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Conflito na Mota Ceramic abala fileira cerâmica

A unidade Adelino Duarte da Mota é uma das principais do conglomerado Mota Ceramic

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Oxy Capital tomou de assalto o conglomerado Mota Ceramic e afastou o seu sócio Carlos Mota, por suspeita de desnatar o grupo e favorecer outras empresas. O empresário diz que está a ser vítima de um fundo "abutre e parasita".

Um conflito feroz no principal conglomerado de pasta e matérias primas abala a fileira cerâmica. A Mota Ceramic Solutions vive uma guerra entre os dois acionistas, depois da Oxy Capital ter expulsado da gestão o sócio Carlos Mota a quem cabia a condução do negócio, sob a acusação de lesar o grupo a favor de sociedades concorrentes a que está ligado. No centro do escândalo estará o grupo White Minerals, fornecedor e concorrente da Mota Ceramic, gerido por dois genros de Carlos Mota.

O empresário de Pombal promete ir à luta para recuperar o grupo que fundou, admite acionar a opção de compra de que beneficia até 2018 e impugnar em tribunal a destituição “infundada e ilegal” promovida por “um fundo abutre e parasita”.

O plano da Oxy “é vender a Mota Ceramic a uma multinacional com a qual está a negociar. Mas, não nos renderemos e vamos lutar para recuperar o que é nosso”, acrescenta o industrial de uma família ligada ao negócio cerâmico há quatro gerações.

A Oxy Capital, contactada pelo Expresso sobre as suspeitas e o futuro da Mota Ceramic, não se deu ao incómodo de responder.

Assalto ao amanhecer

O conflito estalou bruscamente na primeira segunda-feira de outubro, quatro anos depois da operação financeira que evitou o colapso do grupo.

Seguranças rodeavam as instalações da Adelino Duarte da Mota, a unidade que está na génese do conglomerado.Carlos Mota e a filha Carolina foram impedidos de entrar e recebiam em mão uma carta a explicar que assembleias gerais das cinco empresas operacionais tinham aprovado a sua destituição.

Os cargos foram ocupados por gestores da Oxy. No registo comercial, surgiu logo a mudança nas administrações e Miguel Lucas, principal responsável da gestora de fundos, como presidente. A Oxy registou as atas de assembleias gerais “que não foram convocadas e das quais não tínhamos conhecimento”, diz Carolina.

As empresas são detidas pela holding Carlos Cardoso Mota (CCM) SGPS, partilhada em partes iguais pelos dois sócios. Uma equipa de auditores da Price Waterhouse e outra de de advogados da PLMJ entravam, entretanto, nas instalações.

“Não há nada que justifique tal atitude, nada a fazia prever. Nem nos foram dadas explicações”, conta Carolina Mota. É uma “decisão à revelia de todos os órgãos da CCM, nem a Oxy estava mandatada para atuar em nome da holding”. As reuniões mensais da administração “sempre decorreram em harmonia, nunca a Oxy nos transmitiu sinais de animosidade ou desconforto”, refere Carolina.

“Um autêntico assalto, segundo as leis do faroeste”, acusa Carlos Mota. O empresário chamou a GNR que terá reconhecido a atuação da Oxy como legítima.

A medida cautelar de destituição dos cargos contou com o despacho favorável do Juízo do Comércio de Leiria que reconheceu a existência de provas ou indícios fortes da prática de atos que delapidam o património da Mota Ceramic. O juiz reconhece que Carlos Mota ocultou a qualidade de acionista do grupo paralelo concorrente para o qual transferiu matérias-primas, custos, segredos de negócio e clientes. O despacho fala ainda de de recursos da empresa aplicados em benefício próprio (pagamento de viagens e obras em casa). Tais condutas "são enquadradas na jurisprudência como violação do dever de lealdade" dos administradores de uma sociedade.

A pista BES

Este é um caso pantanoso, com o BES em fundo, que mistura dinheiros públicos, suspeita de gestão danosa, prática de ilícitos e acusações mútuas de golpe. A Mota Ceramic não é um grupo qualquer. Tem uma dimensão europeia e uma posição de clara hegemonia nos segmentos da fileira cerâmica em que opera – pasta branca para porcelanas, sanitários e pavimentos e fornecimento de argila, caulino e feldspato.

Recuemos a 2013, marcado por uma recessão impiedosa que fustigou a indústria cerâmica. A troika escrutinava os bancos e ordenava a limpeza dos balanços. Após uma política de aquisições agressiva, um histórico de perdas e a cumplicidade do BES, por vezes acompanhado pela CGD, o grupo CCM ganhava músculo e uma pesada dívida de 150 milhões de euros.

Na altura, os concorrentes estranhavam a proteção do BES e quando questionavam diretores do banco ouviam como justificação de que o grupo era íntimo do círculo de poder por ter exposição a holdings financeiras como a Espírito Santo Finantial Group.

