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Empresas não estão preparadas para as mudanças no trabalho

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A robotização, a relação das novas gerações com o trabalho e a globalização laboral trazem grandes desafios para as empresas, sobretudo para as mais antigas, diz a Deloitte

Sete anos. É nesse horizonte que a consultora Deloitte vê alterações “drásticas” nos modelos de trabalho e nos próprios trabalhadores, com a entrada no mercado laboral das novas gerações. Mudanças que trazem grandes desafios para as empresas, em particular “às mais antigas — que tendem a ser as maiores — que têm de se adaptar à nova realidade. E ainda não estão preparadas, mas já estão preocupadas”, destaca Sérgio Lee, sócio da Deloitte. Desafios a que não escapam as “500 Maiores & Melhores Empresas em Portugal”, uma iniciativa da revista “Exame”, em parceria com a Deloitte e a Informa D&B, que distingue as maiores e melhores empresas do país (cuja edição de 2017 estará nas bancas no início de dezembro).

O tema é urgente. “As mudanças já estão a acontecer e de forma abruta”, alerta Sérgio Lee. Em que sentido? A Deloitte identifica três transformações estruturais na forma como o trabalho se vai desenrolar na próxima década, a que as companhias têm de conseguir responder. A primeira é a globalização cada vez mais intensa do mercado laboral. “A globalização económica em conjunto com o desenvolvimento das tecnologias de conectividade significam que se pode trabalhar a partir de qualquer lugar no mundo”, nota Sérgio Lee, frisando que “caminhamos para um mercado de trabalho sem restrições geográficas”.

Olha o robô

Neste contexto, “as empresas terão de ser capazes de conseguir atrair pessoas que não se limitem às que estão mais perto”, diz o consultor. E, aqui, “as marcas assumem grande importância”, salienta. Ao mesmo tempo, as companhias têm de “ter os fluxos de trabalho preparados para integrar pessoas que não estão geograficamente próximas”, acrescenta. Temas como trabalho em rede com outras geografias, conexão remota e espaços de trabalho sem papel, alavancados em tecnologias de comunicação serão cruciais na organização do trabalho nos próximos anos, considera a Deloitte.

A segunda grande transformação é o reforço da automação e a robotização. Na Web Summit, realizada em Lisboa no início de novembro, a robô “Sophia” deixou o aviso: “Nós não vamos destruir o mundo, mas vamos ficar com os vossos empregos.” Não é uma ameaça vã. No estudo “Technology at Work v2.0: The Future Is Not What It Used To Be” (2016), os investigadores Carl Benedikt Frey, Michael Osborne e Craig Holmes, da Universidade de Oxford, em conjunto com uma equipa do Citibank, concluem que nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) — de que Portugal faz parte — em média 57% dos empregos são vulneráveis à automação. E este número sobe até aos 69% na Índia e 77% na China.

“A forma como muitas empresas introduzem a robotização nos processos de trabalho é uma substituição pura do homem pela máquina”, nota Sérgio Lee, considerando que este modelo resulta apenas numa redução de custos e é uma “subotimização”. E continua: “O grande desafio para as empresas é como utilizar a combinação homem/máquina para potenciar o seu desempenho.” Para isso é preciso “planeamento estratégico da força de trabalho humana, programando desde já a necessária reconversão das pessoas quando as valências das máquinas se sobrepõem”.

Por fim, a terceira mudança resulta da integração das novas gerações no mercado laboral. Gerações que “têm uma relação com o trabalho muito diferente”, alerta Sérgio Lee. E aponta um exemplo: os millennials — geração das pessoas que atingiram a maioridade a partir do ano 2000 — “já não querem empregos para a vida. Ligam-se e desligam-se das organizações com muito mais facilidade. E as empresas vão ter de saber lidar com isso”. O estudo “Millennial Survey” de 2016 da Deloitte, realizado a nível mundial, indica que 44% destes profissionais pretendem sair das empresas onde estão num prazo de dois anos. Em Portugal, o estudo “Millennials@work: expectativas sobre as empresas e lideranças em Portugal”, desenvolvido pela BCSD, Deloitte Portugal e Sonae, apurou que 50% dos cerca de 2000 millennials inquiridos esperam sair da organização onde trabalham nos próximos cinco anos e apenas 29% pensa mficar mais do que cinco anos na atual organização. Ora, “como se consegue disseminar cultura organizacional e os valores da instituição quando as pessoas não têm ligação à empresa?”, interroga Sérgio Lee. “Este é, provavelmente, o maior desafio que as empresas enfrentam para os próximos anos”, constata. E para o qual “ainda não há resposta”, reconhece Sérgio Lee. Mas, “selecionar à partida as pessoas que já têm a cultura e os valores que a organização quer, pode ajudar”, remata.