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Arquitetura portuguesa afirma-se fora do país

BRASIL. Complexo Olímpico de Deodoro, no Rio de Janeiro, em que o Focus Group esteve envolvido no masterplan e diversos projetos, num concurso público internacional que venceu em consórcio com uma empresa brasileira

Arquitetos. Com projetos em vários países, a componente internacional representa nalguns ateliês 65% da faturação

Qatar, Emirados Árabes Unidos, Moçambique, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Brasil, Argélia e Cazaquistão são países onde os ateliês de arquitetura nacionais têm representação ou já desenvolveram projetos. Com obra feita em áreas como planeamento urbano, reabilitação, hotelaria ou habitação, a componente internacional foi fundamental para ultrapassar a crise do sector imobiliário. Nos últimos anos, o território nacional ganhou terreno mas mesmo assim, e para alguns ateliês, o trabalho fora do país representa atualmente entre 40 a 65% da sua faturação.

A operação do ateliê Promontório está centrada em Lisboa, só que entre as 64 pessoas que trabalham nesta estrutura algumas fazem-no fora de Portugal. O Qatar é um dos sítios onde têm representação, sendo a partir daqui que trabalham “não só no Médio Oriente como toda a Ásia”, explica João Luís Ferreira, sócio do Promontório. Continua com uma representação em Moçambique, país onde já tiveram mais trabalho, mas onde consideram importante continuar. Numa perspetiva de diversificação no ano passado apostaram nos EUA onde já têm projetos em curso.

A procura de novos mercados

A prospeção de mercados externos começou no ateliê antes da crise, corria o ano de 2004. “Tínhamos alguma dimensão e acreditámos que era fundamental ir para outros mercados. Começámos por Espanha e os países do Leste europeu”, relembra João Luís Ferreira. Nos destinos para onde vão, fazem uma busca cuidada de parcerias locais e contactam diretamente através da apresentação de propostas as entidades, públicas ou privados, com quem querem vir a trabalhar. Este tem sido o modelo e, nos piores anos da crise do sector imobiliário, o ateliê sentiu uma quebra na atividade nacional e teve de reduzir pessoal. Em 2013, 98% da sua faturação vinha da componente internacional e hoje é de 65%, dada a retoma em Portugal, onde projetos que ficaram parados foram agora retomados.

BRASIL Casa-museu do escritor Jorge Amado, no Bairro do Rio Vermelho, em Salvador da Bahia, terminada em 2016, uma obra de reabilitação desenhada pelo ateliê FAT

BRASIL Casa-museu do escritor Jorge Amado, no Bairro do Rio Vermelho, em Salvador da Bahia, terminada em 2016, uma obra de reabilitação desenhada pelo ateliê FAT

FOTO Tatiana Azeviche/Setur

“Quando vamos para um mercado primeiro consolidamos a nossa posição e depois ampliamos. A partir do Qatar temos tido propostas para o Vietname e Malásia, para todas as áreas, nomeadamente turismo e residencial. A seguir ao Mundial de Futebol 2022, o Qatar pode ter alguma quebra e queremos crescer na Ásia”, refere João Luís Ferreira. Tem atualmente obras em curso na Arábia Saudita e em Gibraltar e já trabalharam na Geórgia, Federação Russa, Argélia, Marrocos, entre outros.

A Saraiva + Associados foi fundada em 1996, em Lisboa, pelo arquiteto Miguel Saraiva que continua à frente dos destinos da empresa. O grupo trabalha em planeamento urbano, arquitetura, design, design de interiores e sustentabilidade e está presente com ateliês e estruturas próprias na Argélia, Brasil, China, Cazaquistão, Colômbia, Emirados Árabes Unidos, Guiné Equatorial, Malásia, México, Singapura e Suíça. Emprega cerca de 140 pessoas.

