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Powell passou no primeiro ‘exame’ no Senado e Wall Street reagiu bem

O candidato à cadeira de presidente do banco central norte-americano colocou-se ao centro, como era esperado, contornou questões ‘quentes’ colocadas por Democratas e Republicanos mais críticos, e ouviu o apoio público de um senador Democrata. Índices bolsistas estão em alta

Jorge Nascimento Rodrigues

O candidato Jerome Powell ao lugar de presidente da Reserva Federal (Fed), o banco central norte-americano, a partir de fevereiro, foi sujeito esta terça-feira, durante duas horas, a um ‘exame’ apertado no Comité para a Banca no Senado norte-americano, em Washington.

Ouviu o apoio público do senador Democrata Jon Tester, quando este concluiu a intervenção referindo que “será confirmado”. Tester é um dos Democratas que aprovou, também, a escolha por Donald Trump de Randal Quarles para um dos lugares em aberto no conselho de governadores da Fed.

Tudo indica que Powell passou no ‘exame’ desta quarta-feira, ainda que tenha que responder por escrito até segunda-feira a uma série de perguntas que os senadores não tiveram tempo de lhe colocar, em particular questões por parte de senadores Democratas. Wall Street e Nasdaq reagiram bem, com os índices principais em alta.

O Comité do Senado tem 23 membros, 12 Republicanos e 11 Democratas, e para Powell passar para a votação final no Senado, basta ter um ‘sim’ da maioria neste comité.

Condições favoráveis a uma subida dos juros em dezembro

Os mercados apostam que a Fed vai aumentar as taxas de juro na reunião de dezembro, mas Powell não o confirmou, apesar de ter sido particularmente apertado pelo senador Republicano Dean Heller, que votou contra a entrada dele no conselho de governadores em 2012 e na renovação do seu mandato em 2014.

O candidato ao lugar da economista Janet Yellen, a atual presidente, repetiu a norma que vigora na Fed: os membros que decidem a política monetária não antecipam decisões… que, aliás, não foram sequer ainda tomadas. Mas confirmou o que muitos dos seus colegas têm dito: “As condições são favoráveis a uma subida”.

Cinco áreas quentes

Powell foi particularmente apertado, à direita, por senadores que votaram contra a ida dele para a Fed em 2012 e depois para novo mandato em 2014, e à esquerda pelos senadores Democratas mais críticos, como Sherrod Brown, Elizabeth Warren e Chatherine Cortez Masto.

Os pontos mais quentes centraram-se em cinco áreas: proposta do ‘choque fiscal’ de Trump; proposta bipartidária no Senado para alívio das regras de regulação do sector bancário; auditoria da Fed; redução do balanço do banco central que vale hoje 4,5 biliões de dólares (€3,8 biliões, menos do que o balanço do BCE que somava €4,4 biliões em 24 de novembro); e mais impulso ao emprego e redução das desigualdades. Na audiência estava inclusive um grupo de cidadãos de t-shirts verdes do movimento “Fed Up” que defende uma “Fed do Povo”. Uma das t-shirts exigia que a Fed deixasse “subir os salários”.

Em muitos aspetos, Powell frisou que as respostas que pretendiam que ele ali desse a temas “quentes”, como o choque fiscal ou medidas concretas de impulso ao emprego e de combate à desigualdade, estavam para além do mandato da Fed e que eram da exclusiva competência do Congresso, incluindo do Senado.

Quatro respostas claras

Houve, no entanto, quatro pontos que ficaram claros:

- Powell vai prosseguir a estratégia gradual na subida das taxas de juro do banco central e na redução do seu balanço;

- se a tendência para uma inflação baixa se revelar persistente, a Fed “poderá ir mais devagar” na subida das taxas de juro;

- opõe-se à “auditoria” da Fed, defendida pelos Republicanos mais radicais, considerando que tal seria “uma forma do Congresso se imiscuir na formulação da política monetária”;

- e acha que o crescimento futuro vai ser mais fraco do que o atual, podendo situar-se abaixo de 2% - o que contrasta com o otimismo de muitos Republicanos em torno do impacto do ‘choque fiscal’ proposto por Trump.

Os Republicanos mais críticos tentaram arrancar-lhe um apoio à proposta de ‘choque fiscal’ de Trump e os Democratas mais à esquerda quiseram ouvir dele que tal proposta iria provocar o agravamento da dívida. Ao Republicano Dean Heller disse que a Fed não tem ainda uma avaliação do impacto dessa proposta e que ele “não tem uma opinião pessoal” sobre ela. Ao Democrata Sherrod Brown respondeu que os senadores não “dependem de nós [Fed] para avaliar propostas orçamentais”. No entanto, clarificou que a Fed estará sempre “preocupada com a sustentabilidade orçamental no longo prazo”.

Alguma mexida na regulação e redução do balanço têm limites

O tema da revisão da regulação bancária foi um tema em que Powell afirmou que a Fed trabalhará com o Senado na proposta bipartidária que já existe para corrigir o que pode ser encarado como excessos. Mas que discorda de subir a exclusão dos testes de esforço aos bancos para um limiar de 250 mil milhões de dólares (€211 mil milhões) de ativos. Na sua opinião, o limiar deve ser subido apenas para 100 mil milhões (€84 mil milhões).

No entanto, apertar ainda mais a legislação está fora das suas intenções, respondeu à senadora Democrata Elizabeth Warren que pretendia saber se Powell estaria disposto a tal. “As regras atuais já são suficientemente duras”, disse. Por outro lado, o Senador Republicano John Kennedy conseguiu arrancar de Powell a afirmação de que os grandes bancos já não são “demasiado grandes para falir”.

Os senadores Republicanos quiseram saber até onde poderá a Fed reduzir o seu balanço. Powell afirmou que é difícil definir esse novo limiar, mas aponta para um intervalo entre 2,5 a 3 biliões de dólares (2,1 a 2,5 biliões de euros), o que significa uma redução nos próximos anos de 1,5 a 2 biliões dólares (1,3 a 1,7 biliões de euros). Clarificou que o “novo normal” será certamente um balanço inferior ao atual, mas acima do que se registava no passado.

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    Começa esta terça-feira no Senado norte-americano a audição de Jerome Powell para ocupar a cadeira mais importante dos bancos centrais do mundo, a de presidente da Reserva Federal (Fed). A dúvida é se vai demonstrar ser uma “Yellen de calças”, tranquilizando os Democratas e os Republicanos moderados, ou se vai mostrar que quer deixar uma pegada diferente, indo ao encontro dos desejos de Donald Trump que quer a sua ‘marca’ na Fed

  • O jurista e financeiro indicado por Trump para chefiar a partir de fevereiro o banco central dos EUA pretende que a Reserva Federal continue “independente e não partidária”, na declaração que lerá esta terça-feira à tarde perante a Comissão do Senado que vai apreciar a sua candidatura