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Eólicas com margem curta para crescer

As fábricas de pás e turbinas eólicas empregam 3000 pessoas em Portugal. Mas no terreno os planos de investimento em novos parques são residuais

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

As energias renováveis foram uma bandeira do Governo de Sócrates, principal impulsionador, há uma década, do que entretanto se construiu em Portugal em barragens e parques eólicos. Esta semana converteram-se numa incómoda areia da engrenagem do Governo, com avanços e recuos sobre uma proposta do Bloco de Esquerda que previa um corte de 30% no sobrecusto que algumas fontes limpas têm para os consumidores de eletricidade. À parte da polémica política, as eólicas são hoje em Portugal um negócio consolidado, mas com curta margem para crescer.

Estão instalados em Portugal cerca de 5300 megawatts (MW) de potência eólica, dos quais 23% da EDP Renováveis (uma fatia dividida entre a EDP, com 51%, e a China Three Gorges, com 49%), 14% da Iberwind (controlada pela chinesa Cheung Kong), 13% da Finerge (do fundo australiano First State Investments), 9% da Trustenergy (aliança entre a francesa Engie e a japonesa Marubeni) e 8% da Generg (do fundo Novenergia).

Mas também nesta história o que está feito ganha ao que está por fazer. Segundo o presidente da Apren — Associação de Energias Renováveis, António Sá da Costa, estão por instalar 120 MW da Fase C do concurso eólico do Governo Sócrates, 220 MW da Fase B (agora nas mãos da EDP) e podem ainda vir a ser instalados até 250 MW de sobre-equipamento de parques existentes.

Sá da Costa é conservador quanto ao investimento que possa ser feito no reforço de potência dos parques em operação. Por um lado, segundo ele, “nem sempre o acréscimo de potência é viável economicamente”, por outro, “pode não haver terreno” para acrescentar torres eólicas aos parques atuais.

Com 5300 MW instalados, as localizações com mais vento já estão ocupadas, o que diminui o interesse de novos projetos de raiz. Segundo o Ministério da Economia, há pedidos de licenciamento para novos parques eólicos com 80 MW (e para funcionar em mercado, sem tarifa subsidiada).

No que respeita a reforços de potência, no entanto, nenhum promotor conseguiu para já ‘luz verde’ do atual Governo. Pela legislação aprovada pelo anterior Executivo, os sobre-equipamentos terão direito a uma tarifa garantida de €60 por cada megawatt/hora (MW/h) produzido. Mas o secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, tem-se batido pela produção não subsidiada, o que poderá bloquear os projetos de reforço de potência, juntamente com alguns entraves do ponto de vista ambiental.

Isto não é impeditivo de que parques já em operação sejam adquiridos por novos investidores. Só a antiga Enersis já teve quatro donos: Pedro Queiroz Pereira, Babcock & Brown, Iberwind (Magnum Capital) e Cheung Kong. Mas fatores de incerteza, como a proposta do Bloco de Esquerda, deixam os gestores de fundos reticentes quanto a investir nestes ativos.

Mas há outro domínio em que Portugal se afirmou como referência no contexto europeu: as fábricas portuguesas da Senvion e da Enercon, que empregam diretamente 3 mil pessoas, estão entre as que têm os melhores desempenhos destes dois fabricantes de torres eólicas.

“Estou convencido, face à qualidade e eficiência das fábricas em Portugal, de que elas vão continuar a operar para lá de 2025”, afirma Sá da Costa. Quando o Governo Sócrates lançou os concursos eólicos, uma das exigências era fabricar os equipamentos em território nacional, mantendo a produção pelo menos 17 anos. Com um reduzido potencial de expansão do mercado doméstico, aquelas fábricas viraram-se para o mercado externo, exportando perto de €500 milhões por ano.