Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Belmiro de Azevedo 1938-2017. “Tenho fama de rico, comportamento de pobre. Estou bem assim”

Alberto Frias

Gostava de dizer que era “um desafiador”. E gostava de deitar portas abaixo. Belmiro de Azevedo morreu esta quarta-feira. Tinha 79 anos

"Rende-se mais se o corpo estiver são e o espírito alerta; se dormirmos bem. É preciso fazer ginástica do físico e do espírito". A frase, em jeito de conselho pronto a usar por qualquer um, é de Belmiro de Azevedo, um empresário que transformou a Sonae, uma empresa quase na falência, no maior grupo privado nacional e deu um empurrão para mudar os hábitos de consumo dos portugueses combinando visão, engenho, trabalho, algumas jogadas na bolsa, formação e, também desporto.

O Sr. 4 % do PIB, como chegou a ser apresentado em 2007 quando anunciou a passagem de testemunho na Sonae ao filho Paulo, dando início a um processo de sucessão cuidadosamente preparada durante 10 ano, nunca escondeu os ingredientes do seu sucesso. Para os portugueses, uma forma simples de ver as coisas poderá ser exatamente esta fórmula dos 4%, uma percentagem que traduz o peso das vendas do seu universo na riqueza gerada em Portugal. Para ele, trata-se de usar uma receita que combina "formação permanente, informação fresca, coragem, liderança para motivar todos os colaboradores em geral e o management em particular".

A sua história começa a 17 de fevereiro de 1938, em Tuías, no Marco de Canaveses, onde o mais velho dos oito filhos do carpinteiro/agricultor Manuel e da costureira Adelina se estreou na escola com um chumbo na primeira classe. Terá sido azar de principiante porque logo a seguir muda de professor, acaba por passar diretamente para o terceiro ano e começa a revelar o seu talento especial para correr e ultrapassar metas, na vida como nos negócios.

Aos 11 anos, vem para o Porto viver com o padrinho para estudar no liceu Alexandre Herculano, onde é aluno do quadro de honra. Aos 16 anos, dá explicações para pagar os estudos e sobreviver "por conta própria" ainda antes de chegar à Faculdade de Engenharia, onde estudou química e se licenciou com 16 valores.

A construção da Sonae

O primeiro emprego é na têxtil Efanor, mas em menos de um ano muda para a Sonae – Sociedade

Nacional de Estratificados. Chega com um ordenado de 7.500 escudos (37,5 euros), funções de diretor de investigação e de desenvolvimento e já com uma certeza que partilha com todos: "Ninguém deve ficar no primeiro emprego e todos devem ter preocupações estratégicas quando ao empregador, mais de longo prazo e menos de curto prazo".

No seu caso, esta decisão conduziu-o diretamente à lista dos mais ricos do mundo e ao quarto lugar no ranking dos homens mais ricos de Portugal da revista Exame, onde apareceu na quarta posição em 2016, com uma fortuna avaliada em 1,3 mil milhões de euros.

Não se livrou da fama de sovina pelos hábitos de vida frugal, em que a única extravagância assumida era comprar um carro de longe a longe. "Tenho fama de rico, comportamento de pobre. Estou bem assim", disse numa entrevista à Visão (2010), onde explicou que este estilo seria uma herança natural dos anos difíceis da II Guerra Mundial.

Mesmo assim, lia o seu jornal (Público), fazia ginástica no seu health club (Solinca), ia às compras aos seus hipermercados (Continente), passeava nos seus centros comerciais. Tudo resultado da diversificação de um grupo construído a partir da Sonae que ele pôs a dar lucros em três anos e acabou por controlar depois de várias peripécias e de um longo conflito judicial com a família do fundador, o banqueiro Afonso Pinto de Magalhães. Aliás, os confrontos em tribunal, mesmo contra o Estado, são constantes no seu currículo de empresário.

A partir de 1985, a Sonae passa a estar cotada na Bolsa de Valores e Belmiro torna-se o principal acionista do grupo que cresceu, abarcou diferentes áreas, da distribuição às comunicações, tecnologias, telecomunicações, centros comerciais, turismo, negócios, seguros, e ganhou vocação internacional, fiel a uma estratégia dinâmica, com sucessivas reorganizações. Na construção do seu império multisetorial, deixou imagens de marca como o talento para fazer mais valias Bolsa, nos anos de ouro do mercado de capitais. Não se livrou da fama de tratar mal os acionistas minoritários, nem da polémica à volta do lançamento simultâneo das famosas sete OPV - Operação Pública de Venda de empresas do grupo, um passo decisivo na criação do maior grupo privado português.

