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134,5 mil estão no desemprego há mais de três anos

tiago miranda

Trabalho. Quase dois em cada três desempregados há mais de três anos têm, no máximo, o 9º ano de escolaridade

Sónia M. Lourenço

Sónia M. Lourenço

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

A queda do desemprego é um dos maiores trunfos da ‘geringonça’. Desde que o Governo de António Costa tomou posse, no final de novembro de 2015, a taxa de desemprego em Portugal baixou de 13,6% para 8,5%, em outubro deste ano (segundo a estimativa mensal provisória do Instituto Nacional de Estatística — INE). É o valor mais baixo desde abril de 2008.

Contudo, ainda há mais de 400 mil pessoas desempregadas em Portugal, segundo os números do INE. Quem são? Os dados mensais do INE fornecem pouca informação sobre esta população desempregada. Para a caracterizar é preciso recorrer aos dados trimestrais, sendo os últimos disponíveis relativos ao terceiro trimestre de 2017. Nessa altura, havia 444 mil desempregados no país. E a maioria (57,3%) encontrava-se sem trabalho há mais de um ano, de dois anos, ou mesmo há mais de três anos.

Este desemprego de longa e muito longa duração é o que mais preocupa os economistas que analisam o mercado de trabalho. Além do impacto desestruturante sobre a vida das pessoas, “quanto mais tempo estão no desemprego, maior a perda de capital humano e a deterioração de qualificações”, alerta João Cerejeira, professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho.

De acordo com dados mais pormenorizados fornecidos pelo INE a pedido do Expresso, há 179,1 mil pessoas que estão desempregadas há mais de dois anos. Um número que representa 40,3% do total de desempregados no país. Mais ainda, há 134,5 mil pessoas que estão desempregadas há mais de três anos. São 30,3% do número total de pessoas no desemprego. Ou seja, quase um em cada três desempregados no país está à procura de emprego há mais de três anos. Sem sucesso.

O peso das baixas qualificações

“Há uma persistência do desemprego de longa duração”, salienta João Cerejeira, notando que este tipo de desemprego resiste no tempo, mesmo quando o desemprego em geral está a baixar, caso dos últimos anos. A explicação prende-se com o perfil dos desempregados de longa duração em Portugal, onde predominam as baixas qualificações e os trabalhadores mais velhos.

Os números não deixam margem para dúvidas. Mais de metade dos desempregados há mais de dois anos (58,8%), ou seja, 105,3 mil pessoas, têm, no máximo, o 3º ciclo do ensino básico (9º ano de escolaridade). E, se olharmos para o número de pessoas no desemprego há mais de três anos, concluímos que quase duas em cada três (61%), isto é, 82,1 mil pessoas, têm, no máximo, o 9º ano de escolaridade. Ora, “a falta de escolaridade é o maior óbice à reinserção no mercado de trabalho”, alerta Paulino Teixeira, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Por outro lado, mais de metade dos desempregados há mais de dois anos (51,3%), o que significa 91,9 mil pessoas, têm 45 e mais anos. Uma parcela que sobe para os 55% no caso dos desempregados há mais de três anos. São 74 mil pessoas.

Mudanças estruturais

Num contexto de alterações estruturais na economia portuguesa, sectores como o da construção, que empregava um número elevado de pessoas — sobretudo homens — com baixas qualificações, foram dos mais penalizados durante a crise, “perdendo mais de 200 mil pessoas, que não foram absorvidas por outros sectores”, nota João Cerejeira, destacando a região Norte, “onde a construção tinha muito peso”. Sinal disso, é no Norte que se concentram uma fatia significativa dos desempregados de muito longa duração (mais de dois anos ou mais de três anos): cerca de 42%. E nem todas estas pessoas que ficaram sem trabalho aparecem nas estatísticas do desemprego, já que “parte delas emigrou”, aponta João Cerejeira.

Uma segunda razão para a persistência destas pessoas no desemprego é o efeito de substituição entre indivíduos menos escolarizados por mais escolarizados. Desde a crise, “o custo para uma empresa de contratar um trabalhador mais escolarizado é muito menor, devido à redução dos salários à entrada”, frisa João Cerejeira. Os trabalhadores com mais qualificações tornaram-se assim “concorrentes” e “substitutos” dos menos qualificados. Resultado: “Mesmo à medida que o emprego aumenta, como tem acontecido em Portugal nos últimos anos, quem tem menor nível de escolaridade fica no fim da fila para ser contratado, caindo no desemprego de longa duração”, frisa.

Há um terceiro fator a considerar: o efeito de salário de reserva. “Quem tem baixas qualificações e está há muito tempo desempregado não pode esperar muito mais do que o salário mínimo se for contratado”, reconhece João Cerejeira. Ao mesmo tempo, tem um custo associado à perda do subsídio de desemprego — se o estiver a receber — e outros benefícios sociais, que em Portugal estão dependentes da condição de desempregado e não do nível de rendimento (na Saúde, por exemplo). Como resultado, “o benefício líquido de aceitarem um emprego é baixo”, aponta João Cerejeira.

Estarão estas pessoas condenadas a permanecer no desemprego? “Não seria tão pessimista. Ao ritmo atual de crescimento da economia portuguesa, uma parte não pequena do grupo de desempregados de longa duração encontrará emprego”, considera Paulino Teixeira, embora tenda a ser “de natureza marginal, temporária, sazonal e mal remunerado”.

Recuperação do mercado 
de trabalho ajuda

João Cerejeira aponta no mesmo sentido: “A dinâmica do mercado de trabalho está a ajudar.” Na prática, “à medida que o desemprego diminuiu, estes trabalhadores vão ficando mais próximos do início da fila para serem contratadas”, explica. Acresce que o emprego está a recuperar em sectores que tendem a empregar pessoas com baixas qualificações, como a restauração, a construção e a reabilitação urbana.

E isso é já visível. O número de desempregados há mais de três anos diminuiu 31,3% entre o terceiro trimestre de 2016 e o mesmo período deste ano, enquanto a queda da população desempregada total foi de 19,2%. Mas, esta diminuição pode não ter resultado do regresso dos desempregados de longa duração ao emprego. à medida que o tempo passa, “uma parte desse grupo desaparecerá, estatisticamente, para a inatividade”, deixando de contar como desempregados, remata Paulino Teixeira.