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Eles investigam o futuro da energia

(Da esq. para a dir.) José Campos Costa, 3º prémio, 
foi pastor nos Alpes suíços, rececionista em Banguecoque e faz-tudo na Bulgária. Bruna Costa Tavares, 1º prémio, 
ponderou um curso artístico, 
mas a matemática falou mais alto enquanto Rui Mirra dos Santos, 2º prémio, 
viveu oito meses numa casa inteligente 
e com energia eólica na Dinamarca

José Caria

José, Bruna e Rui ganharam o Prémio REN 2017, que distingue há 22 anos as melhores teses de mestrado na área da energia. Mas os seus interesses e valores vão muito além da engenharia

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

José Campos Costa entregou a candidatura ao Prémio REN 2017 no último dia, à última da hora, no último posto dos Correios aberto em Lisboa, nos Restauradores. Até deixou a namorada “à espera para jantar”. Mas compensou. Ela continua a ser a mesma. E ele ganhou o terceiro prémio, €3500, entregue esta sexta-feira à tarde no Hotel Ritz. José tem 25 anos, é de Viana do Castelo, estudou Engenharia Eletrotécnica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), e na sua tese de mestrado, que durou cinco meses — uns com mais empenho do que outros, brincou —, avaliou a “fiabilidade de uma microrrede de energia”, que pode ser um condomínio ou uma pequena aldeia. Neste caso, estudou uma que tinha 20 pontos de consumo, dos quais 10 eram pontos de geração solar, e concluiu que ela pode funcionar de forma autónoma, como uma ilha. Mas fê-lo com um método matemático diferente, cuja premissa se aproxima mais da vida real. Aliás, foi por isso que escolheu o tema. Pela investigação e pela componente social. “Isso interessa-me. Para termos uma rede inteligente temos de ter um consumidor inteligente. É preciso estudar de que forma podemos envolver mais o consumidor, porque estas tecnologias vão ajudá-lo a poupar”, disse.

José vai usar parte do dinheiro que ganhou para voltar a estudar, neste caso Psicologia. Sair de Portugal não está nos seus planos imediatos, porque em fevereiro começou a trabalhar na New, do grupo EDP, e faz precisamente o que gosta: investigação em energia e redes com uma componente social. E gozar férias também não. Entre o 4º e o 5º anos tirou um ano sabático, durante o qual foi viajando e trabalhando nos sítios por onde passava para ter dinheiro para continuar a viagem. “Fui pastor nos Alpes suíços, rececionista num hostel em Banguecoque e faz-tudo durante dois meses na Bulgária”, contou ao Expresso.

Estudar as redes
O trabalho de Bruna Costa Tavares foi o grande vencedor, e só o seu nome impõe respeito: “Sensory fusion applied to power system state estimation considering information theory concepts”. Ou algo como: “Fusão sensorial aplicada à estimativa do estado do sistema de energia considerando conceitos de teoria da informação”. Na prática, Bruna, de 24 anos, natural do Porto e aluna de Engenharia Eletrotécnica na FEUP, desenvolveu um algoritmo e um método que permite ler em conjunto os vários tipos de sensores de uma rede elétrica. “As empresas vão ler melhor as redes que gerem, e o consumidor terá uma melhor qualidade de serviço, por exemplo, faltará menos a luz”, explicou ao Expresso. Mas não foi fácil. “A tese demorou cinco meses a fazer, e passei os dois primeiros só em testes. Escolhi um dos temas mais difíceis que havia na lista, mas queria desafiar-me. No fim, ainda pensei: porque me meti nisto? Mas agora já sei”, disse a sorrir.

Bruna ganhou um prémio de €12.500, que vai usar para viajar e para quando for viver para fora, um desejo seu. Mas, acima de tudo, percebeu que gostava de investigação e está a fazer um doutoramento no INESC que “não é só académico, tem uma aplicação prática”. Não se arrepende nada da escolha que fez quando acabou o secundário. “Ou ia para Arquitetura ou algo mais artístico ou então para Engenharia e algo que tivesse a ver com renováveis. Porque sempre gostei de matemática e desde miúda que tenho uma grande sensibilidade por temas como a poluição.”

