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Richard Thaler: “Somos mais parecidos com Homer Simpson do que com Einstein”

Richard Thaler, vencedor do prémio nobel da Economia

Reuters

Numa entrevista à revista “Exame”, em novembro de 2009 e que aqui se republica, Richard Thaler, premiado esta manhã com o Nobel de Economia de 2017, defendia que, muitas vezes, tudo o que as pessoas precisam para tomar as melhores decisões para si próprias, as suas famílias e a sociedade em geral, é de um pequeno “nudge”

As pessoas têm de tomar inúmeras decisões, todos os dias. E, muitas vezes, fazem más escolhas. Tudo porque os seres humanos são criaturas imperfeitas.

Esta foi a premissa-base de que partiram Richard Thaler, professor de Economia e Ciência Comportamental, na Universidade de Chicago, e Cass R. Sunstein, professor de Direito, na mesma universidade e hoje diretor do Gabinete de Informação e Regulação de Mercados da Casa Branca, para escrever "Nudge Improving Decisions About Health, Wealth, and Happiness".

A obra, editada em Portugal pela Academia do Livro com o título "Nudge –Como Melhorar as Decisões Sobre Saúde, Dinheiro e Felicidade", foi um sucesso junto da crítica e do público. Steve D. Levitt, economista e coautor de Freakonomics, foi um leitor entusiasta: "Adoro este livro. É das poucas obras que li nos últimos tempos que mudou, de forma fundamental, a maneira como penso sobre o mundo."

"Nudge" foi também fonte de inspiração para o antigo Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que durante anos foi colega dos autores na Universidade de Chicago.

Porque é que "Nudge" é tão marcante? O livro mostra que percebendo a forma como as pessoas pensam, é possível desenhar ambientes de escolha que tornam mais fácil para elas tomarem as melhores decisões para si próprias, as suas famílias e a sociedade em geral. Tudo isto com uma escrita divertida e acessível ao grande público, e utilizando inúmeros exemplos do mundo real. Afinal, muitas vezes, tudo o que as pessoas precisam é de um pequeno nudge, expressão que em português pode ser traduzida como estímulo, empurrãozinho ou toque.

Richard Thaler um dos "pais" da economia comportamental, que integra investigação na área da psicologia com a teoria económica explica em entrevista à "Exame" as ideias por trás de "Nudge". E afirma: "Tenho consciência de que é possível utilizar os princípios de nudging para enganar as pessoas, ou fazer batota. Não inventámos o conceito. Por isso, quando autografo exemplares do livro escrevo sempre: 'Nudge para o bem!' Espero que seja isso que as pessoas façam."

Porque é que escreveu "Nudge", em parceria com Cass Sunstein?
Faço investigação no campo da economia comportamental há 30 anos, mas tenho, no essencial, escrito para uma audiência de economistas profissionais. Quis tentar alcançar um público mais vasto, tanto de não académicos, como de pessoas cuja língua-mãe não é o inglês.

Qual é a principal mensagem do livro?
Começamos com a premissa da economia comportamental que é, simplesmente, os seres humanos são criaturas imperfeitas.
Não somos infinitamente inteligentes, nem possuímos um autodomínio perfeito. Somos mais parecidos com Homer Simpson do que com Albert Einstein. Estas observações parecem óbvias, mas a economia tradicional não incorporou estes factos. Depois, perguntamos como é que podemos tornar o mundo num lugar mais fácil para as pessoas reais viverem.

O que é que a economia comportamental pode ensinar a qualquer pessoa que leia o livro?
Estudando a forma como as pessoas cometem erros, podemos todos ver-nos a nós próprios a cometer esses mesmos erros e, deste modo, podemos aprender a ser melhores decisores.

"Nudge" utiliza exemplos tão díspares como urinóis das casas de banho dos homens, refeitórios escolares, planos de poupança para a reforma, doação de órgãos e casamentos. A economia comportamental tem ensinamentos para todas as áreas da vida humana?
Sim. Já houve pessoas a dizer-me que estavam a usar as ideias de Nudge para lidarem com os seus filhos, ou no seu emprego.
Os princípios são gerais.

Como chegou a exemplos tão diversos?
Como disse, faço investigação nesta área há 30 anos, por isso recolhi inúmeros exemplos. Além disso, sei pela minha experiência de muitos anos de ensino que as pessoas aprendem melhor a partir de exemplos da vida real.

O livro salienta que, todos os dias, tomamos muitas decisões e, infelizmente, muitas vezes escolhemos mal. Porque é que isto acontece?
Um dos maiores problemas dos seres humanos é que não podemos aprender, não conseguimos evoluir, se não recebemos feedback, e muitas das decisões mais importantes da vida acontecem raramente. Compramos uma casa apenas algumas vezes na vida. E, a maioria de nós, casa-se apenas uma vez ou duas. Mesmo os problemas menores tornaram-se mais complicados ao longo do tempo. Quando eu era miúdo havia apenas um tipo de telefone e era preto. Agora, quase é necessário um MBA para escolher um tarifário da rede móvel, e não nos podemos dar ao luxo de gastar todo o nosso tempo a tomar decisões.

