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Porto, incubadora de talento

rui duarte silva

Recrutamento. Em três anos, o investimento de empresas estrangeiras na região do Porto permitiu criar cerca de oito mil empregos

O Porto perdeu a corrida para acolher a sede da Agência Europeia do Medicamento, mas nos últimos três anos ganhou muitas outras corridas. A cidade Invicta e a região que a envolve têm vindo a posicionar-se perante multinacionais de todo o mundo, sobretudo da área tecnológica, como uma localização de excelência para a criação de centros tecnológicos e de serviços partilhados.

Nos últimos três anos — desde a criação da InvestPorto, a agência criada no âmbito do pelouro de Economia da Câmara Municipal do Porto (CMP) com o objetivo de promover a atração de investimento para a cidade e a criação de um ecossistema empresarial mais dinâmico e competitivo —, o investimento de empresas estrangeiras viabilizou a criação na região de perto de oito mil novos postos de trabalho. O estudo EY Attractiveness Survey 2017, da consultora EY, destaca o Porto como a cidade portuguesa com o maior número de investimentos que mais contribuem para a criação de empregos no país. Ricardo Valente, vereador do pelouro de Economia da CMP, fala de uma estratégia de atração de investimento ancorada no talento e garante que, só com dois novos investimentos que estão neste momento a ser negociados, “poderão vir a ser criados nos próximos meses 950 novos postos de trabalho na região”.

O grupo de bolsas europeias Euronext, a HostelWorld, a icónica marca de máquinas fotográficas Leica, a Sitel, a Vestas, a Webhelp e o Banco Natixis figuram entre os mais de 150 projetos de investimento (mais de 70 são internacionais) que, nos últimos anos, escolheram o Porto para sediar as suas operações criando centenas de postos de trabalho altamente qualificados. E se se concretizar a deslocalização da sede do Infarmed de Lisboa para a Invicta, em 2019, tal como anunciou esta semana o ministro da Saúde (rapidamente contestado pelos trabalhadores do organismo regulador), a lista de organizações atraídas pela cidade portuense pode crescer.

Os últimos indicadores mostram que o crescimento da instalação de empresas na cidade disparou durante este ano, com grandes operações internacionais em áreas de maior valor acrescentado a escolherem a cidade. Ricardo Valente confirma-o: “O Porto compete hoje com grandes capitais europeias para a captação destas empresas e tem um trunfo muito forte que é o talento que tem disponível”, explica.

Segundo o vereador do pelouro de Economia da CMP, o esforço feito pelas universidades públicas e privadas da região na formação de talento é um pilar de sustentação da forte atratividade que a região tem hoje para empresas estrangeiras. “Somos competitivos do ponto de vista dos custos de implantação, temos excelentes acessibilidades e recursos humanos altamente qualificados e muito competitivos”, realça.

Argumentos que pesaram para empresas como a HostelWorld. Aquela que é a maior plataforma de reserva de hostels do mundo instalou este ano no Porto o seu centro de desenvolvimento, criando 50 postos de trabalho e perspetivando ainda a criação de mais meia centena de empregos nos próximos 12 meses. “A cidade foi escolhida principalmente devido à infraestrutura de transportes e escritórios, bem como à disponibilidade de mão de obra qualificada e à fácil acessibilidade a partir de Dublin ou Londres, onde estão sediados os nossos dois escritórios europeus”, garantiu a plataforma, ao anunciar o investimento em Portugal.

O trunfo da qualificação

O francês Naxitis também trouxe para a região do Porto o seu centro de tecnologias de informação e com ele a previsão de criação de 640 novos postos de trabalho. Ao Expresso, Telmo Fernandes, diretor de recursos humanos do banco, sustentou a decisão com as características consideradas benéficas para a internacionalização da marca: “A qualidade do ensino, o nível de competências dos profissionais, o expertise e domínio de outros idiomas (inglês e francês) e as excelentes instalações com fáceis acessos que nos permitem oferecer boas condições de trabalho aos nossos colaboradores”. Durante o próximo ano, a empresa deverá contratar 200 profissionais. Este ano contratou já 300.

Também em 2017, o gigante do sector eólico Vestas elegeu o Porto como polo de expansão do seu investimento no país, no âmbito de uma estratégia global. A multinacional vai investir entre 5 a 10 milhões de euros, até 2020, para abrir um centro de engenharia. Quando anunciou o investimento e a contratação de 80 profissionais ainda este ano, a empresa justificava a sua decisão com “a oferta de talento e a proximidade de universidades e institutos de investigação de referência”.

As mesmas justificações estarão a pesar na negociação que a autarquia está atualmente a conduzir junto de dois investidores internacionais, um deles alemão com um projeto que cruza o turismo e o marketing digital. Sem querer revelar a identidade das empresas, Ricardo Valente assegura que juntos criarão cerca de 950 postos de trabalho, caso o Porto seja a sua opção final.

O argumento do talento, transversal a quase todos os investidores, levou a autarquia e os seus parceiros a olhar para o talento como um fator central da estratégia de competitividade da região e definir um conjunto de políticas para dinamizar a captação de profissionais altamente qualificados para trabalhar no Porto.

Clara Gonçalves, diretora executiva do UPTEC (Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto), garante que “os recursos e o talento que a cidade e a região produzem todos os anos são cada vez mais reconhecidos no mercado nacional e internacional”. Para a líder do UPTEC, “esta produção de talento tem-se refletido no surgimento contínuo e crescente de novas empresas na cidade e na sucessiva atração de uma comunidade internacional de startups”.

Câmara, universidades e associações empresariais e de dinamização do empreendedorismo estão unidas nesta missão de apresentar o Porto ao mundo como um hub de talento altamente qualificado, procurando atrair para a região novas empresas e, através delas, promover a criação de emprego. Para isso, a cidade tem em marcha um plano que visa reforçar internacionalmente a sua imagem enquanto “cidade tecnológica, voltada para o futuro, onde se aposta no desenvolvimento de carreiras e ideias”, explica o vereador. Parte desta estratégia passa por identificar e até antecipar as reais necessidades de talento das empresas e articular com universidades e demais instituições de formação a qualificação dos profissionais necessários para que nenhuma empresa deixe de investir na cidade por encontrar dificuldades de recrutamento.