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Empresas têm de inovar na própria inovação

O painel de debate, moderado por João Vieira Pereira, diretor-adjunto do Expresso, contou com Paula Panarra, diretora-geral da Microsoft Portugal, Pedro Silva Dias, presidente da Agência para a Modernização Administrativa, Pedro Rocha Vieira, cofundador e CEO da Beta-i, e Jorge Portugal, diretor-geral da Cotec

António Bernardo

Próximo Nível debateu a tecnologia e os desafios que ela traz às empresas. Que são muito maiores do que se pensa. Numa altura em que é preciso “deixar de fazer como se fazia sempre”

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Internet das coisas, big data, gamificação, impressão 3D, bitcoin, blockchain, indústria 4.0, inteligência artificial, robotização, realidade virtual, digitalização da economia, disrupção digital, carros voadores, consultas médicas online através do telemóvel, comércio online, sensores digitais... A lista é interminável e pode ser avassaladora para as empresas privadas e públicas. Como vão elas usar tudo isto nos seus negócios? Que conceitos e tecnologias vão aplicar? Quanto é que precisam investir? E que retorno vão ter? E isto vai obrigar a despedir pessoas? Hoje, o significado de inovar deixou de ser apenas introduzir novidades, renovar, inventar ou criar. Agora já é preciso inovar na própria inovação.

“A tecnologia não é sinónimo de inovação, deve é ser aproveitada, e todas as que existem devem ser combinadas. É na sua conjugação que vai estar a inovação”, disse o presidente da Agência para a Modernização Administrativa, Pedro Silva Dias. Ele foi um dos oradores presentes em mais um Próximo Nível, projeto do Banco Popular e do Expresso que esta semana debateu o tema “Tecnologia: O Desafio de Inovar nas Empresas”. De facto, para a diretora-geral da Microsoft Portugal, Paula Panarra, também convidada do encontro, daqui para a frente inovar vai passar por decidir como se usam todos os novos conceitos e tecnologias que já existem e que vão continuar a existir. Ou seja, vai obrigar a ser ainda mais criativo.

“A inovação é um pouco como o futebol. Todos falam e praticam, mas poucos o fazem ao mais alto nível. É uma aspiração”, comentou, por sua vez, o diretor-geral da Cotec — Associação Empresarial para a Inovação, Jorge Portugal. De acordo com este responsável, nos últimos anos, “as empresas tiveram de abraçar a inovação, a bem ou a mal”, e começaram a inovar na qualidade dos produtos e nos processos, principalmente na indústria, substituindo máquinas. Mas isso “é onde estamos agora, e é preciso dar um salto”, ou seja, “a inovação do produto ou do processo já não é a mais importante. As empresas têm de orientar todo o seu negócio para uma economia digital, que é uma economia de serviços associados aos produtos”, comentou. E este é um dos grandes desafios que as empresas têm pela frente.

“Podemos fazer inovação com i grande ou com i pequeno. A do i pequeno é a de baixo risco e baixo retorno. A do i grande é a de alto risco mas de alto retorno. E o que as empresas têm de fazer é questionar se têm a diversidade necessária para fazer a inovação certa. Ou seja, se querem fazer apenas uma inovação de ciclo rápido, que é aquela que é feita todos os dias e dá resposta a problemas do dia a dia, ou se querem também fazer uma inovação de ciclo lento, que exige mais mas permite ganhar competitividade e dinheiro para depois reinvestir. É importante gerir o retorno na inovação numa lógica de risco-retorno. Porque a digitalização é incontornável, e investir em inovação é uma questão de sobrevivência”, disse Jorge Portugal.

O que fazer?
Para o diretor-geral da Cotec, o que muitas empresas têm estado a fazer é, precisamente, inovação com i pequeno, ou seja, aquela que se faz no dia a dia. “Temos 223 PME inovadoras, mas destas 85 vendem menos de quatro milhões de euros, ou seja, estão internacionalizadas, vendem lá fora, mas estão numa subescala, não geram retorno para investir”, comentou. É isto que tem de ser alterado, não só nestas PME em particular mas no panorama empresarial em geral. Porque, disse Pedro Silva Dias, “tem de haver uma cultura constante de inovação, seja a mais pequena, como mudar um formulário, seja na inovação disruptiva”.

Um dos primeiros passos a dar passa por arrumar a casa, ou seja, é importante que todas as fases do processo industrial e todas as áreas de negócio já estejam ligadas entre si e a comunicar digitalmente. Isso já acontece muito nas grandes empresas e até no Estado — por exemplo, na entrega online do IRS, no pedido do Documento Único Automóvel, que já tem mais pedidos online do que fisicamente, ou nas receitas médicas online, em que Portugal é o país líder na Europa.

Depois é preciso apostar em parcerias, entre empresas privadas, entre privados e o Estado, e até com startups. “Até as startups já estão a usar outras startups para inovar”, comentou Paula Panarra. “Todas as empresas, mesmo as grandes, podem inovar, mas não o podem fazer sozinhas, e a gestão vai ter de perceber que é preciso trabalhar com uma rede de inovação, com parceiros, universidades e startups não só dos mesmos sectores mas também de outras áreas”, acrescentou ainda Jorge Portugal. Mas é também preciso que as empresas tenham uma estratégia definida. “O maior erro é pensar que fazer inovação é imediato. Ela tem de ser pensada”, disse Paula Panarra, acrescentando que, nos últimos anos, a Microsoft tem visto uma maior preocupação das empresas nesse sentido.

