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Os subsídios estão a acabar e a indústria terá de viver com isso

Investimento no vento na Europa atingiu recorde em 2016. Mas elétricas estão preocupadas com morte anunciada de tradicional fonte de receita

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Para quem gere empresas de energias renováveis, o momento é desafiante. A Europa nunca teve tanto investimento em parques eólicos e, ao mesmo tempo, os investidores nunca tiveram tantos pontos de interrogação nos seus planos de negócios. “Precisamos de ter visibilidade, porque temos várias fábricas e temos trabalhadores que estão dependentes do que possamos fazer após 2020”, afirma Katrin Düning, responsável pelas relações governamentais da alemã Enercon, um dos maiores fabricantes europeus de turbinas eólicas.

O alerta surge durante a conferência anual da associação eólica europeia, a Wind Europe, num debate sobre o novo pacote energético proposto pela Comissão Europeia. Bruxelas defende para 2030 a incorporação de 27% de renováveis no consumo final de energia, mas tanto o Parlamento Europeu como o sector elétrico querem uma meta de 35%. A porta-voz da Enercon sublinhou que o pacote energético deve ser claro sobre o futuro. Katrin Düning lembrou o caso de Portugal, onde há pouca margem para novos parques eólicos, sobrando como negócio o reforço de potência dos parques atuais.

A responsável da Enercon assegurou ao Expresso que as incertezas regulatórias não põem em causa os 1500 trabalhadores que a empresa tem em Viana do Castelo, já que a fábrica exporta não só para a Europa mas também para a América do Sul e o Canadá. Mas o que se decidir em Bruxelas terá impacto em qualquer fabricante de aerogeradores na Europa.

Recordes em 2016

Segundo a Wind Europe, o sector eólico europeu é um exportador líquido (com um saldo positivo de €2,4 mil milhões em 2016), mantendo 262 mil empregos diretos e indiretos. Com receitas anuais de €55,6 mil milhões (dos quais €16,6 mil milhões no fabrico de turbinas, €16,7 mil milhões dos promotores de parques eólicos e o resto de outras áreas), este sector dá ao Produto Interno Bruto europeu um contributo direto e indireto que a Deloitte estimou em €36,1 mil milhões em 2016, 0,26% do PIB europeu.

Em 2016, os novos investimentos no sector eólico europeu alcançaram um recorde de €27,5 mil milhões, mas a Wind Europe acredita que a atividade abrandará. Nos parques em terra, 75% do dinheiro vem sendo assegurado por project finance, mas nas eólicas offshore apenas um terço do dinheiro vem dos bancos (a maior fatia vem das próprias elétricas, com a ajuda de investidores como fundos de pensões e de infraestruturas).

A verdade é que a indústria eólica atravessa um momento crítico: diversos decisores políticos resolveram acabar com a subsidiação de novos projetos. E alguns cortaram, com efeitos retroativos, a remuneração de parques existentes. Bruxelas tem uma mensagem clara: mais renováveis sim, mas a concorrer em mercado com todas as outras fontes.

Kristian Ruby, secretário-geral da associação europeia das elétricas, a Eurelectric, põe a questão da seguinte forma. “Somos favoráveis à concorrência entre tecnologias, e a disputa entre energia solar e eólica é muito interessante, porque está a permitir uma redução dos custos.” Mas, acrescenta, “é necessário um desenho do mercado que remunere três coisas: a energia, a flexibilidade e a capacidade firme”. Na perspetiva das elétricas, as renováveis podem viver sem tarifas subsidiadas, sendo os seus preços determinados por leilões, desde que aos promotores se garanta que os projetos são remunerados não só pela eletricidade que produzem mas também por darem garantias de segurança do abastecimento.

Proteção dos riscos 
de mercado a desaparecer

A preocupação de quem vive do vento é compreensível: em 2005 mais de 80% dos novos parques eólicos europeus receberam tarifas subsidiadas, segundo a Wind Europe. A associação estima que, em 2020, quase 90% dos novos projetos eólicos sejam pagos com os preços de mercado, acrescidos de um prémio concedido pelo regulador para mitigar o risco.
Se hoje 75% da capacidade eólica em operação na Europa está totalmente protegida dos riscos de mercado, a Wind Europe calcula que em 2030 apenas 6% estará coberta por mecanismos de apoio.

A complementaridade entre energia eólica e solar (uma funciona sobretudo de noite e a outra apenas de dia) e o advento da armazenagem em baterias (ainda demasiado cara para ser explorada em larga escala) podem vir a mitigar um dos riscos das renováveis: a intermitência.
A variabilidade da produção eólica é um dos problemas desta fonte. E isso tem alimentado negócios paralelos, como o hedging (cobertura de risco). A Swiss RE é uma das seguradoras que vêm trabalhando na mitigação de riscos para as empresas de energia (a EDP é um dos seus clientes). A empresa elaborou um estudo com a Wind Europe sobre o hedging na energia eólica.

Stuart Brown, responsável da Swiss RE pela área de energia, estima que um parque eólico de 100 megawatts (MW) possa suportar anualmente €150 mil com hedging para cobrir quedas imprevistas do vento disponível, mas diz que é um custo que os promotores aceitam pagar para ter um cash flow mais seguro, sobretudo se por trás estiverem investidores que privilegiem rendas fixas.

Que futuro para toda esta indústria? Tudo o que os agentes do sector querem é vento. Em doses moderadas e sem tempestades.

O Expresso viajou a convite 
da Wind Europe