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Afinal, o que se passa com as low cost?

Companhia aérea britânica deixou de operar e cancelou todos os voos

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A Monarch faliu, a Air Berlin declarou insolvência e a Ryanair continua a suspender voos. O modelo de negócio das companhias aéreas de baixo custo precisa de ser revisto

Em pouco mais de um mês, três companhias aéreas de baixo custo (low cost) deram sinais de fragilidade. A irlandesa Ryanair está em mãos com um processo de redução da oferta, a britânica Monarch fechou portas na segunda-feira e a Air Berlin declarou insolvência em agosto. O que se passa com as low cost? O modelo de baixo custo já não funciona?

Para Luís Carmo Costa, da consultora de turismo Neoturis, é notório que o modelo está a precisar de uma revisão. “É preciso acabar com os bilhetes de avião a 10 euros. O negócio da aviação nunca foi um grande negócio. Tem custos fixos (tripulação e manutenção) muito elevados e um break even point (ponto de equilíbrio em que o total das receitas é igual ao total dos gastos) altíssimo”.

A Autoridade de Aviação do Reino Unido (CAA - Civil Aviation Authority) informou esta segunda-feira que a Monarch deixou de operar e cancelou todos os voos, deixando em terra cerca de 110.000 passageiros. O fecho imediato das atividades da empresa pressupõe ainda, de acordo com a companhia aérea, a anulação de 300 mil reservas já feitas.

A Monarch é a quinta companhia aérea do Reino Unido e a mais importante do país a declarar-se na bancarrota. Ainda manteve conversações com a CAA para renovar a licença e vender pacotes turísticos, mas o limite para o acordo não foi cumprido.
“Este modelo low cost só funcionou nos últimos anos porque era altamente subsidiado (por autoridades de turismo e aeroportos), apoios que vão diminuindo no tempo”, afirma Luís Carmo Costa.

No caso da Monarch, que transportou no ano passado 6,3 milhões de passageiros para 40 destinos, a companhia teve de enfrentar dificuldades nos últimos anos, especialmente depois da queda de mercados turísticos como a Turquia e o Egito devido à situação de insegurança nesses países, o que a obrigou a competir com mercados como a Grécia ou Espanha, onde a concorrência também está instalada.

“A Turquia subsidiava altamente as companhias aéreas que, entretanto, deixaram de voar para lá, o que tem repercussões no negócio”, adianta o consultor. Além disso, “a diminuição da oferta hoteleira em alguns destinos, onde se inclui a Turquia e o Egito, fez aumentar a procura noutros, que aumentaram os seus preços. Os operadores turísticos, que deixaram de conseguiram esmagar os preços dos hotéis, viraram-se para as companhias aéreas. Ou seja, a Monarch andava a voar com elevadas taxas de ocupação, mas com uma receita por lugar em que estava a perder dinheiro”, remata.

A companhia aérea também voava para Portugal, sendo que, em abril, previa transportar este verão 75.000 passageiros nas novas rotas dos aeroportos de Birmingham, Manchester e Luton com destino ao Porto. E voava para a Madeira (Funchal), Lisboa e Faro.

Na altura, Iam Chambers, responsável pela área comercial da companhia aérea, afirmou que Portugal era “um dos melhores destinos em termos de crescimento, da companhia”, acrescentando que o verão 2017 era já “um sucesso para a Monarch, registando um crescimento de 32% face ao verão do ano passado”.

Tarifas começam a aumentar

No início de setembro, o presidente executivo da Ryanair, Michael O’Leary, afirmou que as low cost Norwegian (uma das que mais cresce) e Monarch iriam entrar em processo de falência ainda este ano. “Tanto Monarch quanto Norwegian estão com problemas sérios. Já não é segredo entre as companhias aéreas que ambas não sobreviverão até ao próximo inverno. Estão a queimar dinheiro. A Norwegian, por exemplo, fez uma encomenda enorme de aviões e não tem dinheiro suficiente para arcar com as despesas”, apontou O’Leary.

A Ryanair anunciou o cancelamento de mais de 18 mil voos

A Ryanair anunciou o cancelamento de mais de 18 mil voos

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A Norwegian é precisamente, segundo Luís Carmo Costa, uma das causas dos problemas da Ryanair. Na semana passada, após anunciar o cancelamento de 2100 voos até outubro, o equivalente a 50 voos por dia, a transportadora low cost Ryanair avançou que vai suspender 34 rotas de novembro a março de 2018, num total de mais de 18 mil voos, entre os quais para Faro.