Referiu que uma das principais falhas da teoria económica tradicional é assumir que as pessoas fazem sempre escolhas racionais e completamente informadas, quando a realidade não é assim. Quais são as implicações para a regulação e as políticas públicas?
O objetivo deve ser criar ambientes em que seja mais fácil para pessoas ocupadas e pouco sofisticadas fazerem escolhas sensatas, sem recorrerem a proibições e mandatos.

O livro mostra isso, que é possível desenhar ambientes que tornam mais fácil para as pessoas fazerem boas escolhas, através daquilo que designa por arquitetura da escolha. Como é que isto pode ser feito? Utiliza a ideia de paternalismo libertário.
Um arquiteto da escolha é qualquer pessoa que desenha o ambiente em que fazemos escolhas. No livro ilustramos a ideia com o exemplo de um refeitório escolar, cujos responsáveis descobrem que a ordem de apresentação da comida influencia o que as crianças comem. Que utilização deve ser feita desta informação? Se acha que a direção da escola deve tentar que as crianças comam de forma mais saudável, por exemplo, colocando a fruta num local mais proeminente do que os doces, então é um paternalista libertário.

O que é que isso significa de facto?
Significa que se quer manter a liberdade para fazer opções e também ajudar as pessoas a fazerem boas escolhas.

Pode dar alguns exemplos?
Um exemplo é a escolha de opções por defeito. A maioria dos planos de poupança para a reforma nas empresas são sistemas opt-in, ou seja, uma pessoa tem de tomar a iniciativa de aderir, preencher alguns formulários e fazer algumas escolhas. Resultado: muitas nunca o fazem. Por isso, algumas companhias adotaram a "inscrição automática", tornando estes planos em sistemas opt-out, ou seja, a adesão acontece por defeito, e quem não quiser ser abrangido tem de o manifestar. Nesta modalidade quase toda a gente adere de imediato.

Quais são os princípios fundamentais por trás da arquitetura da escolha?
A escolha de opções por defeito é um deles. Dois outros são esperar o erro - errar é humano - e dar feedback às pessoas.

E, que regras deve seguir?
É importante que o arquiteto da escolha recorra a especialistas que o ajudem a determinar o que são boas escolhas. O arquiteto da escolha não precisa de ser especialista em nutrição, finanças, ou qualquer outra área, mas há especialistas cujo conhecimento pode ser utilizado.

A crise financeira trouxe a economia comportamental para a luz da ribalta, porque na sua base estiveram más decisões e tomada de risco. Como é que Nudge pode ajudar a melhorar o funcionamento do sistema financeiro e prevenir novas crises como esta?
Nudge pode ajudar de muitas formas. Larry Summers (director do National Economic Council, nos Estados Unidos, e um dos conselheiros do Presidente Barack Obama) afirmou num discurso recente: "A experiência sugere que ao invés de tentar aperfeiçoar o julgamento humano, as políticas públicas podem ser melhor sucedidas tornando as imperfeições inevitáveis menos onerosas." Esta é, exatamente, a mensagem de Nudge.

TRADUTOR SIMULTÂNEO

Arquiteto e arquitetura da escolha e paternalismo libertário são algumas expressões do glossário de "Nudge"

Arquiteto da escolha: Pessoa responsável por organizar a forma como as outras tomam decisões. Os arquitetos da escolha reconhecem que o desenho neutral é impossível, e mesmo decisões aparentemente arbitrárias como a localização das casas de banho num edifício têm muita importância. E não apenas na área económica. Um médico que descreve tratamentos alternativos a um doente é um exemplo.

Arquitetura da escolha: Estrutura desenhada por um arquiteto da escolha para melhorar a qualidade das decisões feitas pelas pessoas. Muitas vezes (quase) invisível, é a forma específica, amiga do utilizador, de uma política organizacional ou pública, ou de uma estrutura física (como um edifício).

Homo economicus: Uma pessoa, segundo a teoria económica tradicional. Alguém que, quando tem de tomar uma decisão, pensa em todas as opções disponíveis, e faz sempre uma grande escolha. O homo economicus tem a capacidade mental de Albert Einstein e o autocontrolo de Mahatma Gandhi.

Homo sapiens: Qualquer pessoa.

Paternalismo libertário: Tipo de paternalismo suave e não intrusivo, em que as escolhas não são bloqueadas, vedadas, ou sobrecarregadas de forma significativa. É uma abordagem filosófica à governação, pública ou privada, para ajudar as pessoas que querem fazer escolhas que melhorem as suas vidas, sem infringir na liberdade de todas as outras.

Nudges: Ferramentas de escolha para paternalistas libertários e arquitetos da escolha. A escolha de opções por defeito e os incentivos (baseados no mercado ou criados socialmente) são dois exemplos.