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FMI otimista revê crescimento mundial em alta, mas avisa para o aumento da desigualdade

Yuri Gripas / Reuters

PIB mundial vai crescer 3,6% em 2017 e 3,7% em 2018, mais do que na média dos cinco anos anteriores. O comércio internacional vai crescer 4% ou mais ao ano, o que já não se verificava desde 2011. Uma janela de oportunidade diz Maurice Obstfeld, o economista-chefe do Fundo, na apresentação do World Economic Outlook esta terça-feira, em Washington

Jorge Nascimento Rodrigues

“A melhoria do crescimento [económico mundial] projetada no World Economic Outlook (WEO) de abril está a fortalecer-se. A previsão para o crescimento global em 2017 e 2018 – 3,6% e 3,7% respetivamente – está uma décima acima do avançado nas projeções de abril e de julho”, anunciou esta terça-feira Maurice Obstfeld, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), na apresentação da nova edição do WEO para a Assembleia geral da organização que vai decorrer até domingo.

Esta reunião do FMI em outubro é o momento mais alto da atividade anual da organização liderada por Christine Lagarde e a edição do WEO é o documento mais importante de previsões macroeconómicas, de avisos dos principais riscos e de recomendações de políticas.

A revisão em alta significa mais 160 mil milhões de dólares (cerca de €134 mil milhões) no conjunto dos dois anos, como se se adicionasse ao produto global o equivalente a três quartos da economia portuguesa.

Esta revisão em alta significa que se inverteu a desaceleração da economia mundial que se observava desde 2012 e que registou a taxa de crescimento mais baixa dos últimos cinco anos em 2016, revista, agora, de 3,1% para 3,2%.

Crescimento em trajetória ascendente

Com projeções de crescimento de 3,6% e 3,7% em 2017 e 2018, a economia mundial vai crescer mais do que a média de 3,4% nos últimos cinco anos. O Fundo confirma, ainda, que o crescimento não vai abrandar em 2018. A conjuntura mundial vai continuar a estar em trajetória ascendente. São boas notícias.

Sendo uma das bandeiras do FMI a defesa do comércio mundial e a condenação do protecionismo, a revisão em alta do crescimento do comércio mundial (em volume) para 2017 e 2018 é outra das componentes do otimismo do Fundo.

O comércio mundial abrandou desde 2012 e atingiu a taxa anual de crescimento mais baixa dos últimos cinco anos em 2016, descendo para 2,4%. O WEO aponta, agora, para um crescimento das trocas globais de 4,2% em 2017 e 4% em 2018, uma dinâmica que já não se observava desde 2011. Apesar do abrandamento ligeiro no próximo ano, é uma boa perspetiva para as economias exportadoras.

Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, já tinha dado o tom otimista na semana passada numa conferência na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, quando antecipou que o crescimento mundial seria revisto em alta nas previsões a apresentar neste WEO.

Desenvolvidos e grandes emergentes puxam pela economia mundial

A melhoria da dinâmica da taxa de crescimento em 2017 e 2018 deveu-se à revisão em alta de algumas projeções para grandes economias e grupos de economias, com destaque para as economias desenvolvidas e três dos BRIC.

Nas grandes economias do mundo, os técnicos do Fundo fizeram as maiores revisões em alta para o Canadá (mais meio ponto em 2017 e mais duas décimas no ano seguinte), Brasil (mais duas décimas e seis décimas respetivamente), Rússia (mais quatro décimas e duas décimas), Zona Euro (mais duas décimas em cada um dos dois anos) e, finalmente, Estados Unidos e Japão (mais três décimas no agregado dos dois anos).

Ainda que a China tenha tido revisões em alta mais modestas, de apenas uma décima em cada um dos dois anos, a sua taxa de crescimento deverá acelerar em 2017, situando-se em 6,8%, próximo do crescimento de 2015, e só regressando a um abrandamento no ano seguinte, descendo para 6,5%.

Recorde-se, no entanto, que em relação às previsões de abril, os EUA viram um corte de uma décima no crescimento em 2017 e de duas décimas no ano seguinte. A expectativa sobre o efeito acelerador da Administração Trump esfriou-se, ainda que Lagarde tenha sublinhado, na recente conferência em Harvard, que os EUA poderão vir a crescer acima da tendência.

Emergentes europeus em destaque

As duas grandes economias com as taxas de crescimento mais elevado continuam a ser a China e a Índia, com 6,8% e 6,7% respetivamente, em 2017. A Índia voltará a passar à frente da China no próximo ano regressando a crescimentos acima de 7%. Estas duas economias representam 40% do PIB mundial.

O grupo das economias emergentes e de fronteira da Europa (que abrange os países da antiga Europa de Leste, que se integraram na União Europeia ou não) registou a mais elevada revisão em alta. A taxa de crescimento subiu 1 ponto percentual para 2017 e três décimas para 2018. Estas economias deverão crescer no conjunto 4,5% este ano e 3,5% no ano seguinte, o grupo de maior crescimento anual logo a seguir aos emergentes e em desenvolvimento da Ásia, onde pontificam os líderes do crescimento mundial, China, Índia e ainda cinco economias emergentes e de fronteira - Filipinas, Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietname - pertencentes ao grupo da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, no acrónimo em inglês).

O WEO confirma, também, a revisão em baixa do crescimento de três grandes economias, a África do Sul, Arábia Saudita e Índia.

Janela de oportunidade nestes dois anos

Maurice Obstfeld sublinhou na sua apresentação desta edição do WEO que esta conjuntura otimista é uma janela de oportunidade para “completar uma recuperação ainda incompleta”. O economista-chefe do FMI fala de dois problemas graves que subsistem no mundo.

O primeiro é uma fratura interna. Apesar da retoma económica, os salários nominais e reais permanecem baixos. A desigualdade nos rendimentos e na distribuição da riqueza em cada país aumentou e tem alimentado, politicamente, “o desencanto e o ceticismo em relação aos ganhos da globalização”. Gera um dos riscos políticos transversais colocando a retoma em curso em risco. O segundo é a tendência para o crescimento do Produto Interno Bruto per capita, a riqueza média por cada um dos cidadãos do mundo, estar em desaceleração à escala mundial e em cada um dos grandes grupos de economias.

Por isso, aproveitar o otimismo da recuperação em curso é essencial para ajustar situações. Os países com espaço orçamental devem investir em infraestruturas e educação. As economias sobreendividadas (na qual se inclui Portugal) devem aproveitar o momento para uma consolidação orçamental gradual e prevenirem-se com almofadas para enfrentar uma próxima crise. Todas as economias devem investir contra o desemprego, em particular o jovem. A política monetária deve proceder a uma ‘normalização suave’ na redução e descontinuação dos estímulos. As economias emergentes e em desenvolvimento poderão usar a flexibilidade cambial. E, acima de tudo, diz o economista-chefe do FMI, é necessário combater o protecionismo e reforçar a ação multilateral, particularmente na questão do ambiente.