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Digital é um dos grandes desafios dos transportes

Nicolau Santos, diretor-adjunto do Expresso, moderou 
o painel onde participaram Jorge Gonçalves, diretor comercial da BP Portugal; Luís Teixeira, diretor-geral 
da Farfetch, Vicente Pedro Nunes, diretor financeiro 
da Riberalves; Ana Paula Raposo, subdiretora-geral da Autoridade Tributária 
e Aduaneira; 
e Paulo Paiva, presidente 
da Apat

José Caria

Os transitários reuniram-se na sexta-feira e hoje para debater o futuro do negócio e a necessidade de melhorar as infraestruturas

Ana Baptista

Falar do futuro do transporte de mercadorias e das empresas que o fazem, gerem e planificam (os transitários) não passa só pelos números da economia e das exportações e pela necessária melhoria das grandes e pequenas infraestruturas. Passa também por falar de tecnologia, da indústria 4.0 e da digitalização do mundo. E foi isso que a Associação dos Transitários de Portugal (Apat) fez esta sexta-feira e está a fazer ainda este sábado de manhã no seu 16º congresso, que se realiza em Lisboa, no Pavilhão Carlos Lopes.
“Se é uma verdade ancestral que não há comércio sem transportes, mais verdade é ainda que hoje nada disto existe sem tecnologias da informação. A expansão e crescimento dos mercados tornou imperativa uma adaptação às novas exigências tecnológicas e os transitários têm de abraçar estes novos desafios se quiserem corresponder às necessidades do mercado”, diz o presidente da Apat. Paulo Paiva foi um dos intervenientes do Momento Expresso, o primeiro painel desta conferência, logo na manhã de ontem, e que contou ainda com a presença do diretor comercial da BP Jorge Gonçalves, com o diretor geral da Farfetch, Luís Teixeira, com o diretor financeiro da Ribeiralves, Vicente Pedro Nunes (veja as suas visões para o sector na página ao lado), com a subdiretora-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, Ana Paula Raposo, e ainda com uma apresentação de Paulo Madruga, da EY.

Um debate onde ficou claro que a digitalização é um grande desafio mas não é o único. A melhoria das infraestruturas ferroviárias, portuárias e aeroportuárias como referiu o presidente da Apat; a “deficiência de câmaras de frio” como sublinhou o responsável da Ribeiralves; ou a “mudança de comportamento dos consumidores” como foi mencionado pelo diretor-geral da Farfetch são tudo temas que afetam os operadores transitários e logísticos e que, por isso afetam a economia nacional. Aliás, como referiu Paulo Madruga, “a logística pode ajudar-nos a olhar para a nossa estratégia de crescimento e dá a estes operadores um papel muito importante”.

Um grande desafio
A digitalização é, no entanto, um desafio e uma oportunidade. “A internet das coisas permite aos transitários saber exatamente onde está a mercadoria, a temperatura a que ela está ou se o navio teve um acidente e tudo isto em tempo real”, exemplificou ao Expresso o diretor de soluções cognitivas da IBM Portugal, António Pires dos Santos, um dos oradores da tarde. E depois há também a big data, a impressão digital, o blockchain ou a realidade virtual. De acordo com este responsável, “muitas empresas já usam estas tecnologias, mas as pequenas vão ter de começar a pensar nisso e perceber que, assim, vão melhorar o serviço”, disse. E não é um investimento de milhões: “Se tenho uma frota de camiões, tenho de saber onde está o camião, mas também como está a mercadoria e, para isso, posso colocar pequenos chips que transmitem por bluetooth a informação e há disto a preços irrisórios, às vezes um euro”, comentou. Mas o primeiro passo a dar é bem mais simples. “O fundamental é ter uma presença na internet e ser visível. Se não está lá, não existe”. E depois, pode usar uma aplicação que permita monitorizar as frotas e as mercadorias, ou seja, “ver o negócio em tempo real”.

A digitalização fez ainda com que as necessidades dos clientes se alterassem. “Há agregados mais pequenos e a necessidade de estar sempre ligado e os negócios tiveram de se adaptar a isso. Hoje é importante conhecer as jornadas dos clientes e servir as suas conveniências. O nosso posicionamento é muito suportado pela conveniência e para isso precisamos de uma componente logística complexa”, diz o responsável do Continente Online, Pedro Miguel Santos.

Segundo António Pires dos Santos há hoje muitas empresas, uma delas a própria IBM que, por exemplo, já trabalha com a Maersk (uma das maiores empresas mundiais deste sector), que podem ajudar os transitários na digitalização do seu negócio. E, repara, há até muitas startups inovadoras que o podem fazer. A Mitmynid é um exemplo. Esta empresa lançou, em setembro de 2016, uma plataforma online chamada Bizcargo que combina os clientes que querem transportar mercadorias com os operadores logísticos. Segundo o diretor executivo, Rui Barros, o Bizcargo ajuda o transitário a ganhar tempo: “Porque somos nós que selecionamos as propostas que eles recebem”, conclui. Para isso, os operadores e os clientes têm de estar registados na plataforma e dizer, respetivamente, os serviços que oferecem e o que procuram. Neste momento, “já temos mais de 100 registos, entre operadores de serviços de logística e clientes (empresas e particulares) e já foram realizadas cerca de 1000 procuras de serviços”, disse Rui Barros, outro dos oradores da tarde.

