Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

A ilha resort quer atrair a nova geração de turistas

A revitalização 
urbana, onde 
se inclui a arte 
de rua, foi um 
dos temas 
em foco 
no painel. 
Pode ajudar 
a novos fluxos 
de turismo e as 
oportunidades 
de recuperação

Rui Duarte Silva

O impacto do turismo na região e os desafios a superar para não se desperdiçar o potencial das ilhas foram o prato forte do debate. Ultrapassar insularidade é crucial

O que motiva alguém a vir à Madeira?”, perguntou Bruno Freitas no decorrer do “Expresso do Meio-Dia” dedicado ao turismo na região. A questão do CEO do Savoy Hotels & Resorts teve várias respostas e interpretações, com os intervenientes a não virarem a cara à luta no traçar do retrato exaustivo de uma indústria que se encontra no ADN económico e social das ilhas. E as ideias viradas para o futuro ficaram bem vincadas se pensarmos na colaboração de todos.

À primeira vista, o repto até poderia parecer simples. Em pleno centro do Funchal, o Teatro Municipal Baltazar Dias foi palco de um painel com a chancela da Câmara Municipal do Funchal e do Expresso para discutir “Os Desafios do Turismo na Madeira”, perceber o estado do sector na região e qual o melhor caminho a traçar para lhe dar mais hipóteses de sustentabilidade, uma palavra que se ouviu repetidas vezes ao longo da discussão.

A confiar na conversa entre os convidados com direito a uma sala repleta, é uma Madeira em processo de renovação. Para Ricardo Garcês, por exemplo, é claro que “a insularidade já não pode ser o obstáculo” quando falamos de um mundo cada vez mais global. Diretor de Desenvolvimento da ACIN — empresa de soluções na cloud que é a maior empregadora no concelho da Ribeira Brava —, Garcês acredita que a região tem todas as condições para criar um núcleo empreendedor que ajude a reter mais jovens quadros num ciclo vicioso positivo.

Tubo de ensaio
No fundo, assumir-se como uma espécie de “tubo de ensaio”, com apoio da Startup Madeira, para “desenvolver e promover talento regional”. Ao admitir que têm “de ser mais proativos” no estabelecimento de sinergias com todos os atores, o responsável da ACIN revela que “um dos objetivos estratégicos para os próximos anos deve ser criar relações estratégicas com o turismo” para benefício coletivo. É a necessidade de formar recursos humanos, tema central ao longo da discussão e um dos pilares mais consensuais na estratégia a seguir.

Ao mesmo tempo que admitiu estarem a começar “mais tarde do que outros”, a diretora regional adjunta de Economia, Patrícia Dantas Caires, deixou bem claro que é “fundamental dinamizar o empreendedorismo e novos negócios” e que é com esse propósito que o governo regional vai lançar “um programa internacional de startups” para funcionar como uma das alavancas do processo. Porque é imperativo aproveitar os “tempos muito positivos” que se vivem, no sentido de deixar bases para o futuro.

Um período que tem visto a “rentabilidade da indústria hoteleira a subir face aos últimos sete anos”, garantiu o CEO do Savoy Hotels & Resorts, que recuperou uma típica frase madeirense para ilustrar o seu ponto de vista: “Está sol mas sabemos que vai chover, só não sabemos quando.” Ou seja, de acordo com Bruno Freitas, o turismo “não vai crescer para sempre, e temos de estar preparados”, quando se sabe que, em tempos de crise, o “lazer não é uma primeira necessidade”. Importa “acompanhar as tendências globais” e perceber que o turista de 2017 nada tem a ver com o de há uns anos, é mais esclarecido, mais digital e não quer necessariamente uma experiência hoteleira tradicional. Mesmo na promoção, as estratégias têm de mudar, desde “parcerias com bloggers e youtubers” até campanhas de turismo em conjunto com companhias aéreas, repto que estendeu a todo o painel. “É o que os outros fazem”, atirou.

Novos tempos que exigem “mão de obra qualificada”, que se encontra “em falta”, sobretudo quando muitos não olham para o turismo como “uma vocação”. Ainda assim, estão a ser dados passos positivos num sector onde “a primeira impressão” é tudo e o trato faz toda a diferença. E se o alojamento local trouxe novas dinâmicas e está a contribuir para uma revitalização urbana, é um “crescimento muito desorganizado”, que pode prejudicar o sector como um todo.

Aeroporto único
Se este crescimento do turismo na Madeira permitiu “quebrar a sazonalidade”, como aponta o presidente da Câmara Municipal do Funchal, Paulo Cafôfo, num sítio “que é por si um resort”, foi preciso também implementar uma estratégia municipal de turismo no centro nevrálgico do movimento da região para ter em conta todos estes novos desafios. E permitir o aproveitamento de vertentes ainda por explorar devidamente, “como atividades no mar”, por exemplo. Tudo conta para não se perder terreno num mundo cada vez mais competitivo e onde a qualidade sobe de importância a cada dia. Com “a qualificação” a ocupar, sem dúvida, o lugar cimeiro nos desafios, sem esquecer as acessibilidades e o papel do aeroporto, porta mestra de entrada e saída da região.