Não deixou, no entanto, de lado, as raízes rurais nem o Marco natal, onde lançou o vinho Vale de Ambrães e trabalhou na agricultura, com a ambição de ter o maior entreposto de kiwis da Península Ibérica.

O desafiador

Obcecado pelo conhecimento, apresentou-se numa entrevista como "um desafiador", um adjetivo que veste na perfeição diferentes momentos da sua vida, como quando partiu o braço num choque com o Novais Barbosa, antigo reitor da Universidade do Porto, durante um jogo de futebol amigável, em 1988. Começou logo a estudar a mecânica do braço. Aprendeu o mais possível sobre o assunto, propôs ao médico uma tacícula cerâmica como solução. Afinal, podia apenas escolher entre engessar o braço ou passar por cinco dias de sofrimento, iniciando a recuperação de imediato, o que permitiria voltar a jogar rapidamente. Optou pelo sofrimento, "mas foi preciso uma grande vontade. Doía mesmo a sério", contava Belmiro de Azevedo sem surpreender ninguém.

Fiel ao lema "mente sã em corpo são", jogou futebol, andebol, ténis e squash e teve, no desporto, uma escola para aprender as vantagens do trabalho do grupo. Esteve ligado a projetos como a Porto Business Scholl. Dizia que o seu maior prazer era partilhar conhecimento e poder. Acreditava que os jovens têm de agarrar os seus lugares com irrequietude permanente. Fez da Sonae também uma escola de empreendedores. "A função natural de um líder é criar líderes que, pela lei da vida, devem ser potencialmente melhores", defendeu. Tal como defendeu os valores da exigência, rigor, independência, meritocracia.

Qual é o empresário português que recusa uma carreira política porque gosta de "decidir depressa e poderia ter problemas de excesso de velocidade" ou veta Marques Mendes até para porteiro da Sonae? Belmiro de Azevedo, ou Belmiro Mete Medo, o boneco que ele inspirou na série televisiva Contra-Informação Em intervenções diferentes, ao longo dos anos, multiplicaria críticas aos políticos do círculo do poder: Marcelo Rebelo de Sousa "devia ser eliminado", Cavaco Silva era "um ditador", José Sócrates tem lugar no Guinness porque não há "exemplo de alguém ter feito tanta coisa tão mal feita em tão pouco tempo".

A sucessão

Belmiro de Azevedo somou algumas derrotas ao longo dos anos. Perdeu a OPA sobre a PT. Não avançou com a internacionalização da distribuição no Brasil. Não ficou com a Portucel. Tentou sem êxito ter uma posição relevante numa instituição financeira. Assumiu os fracassos, tal como os sucessos, no seu discurso de despedida, a 11 de março de 2015, perante 300 convidados, quando comemorou 50 anos num grupo que apresentava mais de 40 mil trabalhadores diretos e vendas de 5 mil milhões de euros, sob o controlo da sua holding pessoal Efanor. Mostrou-se orgulhoso de ter protagonizado a sucessão "mais bem preparada que houve em Portugal".

O marido da farmacêutica Margarida, o pai de Nuno, Paulo e Cláudia, assumiu desde cedo a vontade de "deixar de estar antes de deixar de ser". Começou por passar a presidência executiva da Sonae ao filho do meio em 2007, poucas semanas depois da derrota na PT. Depois, abandonou a presidência da Sonae Indústria, cedendo esse lugar também a Paulo, tal como a presidência do Conselho de Administração da Sonae Capital. Passou a liderança executiva da Sonae Capital a Cláudia. Já Nuno, com ligação aos negócios da família através da Efanor, "parece mais vocacionado para áreas culturais do que económicas", escreve o biógrafo oficial de Belmiro de Azevedo, Magalhães Pinto.

Em 2015, Paulo, o filho do meio, engenheiro químico como o pai, assume a presidência do conselho de administração do grupo, num processo que Belmiro sempre fez questão de dizer que não tinha sido ditado simplesmente pelos laços de sangue e acabou por traduzir-se numa solução bicéfala, em que Paulo Azevedo divide com Ângelo Paupério a presidência executiva.

Desde então, "o engenheiro" que já tinha desafiado a morte em 1993 (na versão oficial apresentada por Magalhães Pinto, na biografia Belmiro - História de Uma Vida, foi operado em Paris a uma "úlcera calosa" e acabou por ser vítima de uma septicemia) remeteu-se a uma vida discreta e teve na apresentação das contas da Sonae, em 2016, uma das suas últimas aparições públicas, já visivelmente debilitado.