CAZAQUISTÃO. Sede do Forte Bank, um banco de referência 
no Cazaquistão, situada em Astana e terminada no ano passado, cuja arquitetura foi desenvolvida pelo atelier Saraiva + Associados

CAZAQUISTÃO. Sede do Forte Bank, um banco de referência 
no Cazaquistão, situada em Astana e terminada no ano passado, cuja arquitetura foi desenvolvida pelo atelier Saraiva + Associados


FOTO Alexander Mussiyan

O processo de internacionalização começou em 2008 “quando assinámos o primeiro contrato do ‘Quartier El Ryad’, na cidade de Orão, na Argélia, um empreendimento imobiliário residencial e de serviços que cobria um total de 42 hectares”, conta Miguel Saraiva. Acrescenta que foi a primeira obra internacional do ateliê, num país difícil com uma cultura muito distinta, com qualidade de construção muito abaixo dos parâmetros portugueses e uma abordagem projetual também muito diferenciada.

Retoma em Portugal

Nos últimos dois anos, o grupo registou uma reversão da encomenda agregada às mudanças da economia mundial, com o abrandamento da procura externa e o aumento da procura doméstica. A título de exemplo, em 2012, ano de plena crise na construção, 67% da faturação estava fora de Portugal e agora esse valor baixou em 2016 para 39,5%. No entanto, o grupo mantém perspetivas de crescimento nos próximos anos, tanto dentro como fora do país.

Com 30 anos de existência e 40 colaboradores, o ateliê FAT-Future Architecture Thinking, liderado pelo arquiteto Miguel Correia, já fez obras em 45 países, tendo iniciado a sua internacionalização há 20 anos. Um processo que começou por Macau, com um concurso internacional em 1997. Mas até hoje já passaram por vários países de língua portuguesa em África e também pela América Latina e Médio Oriente. “Abrimos uma empresa no início do ano em Abu Dhabi, zona onde temos uma aposta firme”, explica Miguel Correia. Quanto ao que estão a desenvolver nesta parte do mundo, não pode revelar, pois assinou acordos de confidencialidade.

Presença no Médio Oriente

Tal como noutros ateliês, a faturação internacional chegou a ser de 75% durante a crise e hoje há um equilíbrio de 50%-50%. “A internacionalização tem riscos elevados e nalguns mercados foi difícil trabalhar, como na Guiné Equatorial, Gabão, Quénia ou Nigéria”, refere Miguel Correia. Mas é um risco com ganhos. Por exemplo, clientes estrangeiros com quem já trabalharam e que estão a apostar em Portugal contactam o ateliê e chegam-lhe propostas de todo o mundo, como a mais recente vinda do Cazaquistão. “Atualmente somos mais seletivos, já não fazemos concursos, só por convite e são os projetos que nos procuram a nós”, finaliza o arquiteto Miguel Correia.

EUA. Imagem do que vai 
ser um edifício de escritórios e teatro em Cambridge, Massachusetts, da autoria 
do ateliê Promontório

EUA. Imagem do que vai 
ser um edifício de escritórios e teatro em Cambridge, Massachusetts, da autoria 
do ateliê Promontório

Dos 26 colaboradores do Focus Group, seis estão normalmente fora de Portugal. “No mercado internacional, e além da experiência em projetos noutros mercados como Brasil, Alemanha, Timor, Líbano ou Angola, contamos com subsidiárias em Cabo Verde e Roménia, sucursais em São Tomé e Príncipe e Argélia, uma presença no Qatar e iniciámos a atividade em Marrocos com uma filial”, explica Nuno Malheiro, CEO do Focus Group. O início deste processo deu-se na Roménia e Cabo Verde em 2008. No Qatar, conta que têm de competir com grandes multinacionais inglesas e americanas.

Nuno Malheiro explica que não foi a crise que levou o grupo que dirige a internacionalizar a sua atividade. “A nossa presença fora de Portugal é que nos permitiu sobreviver à crise”. Quanto a números, se em 2014 a faturação em Portugal era de 5% e fora 95%, no corrente ano é de 40% internacional e 60% dentro de portas. As perspetiva é que a situação se mantenha desta forma nos próximos tempos.