A Ryanair justifica esta suspensão de voos pelo facto de ter menos 25 aviões a voar a partir de novembro, e menos dez a partir de abril. Ao mesmo tempo, abandonou os planos para comprar a Alitalia e diz que vai concentrar-se a resolver os seus problemas. “Pedimos uma vez mais sinceras desculpas a cada um dos 315.000 clientes cujos voos foram cancelados durante um período de 6 semanas em setembro e outubro”, divulgou a empresa em comunicado, pedindo desculpa também “aos 400.000 passageiros afetados pela redução no nosso horário de Inverno”.

Além do contexto que afetou a Monarch e é transversal na indústria, Luís Carmo Costa fala num ataque da Norwegian à Ryanair. “A Ryanair paga pior aos pilotos do que as outras empresas e a Norwegian está a ir buscá-los (150 pilotos), logo, a Ryanair não consegue voar. A única solução para a Ryanair é pagar mais aos pilotos e refletir isso nos preços dos bilhetes”.

A EasyJet, que entretanto anunciou estar solidária com os trabalhadores da Monarch e incentivou-os a concorrerem aos 500 lugares que estão em aberto na empresa, lançou a oferta para a primavera de 2018 com preços a partir dos 25 euros. Luís Carmo Costa recorda que no ano passado as tarifas partiam dos 19,99 euros. “A EasyJet já está a perceber que a partir de uma determinada altura as estruturas não aguentam e é preciso aumentar os preços”, refere o consultor.

O caso da Air Berlin

Recorde-se que, há três semanas, a companhia aérea Air Berlin, que em 15 de agosto se declarou insolvente (por falta de apoio financeiro do seu maior acionista, a Etihad Airways), foi obrigada a suspender 37 voos devido a uma revolta dos pilotos contra a direção da empresa que, na véspera, levou a mais de 120 cancelamentos. O balanço dos voos cancelados foi divulgado pela empresa, que indicou que tal deveu-se ao número “extraordinariamente elevado” de pilotos que declararam estar doentes e não se apresentaram ao trabalho (149 pilotos encontravam-se de baixa médica, depois dos quase 200 que no dia anterior não foram trabalhar pelo mesmo motivo). A companhia elevou para 5 milhões de euros o custo do protesto, considerando-o uma “ameaça existencial” para a empresa.

A Air Berlin declarou a insolvência a 15 de agosto e deixa 1200 pilotos em terra

A Air Berlin declarou a insolvência a 15 de agosto e deixa 1200 pilotos em terra

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A ação dos pilotos começou pouco depois de a direção da Air Berlin ter suspendido as negociações com um potencial novo comprador da transportadora aérea para a absorção de mais de 1200 pilotos da companhia insolvente. A oferta mais recente chegou do empresário Hans Rudolf Wöhrl que afirmou estar disposto a adquirir a Air Berlin por um valor até 500 milhões de euros. Em comunicado, o empresário precisou que as empresas Lufthansa, Condor, Tui, Germania e Niki Lauda tinham sido informadas que podem participar na oferta e que, se não estiverem interessadas, estará disposto a assumir sozinho, com o apoio de investidores, o saneamento da companhia insolvente.

No início de setembro, a Comissão Europeia aprovara, “no âmbito das regras de ajuda do Estado da União Europeia, os planos da Alemanha para assegurar um empréstimo-ponte temporário de 150 milhões de euros à Air Berlin”.

Este empréstimo será garantido pelo banco de fomento alemão, o KfW, de forma a garantir que a Air Berlin mantém as suas operações enquanto negoceia a venda de ativos. Desde 2008 que as contas anuais da empresa têm fechado no vermelho, à exceção de 2012, ano de lucros ligeiros. Em 2016, endividada em mais de 1000 milhões de euros, sofreu uma perda histórica de 782 milhões de euros. Ao longo dos últimos meses, a companhia acumulou atrasos e cancelamentos de voos. No entanto, a meio de junho, a empresa tinha estimado ter liquidez suficiente e sublinhava que não antevia a bancarrota.