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Novo presidente da FED. Um não economista que agrada aos mercados

Janet Yellen (à esquerda) termina o seu mandato à frente da FED em fevereiro. Jerome Powell (à direita) é o senhor que se segue

reuters

Jerome Powell, confirmado oficialmente esta quinta-feira como o novo presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, é o primeiro não economista a ser nomeado para a liderança do banco central norte-americano em quatro décadas. O nome é do agrado dos mercados financeiros

Continuidade na política monetária e proximidade aos mercados financeiros. Assim pode ser descrita a aposta de Donald Trump para a sucessão de Janet Yellen à frente da Reserva Federal dos Estados Unidos (FED), o banco central norte-americano. A confirmação oficial do nome de Jerome Powell – dado como certo pela imprensa internacional desta quinta-feira – foi feita pelo Presidente Trump ao início da noite desta quinta-feira, hora de Lisboa.

Depois da nomeação, o nome de Powell ainda terá de ser confirmado pelo Senado. Um processo pelo qual já passou, na medida em que o Senado ratificou o seu nome para o conselho de governadores da FED, de que fez parte por duas vezes.

Jerome (“Jay”) Powell, 64 anos, um republicano com fortes raízes no aparelho partidário e no sector financeiro, foi nomeado para o conselho de governadores da FED em 2012, pelo então Presidente Barack Obama, do Partido Democrata. E é apontado como uma garantia de continuidade da política monetária nos últimos anos nos Estados Unidos, sob a liderança de Janet Yellen, que em fevereiro de 2018 termina o seu mandato.

Uma continuidade que passará pelo início da normalização do balanço da FED, após os anos de alívio quantitativo, que passaram pela compra de mais de 3,4 biliões de euros em títulos do Tesouro norte-americano e títulos garantidos por hipotecas. Um processo anunciado pela FED há cerca de um mês. E, também, pela continuação da subida das taxas de juro diretoras nos Estados Unidos, mas, de forma muito moderada. Até porque o seu voto no conselho de governadores da FED tem estado alinhado com o consenso liderado por Janet Yellen em relação à política monetária norte-americana.

Em suma, nos mercados financeiros Powell é visto como uma garantia de que a política seguida pela FED vai manter-se acomodatícia, sem causar solavancos à economia norte-americana, que atravessa um período de crescimento sólido, com o PIB a expandir-se 3% no terceiro trimestre e com os mercados acionistas a baterem máximos históricos sucessivos.

Ao mesmo tempo, Powell é visto como muito mais favorável à desregulação no sector financeiro do que Yellen. A atual presidente da FED defendeu sempre as reformas efetuadas na sequência da crise financeira de 2008. Uma posição que agrada a Wall Street e que pode ser o factor-chave na escolha de Trump.

Powell já afirmou ser favorável a uma revisão das reformas efetuadas nessa altura, analisando quais os aspetos “redundantes” ou “ineficientes” e quais os “essenciais que devem ser protegidos até à última letra. Mas vai haver alguns ajustamentos e acho que isso é apropriado”, disse em junho, numa entrevista à CNBC.

Da advocacia ao Tesouro, passando pelo grupo Carlyle

Um advogado de formação – e não um economista, ao contrário dos presidentes da FED nas últimas quatro décadas – Powell foi subsecretário do Tesouro no tempo da administração de George H. W. Bush (quando Bush pai foi Presidente), com responsabilidade pelas políticas envolvendo as instituições financeiras e o mercado de dívida do Tesouro. Nessa altura, ajudou a investigar o escândalo Salomon Brother’s com títulos do Tesouro dos Estados Unidos – quando um operador contornou as regras dos leilões para manipular o mercado –, bem como a trazer a Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, para o capital da Salomon, na sequência desse escândalo, para evitar um choque sistémico no mundo financeiro norte-americano.

Mas foi no sector financeiro que desenvolveu a maior parte da sua carreira. Trabalhou como advogado e na banca de investimento em Nova Iorque, mas o grande destaque é o grupo Carlyle – um dos gigantes mundiais do capital de risco, com interesses desde a indústria da defesa ao imobiliário –, onde esteve entre 1997 e 2005 e foi diretor executivo. E onde, segundo a imprensa internacional, ganhou uma fortuna. A sua declaração financeira de 2016 mostrava ativos num valor de 47,3 milhões de euros.

Em Portugal, o grupo Carlyle entrou no capital da Logoplaste em 2016 e trabalhou em regime de exclusividade com a Crimson Investment Management, empresa fundada em 2008 por Carlos Moedas, ex-secretário de Estado de Pedro Passos Coelho e atual comissário europeu. Além disso, o grupo ficou conhecido por liderar um consórcio que concorreu à compra, em 2004, da participação da ENI na Galp e de que fazia parte Américo Amorim, tal como a Sonangol. Mas, o então governo de José Sócrates optou por uma solução diferente para a petrolífera portuguesa. Desde 2017, o grupo Carlyle tem uma parceria com a consultora Roland Berger para investir em Portugal.

Caminhar no fio da navalha

Powell terá pela frente a tarefa de manter o registo de Janet Yellen, com a economia em expansão há nove anos e o desemprego em mínimos de 16 anos. Uma tarefa que muitos apelidam de mais difícil do que parece à primeira vista, já que assume a liderança da FED no momento da transição da política monetária para uma linha de ação mais ‘normal’, após quase uma década de estímulos sem precedentes.

Ou seja, terá de conciliar o processo de subida dos juros de referência, com a redução do balanço da FED, sem dar origem a solavancos na economia ou em Wall Street. Um equilíbrio muito delicado. Subir os juros demasiado depressa significará penalizar o andamento da atividade económica e os mercados acionistas. Em sentido inverso, uma subida demasiado lenta pode gerar um sobreaquecimento da economia e o desenvolvimento de bolhas nos mercados financeiros. É o que se chama caminhar no fio da navalha.