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China. Terceiro ‘abanão’ do ano na bolsa de Xangai

A principal bolsa chinesa, e quarta do mundo, perdeu 0,9% durante a semana e caiu 2,7% desde o pico recente. Só na sessão de quinta-feira caiu 2,3%, o pior dia em ano e meio. Banco Popular da China anunciou fim das injeções de liquidez

Jorge Nascimento Rodrigues

A principal bolsa chinesa, e quarta maior do mundo, sofreu um ‘abanão’ esta semana com a sessão de quinta-feira a marcar um recorde de queda diária em ano e meio.

O índice da bolsa de Xangai recuou 2,29% na quinta-feira e registou uma perda semanal de 0,9%. Desde o pico mais recente em 13 de novembro, aquele índice caiu 2,7%. Os analistas chineses desdramatizam considerando que não se trata de pânico financeiro, mas apenas de uma simples correção.

É o terceiro ‘abanão’ este ano em Xangai. Entre 11 de abril e 10 de maio, o índice atravessou um ciclo descendente prolongado, de quase um mês, perdendo 7,2%. Entre 1 e 11 de agosto, o índice recuou 2,6%. Agora, desde 13 de novembro perdeu ligeiramente mais do que em agosto.

Na bolsa de Shenzhen, o mercado das ações tecnológicas no sul da China, a perda semanal foi de 1,7% e desde o pico recente a 13 de novembro a quebra foi de 5,9%. Abalos maiores do que em Xangai. A bolsa de Shenzhen vale 73% da capitalização bolsista de Xangai.

Juros da dívida pública em máximos desde 2014

As bolsas foram sensíveis ao ‘abalo’ no mercado da dívida chinesa. No prazo de referência, a 10 anos, os juros dos títulos chineses chegaram a subir para 4% na quinta-feira no mercado secundário. Esse nível fixou um pico do ano e é um máximo desde setembro de 2014.

A China atravessou um período de juros abaixo do limiar dos 4% durante mais de três anos. Segundo os analistas, um ciclo artificialmente baixo, graças à política monetária expansionista do banco central. O ano de 2017 abriu com um juro de 3% a 10 anos.

Uma subida continuada dos juros da dívida pública, e o seu ‘contágio’ para o mercado de crédito privado, poderá abalar o tecido empresarial sobreendividado que tem de refinanciar o equivalente a 600 mil milhões de dólares (mais de 505 mil milhões de euros) de dívida que vence em 2018. Juros mais altos tornam mais caro o refinanciamento empresarial. Em termos de dívida das administrações locais tem quase o dobro daquele valor a vencer em 2018 e 2019.

Precisamente em agosto, aquando do segundo abanão do ano nas bolsas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu que a dívida do sector não financeiro (Estado, empresas e famílias) poderá disparar de 236% do PIB atualmente para perto de 300% em 2022. A previsão deste relatório de agosto ao abrigo dos 'exames' previstos no artigo IV da organização, corrigiu em alta a projeção anterior que apontava para 270% daqui a cinco anos. “O crescimento do crédito na China está numa trajetória perigosa, com riscos crescentes de um ajustamento disruptivo e/ou de um abrandamento marcante do crescimento”, dizia o relatório do FMI. O crédito às empresas chinesas representa 54% da dívida chinesa.

A dívida em risco das empresas chinesas vale 50% do PIB do país, segundo um estudo de Daniel Beltran, Keshav Garud e Aaron Rosenblum, publicado em junho pela Reserva Federal norte-americana. Está acima da média de 46% do PIB verificada para as quatro economias emergentes asiáticas (Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Tailândia) mais afetadas durante a crise de 1996 e é o quíntuplo da média atual de 10% do PIB para 14principais economias emergentes (excluindo a China e Hong Kong).

Os analistas atribuem a agitação atual ao anúncio pelo Banco Popular da China (BPC), o banco central, de que iria acabar com injeções de capital no mercado. Segundo a Reuters, esta semana injetou 150 mil milhões de yuans, depois de na semana passada ter colocado 810 mil milhões, a maior em 10 meses, como referiu a CNBC.

No conjunto destas duas semanas de novembro, o BPC injetou o equivalente a cerca de 121 mil milhões de euros (a título comparativo, equivale a dois meses de aquisição atual de ativos pelo Banco Central Europeu na zona euro).

A mudança de estratégia a partir de agora pretende ‘arrefecer’ o que muitos consideram uma ‘bolha de crédito’. Muitos analistas não acreditam, no entanto, que o banco central efetivamente pare com as injeções.

Mudança na chefia do banco central para breve

O governador do BPC, Zhou Xiaochuan, tem alertado ultimamente para o risco de estoiro da bolha de crédito e para um colapso súbito no preço dos ativos, o que ele designou pela ameaça de “um momento Minsky” (do nome do economista norte-americano Hyman Minsky que teorizou a instabilidade financeira congénita dos mercados e o processo de formação e estoiro das ‘bolhas’ financeiras).

Zhou está à frente do banco central desde 2002, foi reeleito em 2013, e anunciou em outubro que se iria retirar.

O seu sucessor poderá ser conhecido ainda em dezembro na reunião bimensal do comité permanente do Congresso Nacional Popular (o governador é eleito por este Parlamento) ou na reunião do Congresso de março do próximo ano, em que é eleita a nata da nomenklatura chinesa – presidente da República, primeiro-ministro e outros altos cargos.