Mudar mentalidades
A digitalização e a inovação são, de facto, incontornáveis, e, apesar de a tecnologia e as máquinas estarem a ganhar cada vez mais peso na sociedade e na economia, o fator humano não desaparece e até se torna mais relevante preservá-lo. “A nossa maior preocupação é fazer o acompanhamento deste salto tecnológico com responsabilidade, tanto na proteção das pessoas como na segurança no tratamento de dados”, disse Paula Panarra. De facto, o professor da Católica, Paulo Cardoso do Amaral, que fez a apresentação inicial e deu o mote ao debate, deixou um alerta: “Os próximos anos vão ser muito mais violentos do que os anteriores”, principalmente no que respeita aos recursos humanos, porque começam a aparecer tecnologias, como o blockchain, que podem eliminar inteiras cadeias de valor e, com isso, acabar com muitos empregos.

Mas isto não é uma preocupação para já. A urgência passa, antes, por mudar a mentalidade dos gestores e dos trabalhadores das empresas mais tradicionais. “Ainda existem muitas quintinhas”, comentou o cofundador e CEO da Beta-i, Pedro Rocha Vieira, que nota ainda que é preciso “incentivar as pessoas a ter autonomia e a inovar”. E isto torna-se mais relevante porque, nos últimos anos, “houve muita gente a vir para Lisboa, muita gente a olhar para o empreendedorismo, começámos a ter casos de sucesso de startups portuguesas no estrangeiro, que contrataram muita gente nova, e houve o regresso de gente que estava fora, e tudo isto fez com que houvesse uma grande mudança no mundo do trabalho”, salientou Pedro Rocha Vieira. Ou seja, concluiu Jorge Portugal, para algumas empresas é preciso “deixar de fazer como se fazia sempre”.

Rostos da inovação nas empresas

Paula Panarra

Diretora-geral da Microsoft Portugal

A Microsoft abriu a subsidiária portuguesa em 1990. Tem sete unidades de negócio no país. Fizeram a instalação do Centro Europeu de Suporte Telefónico e do Centro de Investigação e Desenvolvimento. Em 2008 compraram uma empresa de Braga, a Mobicomp. Desde final de 2016 que é liderada por Paula Panarra. Entrou em 2010 para o cargo de diretora de marketing, passando depois para a direção de Marketing & Operações e depois para a direção-executiva do sector público.

Pedro Rocha Vieira
CEO da Beta-i

A Beta-i é uma incubadora e aceleradora de startups que foi fundada em 2010 por Pedro Rocha Vieira, Ricardo Marvão, Manuel Tânger e Tiago Pinto. Ajudam startups a casar com investidores. Conta com uma equipa de 40 pessoas e já receberam mais de quatro mil candidaturas para programas de aceleração que têm, já apoiaram mais de 600 startups que receberam mais de €60 milhões. Rocha Vieira garante que há cada vez mais empresas de dimensão interessadas em investir em startups.

Jorge Portugal

Diretor-geral da Cotec

A Cotec Portugal — Associação Empresarial para a Inovação foi criada em 2003 pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, para promover o aumento da competitividade das empresas. Conta com 343 associados, que “representam cerca de 16% do PIB e 8% do emprego privado”. O Governo atribuiu à Cotec a categoria de utilidade pública. Desde 2016 que a direção-geral está nas mãos de Jorge Portugal.

Pedro Silva Dias

Presidente da AMA


A Agência para a Modernização Administrativa (AMA) é um instituto público. Principais competências: modernizar e simplificar os processos administrativos do Estado. A AMA gere a rede de lojas do cidadão e foi criada em 2007 no âmbito do Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado. Pedro Silva Dias, 39 anos, é o presidente desde 2015. É licenciado em Engenheira Informática e ficou em quinto lugar no ranking dos 40 maiores líderes de Portugal com menos de 40 anos.

As próximas tendências

A tecnologia evolui e é preciso avaliar o impacto que tem na economia. Segundo análise da Católica Lisbon Business, apresentada por Paulo Cardoso do Amaral, os próximos cinco anos vão mudar mais o mundo do que os últimos 20

PASSADO

Os computadores começaram por automatizar funções, dando origem a uma reconversão das empresas e do seu funcionamento

Mais tarde apareceu a World Wide Web, onde as empresas tinham de estar presentes, e aumentou a facilidade com que as empresas se relacionavam entre si

Os processos foram todos automatizados e digitalizados, permitindo aumentar a mobilidade. A Uber e a AirBnB 
são exemplos disso

PRESENTE

Em 2017, as cinco empresas mais valiosas do mundo vêm das tecnologias e, no seu conjunto, já ultrapassaram os três mil milhões de dólares, ou seja, mais do que 
o PIB do mais rico da Europa. 
E as três marcas mais valiosas 
do mundo são tecnológicas

Existem novas tecnologias 
que, apesar de já terem nascido 
há algum tempo, estão agora 
a começar a ficar mais desenvolvidas, até porque já são usadas em muitas empresas 
e indústrias

É o caso da internet das coisas, cloudcomputing, big data, machinelearning, gamificação, indústria 4.0, automação ou inteligência artificial

Estas tecnologias diminuíram 
o custo do acesso à informação, trazendo maior transparência 
e beneficiando as economias 
de escala e o efeito de rede

FUTURO

O futuro já não passa pela informatização, digitalização 
ou sequer transformação digital. 
A tendência é que haja uma disrupção digital

Isso aponta para que todas estas tecnologias que já existem sejam usadas em conjunto, e serão, precisamente, as empresas 
que o fizerem que vão conseguir inovar e ser mais competitivas

Com todas as tecnologias 
a funcionar em conjunto, a mobilidade será ainda maior 
e teremos acesso a tudo em andamento e à distância

As bitcoin e o blockchain podem ser as tecnologias do futuro, 
mas o seu impacto pode ser muito violento, pois permitem eliminar 
as cadeias de valor que hoje existem e pôr em causa empregos

Textos publicados originalmente no Expresso de 18 de novembro de 2017