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Draghi: "Os críticos são uma minoria resguardada do escrutínio internacional"

ARMANDO BABANI / EPA

O presidente do Banco Central Europeu foi esta terça-feira particularmente duro com os media “localistas” que repetem ataques à política monetária expansionista com argumentos que estão “distantes da realidade”. Mario Draghi foi um dos quatro banqueiros centrais que participaram num painel em Frankfurt organizado pelo BCE, esta manhã

Jorge Nascimento Rodrigues

Os críticos mais vocais do Banco Central Europeu (BCE) são uma minoria e resguardam-se do escrutínio internacional, disse Mario Draghi, o presidente do banco, no decurso de um painel sobre estratégia de comunicação dos bancos centrais esta terça-feira em Frankfurt.

Draghi foi particularmente duro com estes críticos da política monetária expansionista no evento organizado pelo próprio BCE, e que contou no painel com os outros três mais importantes banqueiros centrais, os governadores do Banco do Japão (BoJ) e do Banco de Inglaterra (BoE) e a presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed).

Respondendo ao moderador, o italiano acusou os media que veiculam as críticas como “localistas”, repetindo na língua local argumentos “distantes da realidade”, e blindando-se do “escrutínio internacional”. No Twitter, os analistas interpretaram a dureza de Draghi como dirigida a vários media alemães (campeões da crítica à política expansionista) e italianos (muito críticos da supervisão bancária).

Já no período de perguntas por parte da audiência, Draghi voltou a ser muito direto: “Temos um mandato sobre a inflação. Não estamos aqui para garantir a lucratividade do sector bancário. Se a política monetária tiver sucesso provocará uma melhoria da conjuntura, benéfica para todos”. Adiantou inclusive que, apesar da taxa de remuneração negativa dos depósitos dos bancos comerciais nos cofres de Frankfurt, a lucratividade média do sector subiu.

O debate que reuniu os quatro banqueiros centrais esta manhã centrou-se nos benefícios das estratégias de comunicação que, entretanto, aqueles quatro bancos adotaram no sentido de serem mais transparentes para os cidadãos – ponto muito acentuado pelo governador Mark Carney do BoE, que enfrenta uma situação particularmente difícil com o processo de Brexit – e para os mercados financeiros. Apesar de estes últimos, muitas vezes, entenderem, à sua maneira, as decisões, sempre muito pressionados para saberem exatamente que passos vão ser dados. Carney sublinhou inclusive o esforço do banco britânico para simplificar a comunicação da política de modo a ser entendida diretamente pelas empresas e pelas famílias, pelos agentes no terreno, "pelo shop floor", pois isso afeta melhor os seus comportamentos.

Draghi considerou que “a orientação futura” que o BCE transmite tornou-se um “instrumento de pleno direito da política monetária”. Começou por ser, em meados de 2013, uma forma de salvaguardar a zona euro contra os impactos da decisão da Fed em anunciar o fim do programa de compra de ativos nos Estados Unidos. Para se tornar, depois, um instrumento fundamental do próprio programa de compra de ativos na zona euro e da interação entre este e as taxas diretoras de juros.

A presidente da Fed sublinhou que nos EUA a equipa que define a política monetária tem sido muito cuidadosa na comunicação no sentido de fazer notar que os passos futuros estão sempre “condicionados” pelos dados da conjuntura. “Os participantes no mercado querem sempre ter tudo mais concretizado do que o banco central pode dar”, sublinhou Janet Yellen, que vai ser substituída em fevereiro do próximo ano por um colega da Fed já escolhido por Donald Trump.

Yellen achou, também, benéfico que o público entenda que o comité de política tem discordâncias, pontos de vista e projeções distintas. Frisou que na Fed combatem o “pensamento de grupo” e pretendem ter debates baseados na diversidade. O governador do BoJ, Haruhiko Kuroda, destacou inclusive que os comunicados das decisões referem nominalmente as votações. “Somos totalmente transparentes”, disse, e concluiu: “isso não tem impacto negativo”.

Carney e Yellen foram muito críticos das ‘fugas’ sobre as decisões de política monetária. “Não as toleramos. São muito disruptivas”, disse a economista que chefia a Fed.