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Vinte factos sobre a vida de Belmiro de Azevedo que talvez não conheça

Rui Ochôa

Nasceu no Marco de Canaveses, cresceu no Porto, aprendeu contabilidade num livro, ganhou direito a uma pensão do exército e teve direito a uma versão própria da “Tomada da Bastilha” na Sonae, como refere Magalhães Pinto na biografia “Belmiro - História de Uma Vida”. Belmiro de Azevedo morreu esta quarta-feira. Tinha 79 anos

1. Nasce a 17 de fevereiro de 1938, em Tuías, Marco de Canaveses, e passa a ser o mais velho dos oito filhos do carpinteiro Manuel e da costureira Adelina porque a irmã primogénita morreu

2. Só foi para a escola aos 8 anos porque o pai preferiu levar os dois filhos mais velhos ao mesmo tempo. Não gostou do professor, chumbou na primeira classe e recusou voltar. Muda de escola, encontra o professor Carlos da Silva Andrade, uma das pessoas marcantes na sua vida, torna-se bom aluno e passa diretamente para a terceira classe.

3. Quando foi viver para o Porto com o padrinho, que terá pertencido à Carbonária e era fiscal de obras, morou na Serra do Pilar e no antigo sanatório D. Manuel II (Gaia). No liceu Alexandre Herculano, foi colega de Rui Vilar, antigo presidente da Fundação Calouste Gulbenkian.

4. Foi barítono num coro do liceu. Teve de dar explicações, a 20 escudos a hora, para sobreviver, e teve o apoio de bolsas dos serviços sociais da Previdência e da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar. Acabou o curso de Engenharia Química da Universidade do Porto a 23 de junho de 1963, com 16 valores.

5. Inscreveu-se no Centro Desportivo Universitário do Porto e interessou-se pelo xadrez para escapar às atividades da Mocidade Portuguesa. No andebol, chega a alinhar pelo FC Porto, onde foi, mais tarde, dirigente da secção de natação, construiu piscinas e teve atritos com Pinto da Costa.

6. Quando os pais vêm do Marco de Canaveses para o Porto, com os outros filhos, são as irmãs que fazem o pequeno-almoço a Belmiro. Queria café com leite sem nata, pão bem torrado e manteiga bem espalhada. No final, deixava um pouco no fundo da chávena para tomar depois de lavar os dentes e ficar com o gosto na boca.

7. Um dia pediu 20 escudos emprestados a um colega que rapidamente começou a reclamar a dívida. Belmiro pede mais 20 escudos a outro, troca-os por moedas de tostão e paga ao primeiro.

8. Fez serviço militar durante um ano, mas partiu duas vertebras numa queda o que o afastou da guerra em Angola e resultou numa incapacidade de 5% e numa pensão de 417 escudos por mês que mais tarde tentou doar a uma instituição de solidariedade social, mas não conseguiu porque a legislação não previa esse modelo

9. Conhece Margarida, com quem viria a casar-se, no verão de 1956, na praia de Leça da Palmeira. Ela tem 15 anos e ele 19. Faz um buraco na parede do quarto para o telefone passar e poder falar com a namorada à vontade. Casam-se em dezembro de 1963, na igreja de Santo Ildefonso, mas ele nunca a pediu em namoro. Tiveram três filhos: Nuno, Paulo e Cláudia.

10. Aprendeu contabilidade através do livro “O Guarda Livros sem Mestre”, de Álvaro Monteiro e Cláudio Monteiro.

11. Quando faz a formação na Universidade de Harvard, insatisfeito com o seu domínio do inglês, chegou a atirar um dicionário contra a parede.

12. Às vezes comprava dezenas de exemplares de livros que considerava interessantes para distribuir pelos seus quadros. Depois, provocava conversas sobre o seu conteúdo.

13. Entra no capital da Sonae, onde trabalhava, com a compra de 17 ações relativas à participação do primeiro presidente da empresa depois de este morrer.

14. Depois do 25 de Abril, demite-se com mais 13 quadros devido a conflitos com o Estado sobre o controlo da empresa e os trabalhadores fazem uma greve inédita para exigir o regresso da direção. Os quadros voltam precisamente a 14 de julho de 1978. É o dia da "Tomada da Bastilha" na história da Sonae, como na de França.

15. Em 1981, quando Pinto de Magalhães regressa do Brasil e quer reconstituir o seu grupo, Belmiro de Azevedo impõe como condição para ficar ter cinco mil ações da Sonae. Acaba por distribuir mil dessas ações aos quadros, mas garante que Pinto de Magalhães nunca nomeará os genros administradores da empresa que dirige.

16. Faz três tentativas para estar fortemente presente num banco, primeiro no Totta, depois no BPA e finalmente no Universo. Falha as três, mas tira sempre mais-valias financeiras.

17. Na guerra pelo controlo do Totta enviou uma carta aos pequenos acionistas e apareceu na Assembleia Geral com milhares de procurações. Tentou chegar a acordo com o Banesto para ficar com o banco, mas acabou por desistir. Nesse dia, ao chegar a casa, bebeu uma taça de champanhe, mas estava triste apesar de ter ganho dois milhões de contos, conta Magalhães Pinto na biografia "Belmiro – História de uma Vida". "Nós queríamos uma posição de liderança no Banco Totta. O que o Banesto também queria. Tentámos comprar a sua posição, mas defrontámo-nos com uma oposição duríssima. O Banesto não queria vender. Portanto vendemos nós", diria à Actualidad Economica, a 18/12/1989.

18. O seu dia normal de trabalho tinha 12 horas. Duas eram gastas na manutenção da forma física e a almoçar.

19. Habituou-se a entregar as sobras do Continente à obra da Nossa Senhora das Candeias.

20. Depois de ser operado em Paris a uma "úlcera calosa", na versão oficial da sua biografia, e de ter escapado à morte, foi com a mulher a Assis, em Itália.