Melhorar infraestruturas
“A digitalização não assume um papel isolado nas preocupações deste sector. A diminuta competitividade dos aeroportos nacionais no departamento de carga ocupam especial destaque, seguidas da carência de execução de mais e melhores estratégias também para os portos e para a ferrovia”, comentou Paulo Paiva. Até porque estas infraestruturas são cruciais para que os transitários possam dar uma resposta adequada ao aumento do transporte de mercadorias que já se tem vindo a sentir este ano e que se espera que seja ainda maior em 2018 devido ao aumento das exportações (mais 11,5% entre janeiro e agosto de 2017).

Foi precisamente disso que falou o vice-presidente da Infraestruturas de Portugal, Carlos Fernandes, outro dos intervenientes na conferência. “Está previsto um investimento de dois mil milhões de euros até 2022 na ferrovia que terá uma componente muito forte nas mercadorias”, refere. Isso passa por ter comboios mais frequentes, mais rápidos e maiores (passar de 500 para 750 metros), por ter melhores ligações internacionais, nomeadamente a ligação aos portos, e por eletrificar as linhas, o que permite substituir os comboios a diesel por elétricos, que são mais baratos de manter e levam mais carga. O objetivo é que haja mais mercadorias a serem transportadas nos comboios em vez de nas estradas e que haja “mais condições para atrair mercadorias para os portos”. Nesse sentido, foi relevante a presença da presidente da Associação dos Portos de Portugal, Lídia Sequeira, e também de Nicolette van der Jagt, diretora-geral da Associação Europeia para o Reencaminhamento, Transporte, Logística e Alfândega (CLECAT), que falará hoje sobre os desafios dos transitários marítimos.

O que é um transitário?

A palavra diz pouco à maioria 
das pessoas, mas se lhe 
dissermos que os transitários 
são responsáveis pela planificação 
e execução do transporte internacional de mercadorias 
e, como tal, pelas exportações 
e importações, então já fica 
mais claro a importância deste sector. De acordo com um estudo que a APAT irá apresentar hoje, 
as 366 empresas a atuar em Portugal tiveram vendas de 1,8 mil milhões 
de euros em 2016, o que mostra 
bem a relevância na economia. Contudo, tal como as outras empresas portuguesas de outros sectores, também este atravessou três anos complicados. Só em 2017, com a melhoria da economia 
e com o aumento das exportações 
é que os transitários começaram 
de novo a sentir melhorias e a ter boas perspetivas para o futuro, apesar dos desafios que há pela frente, como a digitalização 
da economia e dos negócios.

Desafios que são válidos em 
Portugal e também na Europa, 
onde o sector é igualmente muito representativo da economia comunitária. Para a diretora 
geral da Associação Europeia 
para o Reencaminhamento, Transporte, Logística e Alfândega (CLECAT) a digitalização 
não pode ser visto como 
um objetivo. As empresas 
têm de a ver como um meio 
para atingir um fim, neste 
caso a criação de processos 
mais fiáveis e eficientes. Até 
porque Nicolette van der Jagt questiona se essas ferramentas 
são capazes de substituir 
a função do transitário 
e o envolvimento humano. 
Mas há outro grande desafio 
para o sector na Europa, nomeadamente nos transitários marítimos: a concentração 
de empresas. De acordo com 
dados da CLECAT, desapareceram oito dos 20 maiores operadores 
nos últimos dois anos e, 
por isso, tornou-se crucial 
que a regulação esteja mais 
atenta e monitorize essas 
fusões para que o mercado 
se mantenha competitivo.

O que representam os transitários e a logística

1,8
mil milhões de euros 
é o valor das vendas 
que as empresas 
de transitários a atuar 
em Portugal fizeram 
em 2016

366
é o número de empresas 
de transitários em Portugal, 257 das quais são associadas 
da Apat

2
mil milhões de euros 
é quanto a Infraestruturas 
de Portugal quer investir 
na ferrovia até 2022

600
milhões de euros 
é quanto custará 
o investimento 
na modernização 
da linha da Beira Alta

150
quilómetros ou 
duas horas é quanto 
o novo troço entre 
Évora e a fronteira 
permite às mercadorias 
de Sines poupar

300
mil milhões de euros 
por ano é quanto 
representa o sector 
da logística na UE, 
que emprega 7 milhões 
de europeus

3 visões sobre o sector O que é preciso fazer já?