A desgraça do sector levou a CCM a acumular imparidades e faturas por receber, antes de registar uma nova adversidade. O grupo Aleluia era um outro elo que o ligava à cadeia Espírito Santo e devia-lhe 15 milhões de euros. Em 2012, transferia-se para a Prebuild que por via da Goldcer, já registava um pequeno calote.

Carlos Mota e o BES reconheceram que tinham um problema a precisar de resolução urgente. Foi aí que entrou em cena o Fundo de Reestruturação Empresarial (FRE) gerido pela Oxy Capital, numa lógica saneadora e transitória.

A CCM renegociou a dívida, o fundo comprou 99 milhões à banca, injetou 14 milhões em suprimentos e tomou 50% de um grupo que no ano anterior tinha sido avaliado pelo Banco Espírito Santo Investimentos em 300 milhões. O contrato determinava, por sugestão da Oxy, que a condução executiva ficasse nas mãos da família Mota.

Revitalizar Centro financia

Além da limpeza de dívida, (o passivo atual está nos 70 milhões),empresas da Mota Ceramic contaram com a injeção de dinheiros do Fundo Revitalizar Centro (FRC) também gerido pela Oxy. Foram mais 6 milhões de um mecanismo que financia projetos de expansão. O FRC entrou no capital de quatro sociedades, tomando posições entre 9% (Mota Pastas) e 4% (Adelino Duarte da Mota).

No fim de 2016, as empresas recompraram estas participações devido aos juros elevados (5,5%) que envolviam. A Oxy concordou mas, diz Carlos Mota, “manifestou algum desconforto pela oportunidade das operações”.

A solução para a Mota Ceramic desagradou aos concorrentes que se queixavam das práticas monopolistas e política de aviltamento de preços destinada a destruir os poucos concorrentes que sobreviviam à crise.

“Foi como que um prémio a quem levou o grupo à beira do colapso”, comenta ao Expresso um operador, que esperava que entrada da Oxy injetasse uma lufada de frescura e uma concorrência mais saudável no mercado das matérias-primas.

WhiteMinerals entra em cena

Aquando da operação da Oxy Capital, a família Mota já contava à margem da CCM SGPS com um outro fornecedor de matérias primas (Corbário – Minerais Industriais), ligada à esposa de Carlos Mota. Mas, o fator de turbulência foi a entrada em cena (2014) da WhiteMinerals SGSP, dona das empresas Sabril e Areipor.

No sector, “toda a gente sabia que era Carlos Mota que manobrava na sombra e estava a criar um outro grupo limpinho de dívidas, beneficiando das sinergias com o Oxy-Mota”, conta um industrial. A Sabril era um dos fornecedores do universo CCM. Operadores do sector foram avisando a Oxy de que se registariam desvios de materiais e promiscuidade na gestão das frotas, lesando a Mota Ceramic.

Como se defende a família Mota? “As ligação a essas empresas eram conhecidas e as relações comerciais mutuamente benéficas. A parceria com a Oxy sempre assentou numa base de confiança e transparência”, responde Carolina.

E para prevenir eventuais conflitos de interesse na gestão da central de compras, os elementos da Oxy “conheciam sempre os termos em que esses negócios se faziam e escrutinavam fornecedores alternativo que apresentassem melhores condições”. Os fornecimentos da Sabril “eram a preços muito favoráveis” à Mota Ceramic.

Carlos Mota lembra que o capital de risco é, por definição, transitório e interroga: “Qual a lógica de prejudicar o grupo que criámos e do qual temos uma opção de compra?”.

O filão lítio

O empresário nota que a Oxy Capital adotou um caráter “litigante e predador” noutras operações e cita dois fatores que podem explicar as motivações da sociedade financeira: a forte exposição da Oxy à indústria cerâmica (Aleluia, Ceramirupe, Ceriart e Mesa Ceramics) e o facto de quatro das concessões da Mota Ceramic suscitarem o apetite para a exploração de lítio, o mineral metálico usado no fabrico de baterias para eletrificação automóvel. Entretanto, a Oxy já riscou a Sabril da lista de fornecedores, optando por outro fabricante.

No fim de 2016, a CCM SGPS apresentava perdas acumuladas de 39,3 milhões de euros (34 milhões em 2015). Neste exercício deve faturar 60 milhões, exportando um quarto da produção. Espanha, Egito, Turquia (conta com uma filial) Polónia e França, são os principais mercados. Emprega 370 trabalhadores, conta com nove unidades de produção (mais de 2 milhões de toneladas de matérias-primas), três centros de investigação e explora 20 minas de argilas, caulinos, fedspatos e quartzo, localizadas nas zonas centro e norte.