Naquele que é um “aeroporto único no mundo”, pelas condicionantes do limite de ventos que datam dos anos 70 e que ainda não foram atualizadas — apesar das inovações em termos de pista e tecnologia aeronáutica —, o governo regional tem tentado “encontrar alternativa” para responder às ânsias de quem acha que a capacidade é insuficiente. Patrícia Dantas Caires revelou “reuniões recentes” com as entidades competentes para debelar a situação. Tentativas inseridas numa lógica de “diminuir impacto do turismo nos diferentes serviços” para os visitantes e também para os habitantes insulares, muitas vezes afetados por esta instabilidade aeroportuária e outras situações.

São muitos “voos desviados” e custos operacionais mais caros que fazem muitas companhias aéreas torcerem o nariz “a um destino mais caro”, na opinião de José Cardoso, secretário do conselho fiscal da ACIF, Câmara de Comércio e Indústria da Madeira. Se é verdade que “a região tem capacidade de alojar novos sectores, sobretudo na tecnologia” conseguir movimentar mais pessoas é essencial para que a dinâmica que se vive tenha mais hipóteses de sucesso.

Desafios de futuro, com respostas complicadas a dar e uma certeza: “A Madeira vai conseguir lá chegar.”

O debate sobre “Os Desafios do Turismo na Madeira”, realizado no Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal, e moderado pelo diretor-adjunto do Expresso, Nicolau Santos, teve como convidados Patrícia Dantas Caires (diretora regional adjunta de Economia), Bruno Freitas (Savoy Hotels & Resorts), Paulo Cafôfo (CMF), Ricardo Garcês (ACIN) e José Cardoso (ACIF)

O debate sobre “Os Desafios do Turismo na Madeira”, realizado no Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal, e moderado pelo diretor-adjunto do Expresso, Nicolau Santos, teve como convidados Patrícia Dantas Caires (diretora regional adjunta de Economia), Bruno Freitas (Savoy Hotels & Resorts), Paulo Cafôfo (CMF), Ricardo Garcês (ACIN) e José Cardoso (ACIF)

Gregório Cunha

Citações

Temos 
de 
apostar 
na valorização internacional, 
e estamos a trabalhar no reforço do que é genuíno, mas também 
na melhoria 
da qualidade 
dos serviços
Patrícia Dantas Caires
Diretora regional adjunta de Economia

O sector tem 
vindo a alterar-se. Não se fala só 
de alojamento mas sim de experiências. Assistimos a um rejuvenescimento 
do turismo 
e de visitantes 
que não querem passar o dia 
no hotel
Bruno Freitas
CEO do Savoy Hotels & Resorts

O grande desafio 
é todos. Temos 
de conseguir trabalhar juntos para 
a qualificação do turismo na Madeira, para garantir a sua sustentabilidade
Paulo Cafôfo
Presidente da Câmara 
Municipal do Funchal

É um processo 
contínuo, mas estamos melhor 
do que estávamos há dez anos 
e, mesmo com 
um mercado que continua a ser pequeno, a dar sinais muito positivos. Estamos no bom caminho
Ricardo Garcês
Diretor de Desenvolvimento do ACIN

Tem 
de haver uma melhor monitorização 
do alojamento local, apesar dos efeitos positivos que 
está a ter na reabilitação urbana. Já encontramos sítios sem qualidade nenhuma
José Cardoso
Secretário do Conselho Fiscal da ACIF

O que nos dizem os dados

Saiba como algumas estatísticas nos ajudam a traçar um retrato mais claro do Turismo na Madeira

Os números são o suporte de qualquer análise que se preze. Por isso será interessante olharmos para alguns dos dados mais recentes, que ajudam a definir como as tendências do sector na Madeira se comparam, não só com todo o território, mas também dentro da própria região. Com recurso ao Portal de Informação Turística da NOS — que agrega uma série de informações big data para definir padrões — é possível ter uma imagem mais clara do que se passa nas ilhas. Tendo em conta dados de abril deste ano veja-se, para começar, o número de turistas de fim de semana que a Madeira recebe. Segundo estas informações, em comparação com o resto do país, em abril verifica-se menos o fenómeno do turismo ao fim de semana, sobretudo nos grandes pontos de atração, como o Funchal e Porto Santo, que estão na metade de baixo da tabela nacional. O que quer isto dizer? Que a região está numa boa posição no que diz respeito ao acolhimento de turismo de maior duração e, por isso, mais sustentável.

No campo da sustentabilidade, palavra-chave de qualquer projeto turístico da atualidade, importa também perceber o impacto real do número de visitas em função das infraestruturas e população. Falamos da pressão turística, neste caso com o exemplo do Funchal. Nas suas imediações existe uma maior concentração de turistas estrangeiros, sem que isso dê azo a uma alta pressão turística pelo facto de, comparativamente aos restantes concelhos da ilha, o Funchal apresentar uma maior população residente, o que o coloca num baixo 188º posto no mapa de Portugal. Por contraste, Porto Moniz está no 18º lugar.

Quanto à densidade turística, a capital surge mais uma vez em lugar destacado, na região e no país, onde se encontra no 15º lugar. Movimentos que podem ser analisados de várias formas, entre as quais as deslocações para almoço e jantar e o que isso significa dentro do próprio destino. Na Madeira, os turistas estrangeiros visitam e almoçam um pouco por toda a ilha nos seus circuitos turísticos, retornando, na maior parte dos casos no final do dia aos seus pontos de origem. Quase sempre (e mais uma vez, sob pena de repetição), Porto Santo e Funchal.

Textos originalmente publicados no Expresso de 25 de novembro de 2017