Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Caixa entrega Vale do Lobo à ECS

Negócio avaliado em €300 milhões deve ser apresentado em breve. Para trás fica proposta em cash de quase €200 milhões. Banco de Portugal está a analisar a situação

O ditado popular diz que quem nasce torto tarde ou nunca se endireita. E Vale do Lobo parece sofrer desse mal. Há muito envolto em polémicas o empreendimento de luxo no Algarve caminha para mais uma.

A Caixa deverá anunciar em breve a sua entrega ao fundo de reestruturação ECS liderado por António de Sousa (ex-presidente do banco público e Fernando Esmeraldo). O negócio estará avaliado em quase €300 milhões mas na CGD não deverá entrar qualquer dinheiro. Será feito com troca por unidades de participação no Fundo Recuperação Turismo — da ECS — e que já tem ativos de quase mil milhões neste sector. Contactada, a CGD não comenta estas informações obtidas, nem a ECS, mas o Expresso sabe que o fundo terá já negociado uma linha de crédito de €10 milhões para investir no desenvolvimento de Vale do Lobo.

A confirmar-se o negócio, a Caixa, que foi recapitalizada em quase €5 mil milhões para resolver os casos complicados do seu balanço, envereda pelo mesmo caminho escolhido por muitos bancos nos últimos anos. Ou seja, empurrar o problema para baixo do tapete (um qualquer fundo de reestruturação que cobra uma comissão de gestão) esperando que o tempo resolva. O Banco de Portugal não aconselha este tipo de operações, preferindo aquelas em que está envolvida a entrada de dinheiro. E é por isso que o Expresso sabe que o supervisor já está a analisar de perto este caso depois de ter sido alertado para a operação. Contactado, o Banco de Portugal não comenta.

De fora ficou outra proposta de quase 200 milhões de euros em dinheiro por 25% do capital de Vale do Lobo mais o crédito garantido pelo restante capital. Este valor seria pago em três prestações garantidas, e portanto sem risco, tal como foi exigido pela própria Caixa ao longo de mais de um ano de negociações. Caso fosse pago à cabeça o valor do negócio seria consideravelmente superior mas, mesmo assim, segundo a investigação do Expresso conseguiu apurar, seria sempre superior a €100 milhões. O acordo de venda deste fundo foi fechado durante a administração de António Domingues. No dia de Natal do ano passado, Pedro Leitão, administrador da CGD, deu o seu sim ao negócio, o primeiro passo para encerrar um processo de venda que durante vários anos teve três concursos e mais de 90 propostas de interesse. Contactado, o ex-administrador da Caixa não se quis pronunciar sobre o assunto.

O investidor estrangeiro que queria comprar Vale do Lobo negociou ainda com o BCP que tem também créditos junto do empreendimento no valor de €70 milhões. Também aqui e apesar de terem existido negociações, o negócio acabou por não ser fechado por estarem a ser negociadas outras alternativas, apurou o Expresso junto de fonte do BCP. Outra fonte próxima do negócio garantiu ao Expresso que o banco de Nuno Amado teria já concordado com a venda ao fundo estrangeiro.

A proposta deste fundo incluía ainda um upside para a CGD caso o negócio de Vale do Lobo tivesse um melhor comportamento do que o esperado pelo comprador nas avaliações que foram feitas. O investidor terá ainda garantido à Caixa que tinha €100 milhões para investir no desenvolvimento do empreendimento. O Expresso falou com a administração de Vale do Lobo e com acionistas do empreendimento que não quiseram pronunciar-se sobre este negócio.

Que sina esta

Se existe uma proposta em dinheiro que poderá atingir quase €200 milhões, porque prefere a banca entregar a um fundo de reestruturação o empreendimento contra unidades de participação? A resposta poderá estar na avaliação que é feita do ativo. É que Vale do Lobo está avaliado pela consultora imobiliária CBRE por €400 milhões. Avaliação que é posta em causa por vários interessados por ser uma fotografia do empreendimento num único momento, sem ter em conta os cash flows futuros. Contudo, é este valor que está inscrito no balanço da CGD, pelo que uma venda por €200 milhões, mesmo que em dinheiro, terá um impacto maior nas contas no imediato, do que um parqueamento num fundo por €300 milhões.

Curioso é que apesar de o negócio estar a ser fechado pela ECS, esta ainda não fez qualquer due diligence, segundo apurou o Expresso junto de fonte próxima do processo. Com a entrega à ECS, Vale do Lobo vai engrossar um lote avultado de ativos na aérea do turismo que a gestora já tem e pelos quais recebe de vários bancos comissões de gestão. O objetivo é a sua reestruturação e posterior venda mas até agora e apesar do boom no turismo, apenas foram vendidos quatro hotéis (um em Cascais, dois na Madeira e um em Lisboa que terão permitido um encaixe de €90 milhões).

Vale do Lobo foi comprado em 2006 por €230 milhões de euros. O crédito junto do banco público atingiu os €300 milhões, mas ao longo dos anos a CGD terá recebido já quase de €100 milhões pela venda de lotes e juros pagos pelo empreendimento de luxo no Algarve.