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Cibersegurança não é sexy para as mulheres

O desconhecimento das carreiras de cibersegurança afasta as mulheres do sector

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Só 11% das vagas na área da cibersegurança são atualmente ocupadas por mulheres

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Antes dos 16 anos, a maioria das mulheres na Europa, Israel e Estados Unidos já decidiu colocar de lado uma eventual carreira na área da cibersegurança. A conclusão resulta de um estudo da Kaspersky, a especialista russa em sistemas de segurança e membro da Coligação para o Emprego e Competências Digitais da Comissão Europeia, que refere que no momento de decidir o futuro e as suas opções de carreira (entre os 15 e os 16 anos), só 36% das mulheres escolhem profissões na área da Matemática e só 7% têm como opção a área das Tecnologias de Informação.

Até 2022, mais de 1,8 milhões de especialistas em cibersegurança estarão em falta nas empresas mundiais, segundo o Global Information Security Workforce Study (GISWS), da consultora Frost & Sullivan. O Centro para Educação e Cibersegurança da empresa de análises de mercado ISC aprofundou a questão e concluiu que a carência de profissionais será agravada pelo desinteresse das mulheres por carreiras nesta área. As oportunidades de emprego somam-se a nível global, mas só 11% das vagas na área da cibersegurança são atualmente ocupadas por mulheres. O que é que as afasta de uma carreira nesta área? Para a Kaspersky, a questão está longe de se resumir à maior ou menor apetência pelas áreas tecnológicas, ainda que ela também seja uma realidade estatisticamente comprovada.

Num estudo que inquiriu mais de quatro mil jovens estudantes (rapazes e raparigas) em países como o Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Espanha, Israel e Holanda (agora divulgado), a firma especialista em sistemas de segurança revela que, ironicamente, é a escassez de mulheres nas tecnologias que está a afastar as futuras profissionais desta área. A falta de líderes femininas nesta área leva as jovens a interiorizar a ideia de que esta não é uma carreira para mulheres. Um círculo vicioso que poderá ter um custo elevado a curto prazo. “Fazemos parte de um sector enérgico e em rápido crescimento, mas a verdade é que existem poucas mulheres nesta área”, explica Alfonso Ramirez, diretor-geral da Kaspersky Lab Iberia que reconhece que “as jovens mulheres não veem a cibersegurança como uma opção de carreira viável ou atrativa, e estão decididas a escolher diferentes opções numa idade muito jovem, o que dificulta a tarefa de as convencer do contrário”.

Contrariar o mercado

Por regra, e segundo o estudo, aos 16 anos já 72% dos jovens escolheram as suas opções de carreira. O sexo masculino está mais próximo das áreas tecnológicas do que o feminino. “Um terço das mulheres acredita que os profissionais de cibersegurança são geeks e um quarto pensa que são nerds, o que contribui para que 78% das jovens nunca tenham considerado uma carreira em cibersegurança”, explica o líder.

Entre os diversos especialistas do sector o problema é reconhecido, mas nem sempre é consensual a melhor forma de inverter esta tendência e mudar a estatística. Por diversas vezes, Stuart Madnick, professor de Tecnologias de Informação e Engenharia de Sistemas da reputada MIT Sloan School of Management, tem usado o argumento de que atrair as mulheres para as carreiras da área tecnológica ou, especificamente, para a área da cibersegurança é em primeira instância “um desafio de comunicação” e não uma questão de competências. O que não significa que o desconhecimento em relação às competências mais valorizadas para carreiras nesta área não possa afastar as mulheres da profissão.

Alfonso Ramirez reconhece que existe um “problema de perceção” em torno das carreiras na área de cibersegurança que, associado à idade em que as decisões de futuro profissional são tomadas, constitui um entrave à captação de jovens para esta indústria. “Ajudar as mulheres a desenvolver os conhecimentos necessários ao nível da qualificação irá certamente ter um papel importante para ultrapassar as barreiras de entrada nesta área”, refere reconhecendo, contudo, que “a imagem da indústria como um todo também deve mudar, tal como a forma como são promovidas as carreiras”.

“Muitos indivíduos têm a ideia errada de que a cibersegurança é um trabalho muito técnico que obriga a fortes conhecimentos de código. Apesar de ser verdade para alguns trabalhos, as ameaças de cibersegurança ocorrem muitas vezes devido a deficiências na cultura e a procedimentos nas organizações e as soft skills podem ser tão — ou às vezes mais — importantes do que os conhecimentos técnicos para marcar a diferença numa organização”, explica Stuart Madnick. Desmistificar as funções e carreiras associadas à área da cibersegurança é um passo importante na missão de alcançar a paridade de géneros. Tanto mais que à luz das conclusões do relatório, 42% das jovens consideram determinante ter um exemplo do seu género a seguir, e metade das mulheres admite preferir trabalhar em ambientes com igual número de homens e mulheres.