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Caso das viagens ao Euro2016 foi o tema económico do verão

Com a Economia com pouca presença nos media durante o verão, a polémica das viagens pagas a governantes e dirigentes públicos liderou visibilidade, conclui a ISCTE Business School

Encheu manchetes e culminou na demissão de três secretários de Estado — Assuntos Fiscais, Internacionalização e Indústria —, provocando uma remodelação forçada no Governo de António Costa. O caso das viagens pagas pela Galp a governantes, para assistirem a jogos da seleção nacional no Euro-2016, em França, centrou as atenções dos media no último verão. E, logo de seguida, surgiram os casos da tecnológica norte-americana Oracle, numa deslocação a São Francisco, em 2014, e da NOS, parceira da chinesa Huawei, numa visita à China, em 2015.

Foi o tema económico do verão, concluiu o projeto de indicadores de conjuntura baseados em notícias económicas, do Departamento de Economia da ISCTE Business School (IBS), que apresenta as análises em parceria com o Expresso, numa base trimestral. Com duas semanas no top 10 de temas com maior atenção mediática (ver caixa “Notícias em análise”) e liderando em termos de notícias geradas, ocupa o primeiro lugar do ranking de temas económicos no terceiro trimestre. “Continuam a estar na ordem do dia e a gerar grande produção e cobertura jornalística temas relacionados com a ética ou os atos ilícitos”, destaca Nuno Crespo, professor da IBS e vice-reitor do ISCTE.

Não foi o único tema polémico a estar nas luzes da ribalta. Na terceira posição do ranking de temas económicos (também com duas semanas no top 10) ficou o “crime económico e corrupção”, com notícias sobre a inspetora da Autoridade tributária apanhada no caso “Swissleaks”; a disputa entre o Estado e a EDP sobre o pagamento de impostos e a contribuição extraordinária sobre o sector energético; ou o caso da Força Aérea, com o esquema de sobrefaturação nas messes.

Economia sai da ribalta

Com as atenções centradas nos fogos florestais, no desaparecimento das armas em Tancos e na campanha para as eleições autárquicas, a Economia esteve muito mais arredada das manchetes, sites e noticiários televisivos. No terceiro trimestre, as notícias económicas representaram apenas 9,1% de todas as notícias que chegaram ao top 10 geral em cada semana. Um valor inferior aos três meses anteriores (11,7%) e que compara com 23,8% um ano antes, ou seja, no terceiro trimestre de 2016. Mais ainda, é o mais baixo de toda a série apurada pela IBS, que começa no início de 2015.

Para Sandro Mendonça, professor da IBS e coordenador deste projeto, a menor atenção mediática sobre a economia tem acompanhado a melhoria de tom na frente macroeconómica. E lembra que “a maior parte das empresas do país produtor serve sobretudo o mercado interno, o qual tem sido beneficiado pelo mix socioeconómico das políticas seguidas”. Além disso, “o Portugal exportador tem beneficiado dos ganhos de reputação internacional do país”, considera.
Destaca-se a subida de rating da república pela agência de notação de risco S&P, tirando Portugal, finalmente, do nível de ‘lixo’ financeiro. Uma boa notícia que ascendeu ao quinto lugar do ranking de temas económicos no terceiro trimestre. No top 5 estão ainda temas macroeconómicos, mas que afetam diretamente a vida das pessoas, casos das alterações no IRS (em antecipação ao Orçamento do Estado para 2018), na segunda posição, e ‘Trabalho e emprego’, com notícias sobre a queda do desemprego, no quarto posto.

A situação na Altice/PT, as notícias sobre o bom desempenho da economia e a redução do défice público, a greve dos trabalhadores na Autoeuropa, os preços dos combustíveis em Portugal (com o secretário de Estado da Energia a questionar uma possível concertação) e a situação na banca fecham o top 10 do ranking de temas económicos no terceiro trimestre.

“Em destaque estão boas notícias económicas, acentuando o clima favorável que tem caracterizado a economia portuguesa e que já mereceu ao ministro das Finanças a alcunha, de inspiração futebolística, de ‘Ronaldo das Finanças’ e uma porta não fechada para o Ecofin”, salienta Nuno Crespo. Nota ainda para a banca que, depois de sucessivamente liderar o ranking, está, agora numa posição bem mais modesta (10º lugar). Um sinal de que “a fase aguda passou e parece que as soluções pontuais (nomes encontrados para a CGD e negócio fechado no caso da venda do Novo Banco) terão persuadido os peritos da área e as autoridades externas que por enquanto está tudo bem”, considera Sandro Mendonça.

Pessimismo sobe

Apesar das boas notícias na frente macroeconómica, o peso das notícias económicas negativas entre os temas que chegaram ao top 10 geral atingiu 50% no terceiro trimestre, subindo quase 20 pontos percentuais em relação aos três meses anteriores. Ao mesmo tempo, o peso das notícias económicas positivas desceu para 45,5% (60,9% no segundo trimestre), enquanto o peso das notícias de carga neutra ficou pelos 4,5% (8,7% no segundo trimestre). Mesmo assim, os números comparam favoravelmente com o terceiro trimestre de 2016, quando o peso das notícias negativas atingia 56,4%, com as positivas a ficarem pelos 20,5% e as neutras a situarem-se em 23,1%.

Explicação? “O regresso de maior número de notícias negativas resulta da maior incidência mediática sobre o crime económico e corrupção”, frisa António Santos, analista do projeto, acrescentando ainda o caso da greve na Autoeuropa. Cátia Miriam Costa, investigadora da escola de Sociologia e Políticas Públicas do ISCTE, deixa mais uma pista: “A corrupção, os incêndios e seu impacto socioeconómico e a imprevisibilidade do resultado sobre as negociações para o orçamento do próximo ano levaram a uma tendência para eliminar o estado de graça do Governo e a onda de boas notícias que, até agora, marcavam a economia e as finanças.”