilidades. Assimetrias entre cidades e o meio rural que existem.

Mas “as cidades médias do interior do país têm conseguido encontrar os seus modelos de desenvolvimento”. Modelos que passam pelos sectores dos “transportes, cortiça e alimentar, onde há empresas a criar novos produtos e com um conjunto de técnicos com novas competências, como é exemplo o Grupo Visabeira”, apontou o presidente da CGD que esteve reunido com empresários que permitem ao banco público ser líder no crédito concedido aos empreendedores da região, com uma quota de mercado de 38%. Paulo Macedo sustenta que será a dinâmica empresarial a permitir que a CGD “cresça” no crédito: “Temos liquidez só não queremos cometer erros do passado, em termos de análise de risco.”

Paulo Macedo destacou no IX Encontro Fora da Caixa, em Viseu, a aposta que a região faz “em sectores tradicionais, como madeira, cortiça, transportes e agroalimentar”

Paulo Macedo destacou no IX Encontro Fora da Caixa, em Viseu, a aposta que a região faz “em sectores tradicionais, como madeira, cortiça, transportes e agroalimentar”

Lucilia Monteiro

Interioridade rima com atratividade

“A interioridade não convence. Uma cidade com talento e competências passa a ser projeto de desenvolvimento e crescimento, melhorando a economia digital e a qualidade de vida”, como fez Viseu onde “interioridade rima com atratividade”. Luís Valadares Tavares, consultor e professor universitário no Instituto Superior Técnico, lembra que “apesar de localizada no interior do país, Viseu tem conseguido crescer, atrair talento e aumentar a população”. O especialista concorda com a tendência que faz concentrar nas cidades os polos de desenvolvimento, mas “é preciso saber atrair” o talento. “Aliás, com as redes digitais, a questão da distância nem sequer se coloca”. Valadares Tavares defende que “não se podem discutir as cidades como fazíamos há alguns anos” e aponta caminhos. “Viseu com este dinamismo e este crescimento de população tem contribuído para a economia digital, mas faltam competências na segurança digital, onde não formamos as competências de que a sociedade necessita.”

Citações

Viseu tem algumas das
empresas mais dinâmicas do país, empresários do sector da cortiça e da área alimentar com novos produtos e um conjunto 
de técnicos com novas competências
Paulo Macedo
Presidente da CGD

A qualidade de vida 
e o equilíbrio 
deslumbram em Viseu
José João Guilherme
Administrador-executivo da CGD


A região centro é fundamental para unir 
as duas placas com 
as quais Portugal entra 
na globalização; não tem concentração, mas 
distribui-se num quadrado cheio de iniciativa
Félix Ribeiro
Investigador

Não temos dificuldade 
em atrair talento, 
as pessoas procuram qualidade de vida. 
E em Viseu encontram-na


Luís Abrantes

Presidente do conselho 
de administração da Movecho

A interioridade nem 
sempre é geográfica; 
quando falamos de queijo 
da Serra, fruta, carne 
ou granito não há interioridade, e a região é central na produção destes
Pedro Polónio
Administrador da Patinter

Textos originalmente publicados no Expresso de 1 de dezembro de 2017