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Como as startups podem ajudar o turismo na Madeira

Um dos mais antigos destinos turísticos portugueses, a Madeira, está a reinventar-se sem perder a identidade que a torna tão apelativa

D.R.

Trazer novas ideias de negócio para o sector mais representativo do arquipélago e fixar população jovem são alguns dos desafios a que o empreendedorismo pode responder

Todos a bordo no caminho de futuro da Pérola do Atlântico para reforçar a sustentabilidade de um sector que se confunde com a própria história das ilhas. A arte de bem receber é uma das mais ancestrais na Madeira, com um “longo historial de mais de 200 anos”, de acordo com o presidente da Câmara Municipal do Funchal, Paulo Cafôfo. Com base naquela que é a primeira cidade insular fora do Velho Continente a ser construída por europeus, a beleza natural, o parque hoteleiro e a fama do vinho local cedo deram ao arquipélago o estatuto de primogénito nos destinos turísticos portugueses. Herança que importa recordar mas que não faz o presente. Lembra o autarca que “agora é o nosso tempo” e dormir à sombra da bananeira não é opção.

A Madeira não é alheia ao boom turístico que Portugal vive nos últimos tempos e, dado o seu historial, é com alguma naturalidade que se assume como um dos principais beneficiários (e também causadores) desse crescimento. “Temos passado nos últimos anos por um período muito favorável”, garante Sérgio Gonçalves. O vice-presidente da ACIF — Câmara de Comércio e Indústria da Madeira — aponta para subidas “em todos os indicadores”, com particular destaque para a taxa de ocupação, que consistentemente ultrapassa os 70%, com reflexos claros na “rentabilidade do sector”. Algo essencial quando falamos da galinha dos ovos de ouro da região autónoma, que representa “25% do PIB regional” e “15% do total de emprego”. São números fortes para sustentar o impacto económico das visitas e provar que o turismo não pode ser descurado. Sempre com o princípio base de “manter um equilíbrio entre oferta e procura”.

Laboratório de novas ideias
É o dilema mais premente em qualquer debate sobre o sector e que coloca frente a frente a necessidade de criar mais condições para a indústria do lazer e viagens sem que os locais se sintam desenraizados. Pressão que o presidente do Turismo de Portugal, Luís Araújo, considera “ter que ser discutida” mas que acredita ainda não ter sido prejudicial para a Madeira. Antes pelo contrário, há muito a ganhar com “as novas tendências globais” se forem aplicadas medidas eficazes em três vertentes essenciais para a sustentabilidade da economia e sociedade, a saber: “digitalização, qualificação dos recursos humanos e acessibilidades”. Campos onde o empreendedorismo pode (“e deve”) assumir papel de destaque para que a região se transforme num “laboratório ideal de ideias inovadoras para o turismo” e se estimule “uma proximidade internacional” com reflexos na fixação dos elementos mais novos da população. O trabalho deve ser responsabilidade de todos, desde “a Universidade da Madeira a entidades públicas e privadas, passando pela população em geral”. Com a certeza de que “todos estão preparados”.

Para Sérgio Gonçalves, as startups de turismo podem ser uma dos pilares na estratégia de “diminuir a insularidade” e reter emprego qualificado, que, tradicionalmente, prefere não se fixar na região. Sem negar que “o comércio tradicional chegou a passar por algumas dificuldades e alguns negócios não sobreviveram”, é rápido a apontar que “muitos souberam-se reinventar” e contribuir para a “requalificação da oferta” com ajuda de “conceitos inovadores”. É um efeito do empreendedorismo que “já se nota” e daí olhar com satisfação “para os projetos que surgem” em sintonia com uma lógica de estímulo, sem esquecer questões ligadas “ao ordenamento do território”. As ilhas ainda “estão longe de atingir a capacidade máxima de carga”, pelo que há espaço para acolher mais pessoas e “novos fluxos de turismo” que já procuram a Madeira.

Preservar identidade
Há que considerar o impacto “das novas plataformas de alojamento” patente na proporção de “mais de 10 mil camas de alojamento local para cada 30 mil camas tradicionais”, juntamente com a “requalificação do parque hoteleiro”. Apesar dos efeitos positivos que geralmente tem tido na reabilitação urbana, é “uma alteração de paradigma” que deve obrigar os responsáveis “a estarem mais atentos” e a “pensar nos destinos em termos de quem lá vive” quando, entre turistas e residentes, se caminha para um “eventual estrangulamento da capacidade aeroportuária” se entretanto nada for feito.
Desafios de “sustentabilidade”, como lhes chama Paulo Cafôfo, a que junta outro “desafio fundamental”, o de “preservar a identidade”, ou seja, o “carácter típico que chama as pessoas.”