Viver no próprio projeto
Rui Mirra dos Santos trabalha na Microsoft Portugal, num projeto na Holanda, emprego que arranjou três meses depois de acabar o curso. Tem 24 anos, é de Alcácer do Sal, tirou Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e ganhou o segundo prémio. Veio de propósito de Amesterdão para a entrega dos prémios, que contou com a presença, entre outros, do presidente da Impresa, Francisco Pinto Balsemão, do secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, e do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor.

A tese de Rui tem um nome imponente: “Nonlinear Economic Model Predictive Control for Energy Management of Smart Buildings”. Ou: “Estudo de previsão de um modelo económico não-linear de gestão de energia em edifícios inteligentes”. Um trabalho que o levou a viver oito meses numa casa inteligente e alimentada a energia eólica em Roskilde, um antigo fiorde viking na Dinamarca. Durante esse período, criou um algoritmo que mostra que um edifício pode agir como bateria que armazena renováveis e, por isso, pode consumir energia quando ela está a ser produzida e armazená-la quando está mais barata.

Rui ganhou €6500, mas o mais importante para ele é saber que, agora, a sua tese já não vai para uma estante qualquer, mas “vai ser um catalisador de investigação”, disse ao Expresso. Só que isso não será feito por ele. “Quero ter a minha própria empresa, não sei ainda de quê. Tenho muitas ideias, que aponto num caderno que a minha mãe me deu, porque estava sempre a esquecer-me delas. Mas quero fazer algo diferente. Se as máquinas estão a substituir as pessoas, a criatividade é a única coisa que nos vai diferenciar.” Para já, está bem na Microsoft.

“Acho que nunca vou ter um dream job. Se sentir que estou a estagnar, saio, mesmo que as condições sejam muito boas”, afirmou. Mas vai aproveitar ao máximo, porque o que está a fazer tem mais a ver com gestão do que com engenharia e energia, e se havia algo que queria depois do curso era aprender a lidar com negócios. Para ajudar a criar a sua empresa.

Não é, pois, só a engenharia e a energia que une os três vencedores. Em comum têm o facto de quererem aproveitar o presente e não fazer planos para o futuro, mas também estão unidos pelos altos valores sociais e ambientais. E não desistem deles por nada.

PERGUNTA A
Manuel Heitor
Ministro da Ciência, Tecnologia 
e Ensino Superior

Como é que as universidades geram ciência e tecnologia para as empresas?
Com mais trabalho e sobretudo investindo na coprodução e na codifusão do conhecimento. Hoje, sabemos bem que a valorização social e económica do conhecimento está crescentemente associada à interação e a uma relação não linear entre as atividades de investigação e inovação e à corresponsabilização das instituições participantes por processos de transferência e difusão do conhecimento. Por isso, criámos o Programa Interface e estimulámos incentivos à criação e promoção de “laboratórios colaborativos” entre as instituições de ciência, tecnologia e ensino superior e o tecido económico e social, designadamente as empresas, o sistema hospitalar e de saúde, as instituições de cultura e as organizações sociais. Hoje, os laboratórios colaborativos já são uma realidade, designadamente após a apresentação na quarta-feira, 15 de novembro, das primeiras sete propostas que evidenciam formas efetivas de consolidar e promover a capacidade e o potencial que as comunidades científicas, académicas e empresariais apresentam para fazer face à oportunidade de relacionar o conhecimento com o bem-estar e o desenvolvimento social e económico em Portugal. É uma oportunidade para que as instituições científicas e académicas, em estreita colaboração com atores económicos, sociais e culturais, contribuam para a construção de projetos de relevância internacional, com impacto efetivo na sociedade, estimulando a criação de emprego qualificado em Portugal.

Textos originalmente publicados no Expresso de 18 de novembro de 2017