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Falta uma estratégia global na logística e transporte de mercadorias

Nicolau Santos, diretor-adjunto do Expresso, moderou o painel onde participaram Jorge Gonçalves, diretor comercial da BP Portugal; Luís Teixeira, diretor-geral da Farfetch, Vicente Pedro Nunes, diretor financeiro da Riberalves; Ana Paula Raposo, subdiretora-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira; e Paulo Paiva, presidente da Apat

JC

O 16ª congresso da Associação dos Transitários de Portugal (Apat) arrancou esta sexta-feira com um debate onde se discutiram os principais desafios do sector. O encontro continua amanhã, sábado, com a visão internacional deste negócio

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Se tivermos que definir qual é, actualmente, o principal problema do sector da logística e do transporte de mercadorias a reposta é simples: falta uma estratégia global que permita ligar portos, ferrovia, rodovia e aeroportos aos operadores logísticos e ao consumidor final e que seja mantida pelos diferentes Governos. Esta é a visão do presidente da Associação dos Transitários de Portugal (Apat), Paulo Paiva, que considera ainda que as decisões que estão a ser tomadas agora continuam a seguir esse mesmo caminho da falta de ligação entre todo o tipo de infraestruturas.

“A construção do terminal do Barreiro não faz sentido porque do lado marítimo tem constrangimentos grandes. Não é esse terminal que vai trazer os grandes navios. Para isso precisamos de um porto de águas profundas e isso não existe no Barreiro. Não é a solução que se precisa para as nossas exportações nacionais”, disse durante o Momento Expresso, o primeiro painel da 16ª Conferência da Apat, que decorreu esta sexta-feira no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa. Mas não é o único caso. “O Aeroporto do Montijo não está a ter em conta a carga. Atualmente, 30% do valor de mercadorias movimentado mundialmente corresponde a transporte por via aérea, e se estamos a construir um aeroporto que está unicamente pensando para passageiros já é um princípio errado. Aliás, é esse princípio que existe hoje na Portela. O aeroporto de Lisboa foi evoluindo em função do aumento do número de passageiros. Não há uma visão estratégica e quem tome uma decisão séria que seja benéfica para as empresas. A carga a aérea foi sempre uma segunda preocupação e depois dizem-me que é porque o sector da carga está estagnado. Está estagnado porque não lhe dão condições para crescer”, explicou.

O diretor financeiro da Ribeiralves, Vicente Pedro Nunes, outro dos oradores deste primeiro painel, nota que, “de facto, não há um pensamento estratégico” nas infraestruturas, mas salienta que não sente isso directamente no seu negócio. “Temos um modelo de negócio peculiar. Importamos 32 mil toneladas de matéria-prima e vendemos 28 mil toneladas e o que sentimos é uma deficiência de câmaras de frio negativo, que faz com tenhamos de ir buscar esses produtos à Dinamarca ou à Holanda”, adiantou.

Para este responsável, esta é, aliás, uma oportunidade de negócio para empresas privadas, mas a melhoria das infraestruturas a nível nacional tem de ser tomada publicamente e já há alguns processos em marcha. O vice-presidente da Infraestruturas de Portugal (IP), Carlos Fernandes, e a presidente da Associação dos Portos de Portugal, Lídia Sequeira, falaram disso já no final do dia, dando exemplos de ligações e de processos digitais e informáticos que já estão a ser preparados e que vão no sentido de melhorar a conectividade entre infraestruturas e também melhorar a atividade das operadoras de transportes de de logística. É o caso do investimento de dois mil milhões de euros que a IP está a implementar na ferrovia até 2022 e que passa por intervenções, por exemplo na linha da Beira Baixa e na ligação a Espanha. E é o caso também da Janela Única Portuária que permite ter a informação digitalizada e que Lídia Sequeira espera que esteja a funcionar em todos os portos em 2021.

Mas para o director comercial da BP, Jorge Gonçalves, outro dos oradores do painel do Expresso, todas estas infraestruturas têm um outro desafio pela frente: as mudanças na energia. “Os combustíveis são muito importantes na logística porque são das áreas que exigem mais recursos financeiros e humanos. Já temos pesados a gás natural e Portugal vai ter de pensar como vai criar infraestruturas para receber isso e 90% das mercadorias que são transportadas mundialmente são por via portuária e também aqui vão haver alterações no tipo de combustível”, adiantou.

De acordo com o diretor geral da Farfetch, Luís Teixeira, todas estas melhorias são essenciais para Portugal ganhar escala e competitividade e para dar resposta ao aumento do comércio online que é, aliás, a área de actividade desta empresa, e que tem estado a crescer, não só na Farfetch, mas no mundo em geral. Porque, repara o mesmo responsável, os consumidores estão mais exigentes, principalmente no que respeita ao tempo: querem receber os produtos mais depressa, e a logística tem de acompanhar isso.

“Mais de 50% do valor acrescentado das exportações já são geradas nos serviços em vez de na indústria e o papel que a distribuição e a logística têm nisto é fundamental”, adiantou Paulo Madruga da EY, o orador principal do painel da manhã.

De facto, a digitalização da economia é outros dos grandes desafios deste sector, mas também uma oportunidade, como referiu o diretor de soluções cognitivas da IBM Portugal, António Pires dos Santos, o diretor executivo da Mitmymind, Rui Barros, e ainda o responsável do Continente Online, Pedro Miguel Santos. Uma dessas oportunidades é a possibilidade de poder monitorizar toda a actividade dos transitários de forma remota, digital e em tempo real, o que traz muitos ganhos de competitividade.

O crescimento do comércio online e a digitalização é ainda um desafio para a Autoridade Tributária e Aduaneira, como disse a subdirectora geral Ana Paula Raposo, mencionado, por exemplo, as alfândegas digitais e até toda a informatização dos processos e da informação da Autoridade Tributária e Aduaneira.

Contudo, esta digitalização do mundo e das empresas traz enormes riscos, como referiu o especialista em segurança e investigação criminal, André Inácio. Para este responsável, a esmagadora maioria dos negócios em Portugal estão em risco, mas não estão ainda preocupados com estes temas. Só que deviam. “Raptar ficheiros é muito mais fácil do que raptar pessoas e dá muito mais dinheiro e estão a acontecer quatro mil ataques destes por dia, segundo a Europol”, disse.

De facto, segundo Daniel Marques, da F.Rego, no último ano contaram-se, em todo o mundo, 47 mil milhões de ataques, 44 milhões de ficheiros infectados, 232 computadores infectados por malware e um milhão de pessoas vítimas de ataque por dia.

É por isso que, salientou André Inácio, é preciso investir a sério na prevenção destes riscos porque os custos das consequências são muito superiores.