Se é claro que as “novas ideias são bem-vindas”, é hora de “passá-las à prática”, e o presidente acredita que a conferência da próxima semana pode ser um “virar de página na discussão que se tem feito do sector na região.” Aspetos como o turismo natural ou cultural têm que ser vistos “com outros olhos” para explorar novas oportunidades de negócio quando é notório que “o perfil dos turistas tem-se alterado”. Ao assumir uma discordância “em absoluto” do conceito de “turismo a mais”, quer garantir que os visitantes fiquem “mais tempo e consumam mais” e revela esperança numa “estratégia consertada” para que os novos talentos “fiquem na sua terra”. “É o passo que falta dar.”

Luís Araújo acredita que “se pode fazer sempre mais”, sobretudo num sítio onde “se respira turismo” e se encontra a maior “taxa de ocupação em Portugal”. Um local com “condições únicas” e que só tem a ganhar em apostar no empreendedorismo para captar “mais investimento” e obter novas oportunidades de “distribuição, promoção e comercialização”. Será uma ponte transversal entre diferentes sectores para “aproximar os mercados internacionais” e contribuir para a tão falada sustentabilidade, consignada na Estratégia 2027 do Turismo de Portugal. Os desafios estão lá mas o responsável pelo organismo não tem dúvidas: “A expressão certa não é otimista. É muito otimista.”

Os 15 desafios do Turismo da Madeira

A Fábrica de Startups, incubadora do Programa Discoveries — que cria ideias para o turismo acelerando startups — aponta 15 pontos para potenciar a inovação na região


1. Valorização 
do Património
Tirar melhor partido dos ativos turísticos de Portugal: pessoas, clima e luz, história e cultura, mar, natureza, água, gastronomia e vinhos, eventos artístico-culturais, desportivos e de negócio, bem-estar

2. Sazonalidade
Alargar a atividade turística 
a todo o ano

3. Desconcentração 
da procura
Incentivar a atividade turística atraindo turistas de outros países

4. Experiências 
distintivas
Proporcionar experiências distintivas aos diferentes segmentos de mercado

5. Desenvolvimento 
de sinergias
Criar sinergias entre 
as indústrias criativas 
e o turismo, proporcionando visibilidade ao destino Madeira e à melhoria da experiência turística

6. Digitalização 
da oferta turística
Aplicar as tecnologias digitais como forma de melhorar 
a oferta turística

7. Digitalização 
dos operadores
Conseguir o aumento 
da produtividade das empresas turísticas através 
da digitalização

8. Sustentabilidade
Assegurar a sustentabilidade do património (cultural 
e natural) e dos agentes 
do turismo

9. Comunicação
Criar uma mensagem uniforme e consistente acerca do destino Madeira

10. Estrutura
Estruturar a oferta turística para aumentar as experiências do turista e incentivar o gasto turístico

11. Monitorização
Monitorizar de forma sistemática o desempenho 
e principais tendências 
do sector do turismo

12. Infraestruturas
Assegurar e incentivar 
a manutenção das infraestruturas de suporte 
aos diferentes produtos turísticos

13. Alojamento 
local
Agregar e disponibilizar 
a informação acerca 
dos alojamentos locais

14. Rentabilidade
Aumentar a rentabilidade 
do sector do turismo

15. Investimento
Aumentar as oportunidades 
de investimento para 
inovação e infraestruturas

Duas semanas, 
dois debates na Região

Nas próximas duas semanas, o Expresso vai analisar os novos desafios do turismo nas regiões autónomas, começando pela Madeira. No próximo dia 23 de novembro, quinta-feira, terá lugar um debate em parceria com a Câmara Municipal do Funchal. Na semana seguinte olharemos para os mesmos desafios nos Açores, com um encontro em São Miguel, no dia 29, quarta-feira. Os dois eventos serão transmitidos em direto através do Facebook do Expresso. Acompanhe e participe.

Textos originalmente publicados no Expresso Economia de 18 de novembro de 2017