Por Luís 
Teixeira, Diretor-geral da Farfetch​​​​​​​

O cliente como 
principal decisor 
na gestão

O mundo da logística está, hoje, a ser desafiado por um mercado cada vez mais global que os negócios de e-commerce vieram acelerar. Mas, na verdade, não são as empresas com negócios internacionais ou as que prestam serviços a toda a atividade logística subjacente a esta operação que estão a criar os maiores desafios. O principal ator nesta narrativa é o cliente. Um cliente exigente, que vive a sua experiência de compra em qualquer lugar, em dezenas de dispositivos diferentes e que, a partir do momento que faz o check out, quer usufruir do que comprou, o mais rapidamente possível e ao menor custo. O tempo é um bem de luxo, indissociável de um experiência de compra positiva. E este é o desafio não exclusivo do sector que opera toda a atividade de importação e exportação, mas também de todos os negócios de comércio online. A transição de uma visão business to business para uma visão consumer oriented é o que fará a diferença na evolução deste sector. Um conhecimento cada vez mais profundo e técnico da atividade e dos processos associado a uma digitalização da atividade através da introdução de processos digitais que possam otimizar toda a cadeia são os desafios de um sector que vê crescer o número de empresas e negócios que trazem novas exigências pela exposição global que têm. Estas empresas, que nascem digitais, esperam deste sector uma elevada capacidade de adaptação à sua operação. Uma capacidade de resposta em escala associada a uma economia de partilha. E nesta equação entra uma integração de toda a supply chain, que possa trazer informação em tempo real e agilidade para responder rapidamente a qualquer questão do cliente, em qualquer parte do mundo.


Por Jorge 
Gonçalves, Diretor comercial 
da BP Portugal

Eficácia nas 
operações

Ser eficaz com baixos custos operacionais é um dos grandes desafios do sector logístico. Um desafio que ganha particular importância quando o que está em causa é a gestão de uma frota de veículos que tanto opera dentro como ‘fora de portas’ e a necessidade de ter acesso, em real time, a informação de todas as suas viaturas, através da qual podem otimizar processos e poupar em áreas significativas da sua operação. Para que isso seja possível, aos gestores da área de logística de transportes de mercadorias já não basta ter acesso a um cartão de pagamento ou ao sinal de GPS para localizar a sua frota. Estes executivos precisam de mais. De mais ferramentas e recursos que lhes permitam gerir, ao minuto, a sua frota de forma eficaz, a baixo custo e com a máxima segurança para pessoas e bens, em Portugal ou em qualquer parte do continente europeu. Enquanto empresa atenta ao mercado e que conta com uma carteira de clientes com mais de 5000 empresas de vários sectores económicos e de todas as dimensões, a BP Portugal tem conseguido responder a estas necessidades através da antecipação de tendências e da oferta de serviços inovadores. O BP Plus é uma dessas soluções. De uma ferramenta simples para pagamento de combustível, quando foi criada, este cartão de frotas evoluiu para uma oferta integrada de serviços profissionais para apoio à gestão eficaz das frotas, que incorpora acesso a uma rede de mais de 18 mil postos de abastecimento em toda a Europa, serviços online de reporting, alertas para controlo de segurança e risco de fraude ou on road services, entre outras valências para aumentar a eficácia e segurança e reduzir os custos operacionais dos gestores de frotas.


Por Vicente 
Pedro Nunes, Diretor financeiro da Riberalves

Resolver 
a pesada burocracia

Para um país ter sucesso é fundamental ter vantagens competitivas estruturais que gerem valor e que permitam atrair investimento externo de longo prazo. Desta forma, as vantagens inerentes à localização geográfica de Portugal deveriam ser potenciadas, nomeadamente com a criação ou a ampliação de um porto de águas profundas com ligação à rede ferroviária de bitola europeia. O país devia aproveitar esta oportunidade, concedida desde logo pelo potencial que lhe advém da sua geografia, privilegiada no contacto atlântico entre Europa, América e África. Esta transformação terá um duplo impacto, porque não só irá permitir aumentar a sua capacidade logística, passando a ser uma alternativa para grandes players internacionais, mas teria igualmente impacto a nível interno, na melhoria do processo das empresas nacionais, que iriam ter mais e melhores condições para exportar os seus produtos. Importa, paralelamente, continuar a simplificar os processos administrativos das empresas para exportar e importar produtos, resolvendo definitivamente os pesados constrangimentos burocráticos e simplificando as complexas necessidades dos reguladores, que integram várias entidades independentes. É certo que alguns destes processos são gerados por requisitos de entidades externas, mas mesmo nesta vertente o país deveria fazer um esforço político para continuar a simplificar o processo administrativo, nem que para isso seja necessário aumentar a responsabilização das entidades exportadoras. 


Textos originalmente publicados no Expresso de 11 de novembro de 2017