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Algarve menos sazonal só com mais turismo sénior

Os turistas estrangeiros com mais de 60 anos 
têm maior rendimento disponível para gastar e fazem férias mais longas

Paulo Vaz Henriques

O Serviço Nacional de Saúde tem de combater a má reputação para atrair estrangeiros

Setembro chega ao fim. Em Faro, o dia de outono está soalheiro, os termómetros chegam aos 26 graus. É um convite a um bom dia de praia. Mas os areais da zona estão praticamente vazios e a região algarvia já se despediu das hordas de turistas que lhe encheram as ruas durante os concorridos meses de julho e agosto. E é este cenário idílico — o de um Algarve ameno, de praias pouco concorridas, com as cidades de volta ao bulício normal das suas gentes — que é preciso vender para combater a sazonalidade da atividade turística e atrair a fatia de população que está mais disponível para fazer férias “fora de horas”, que prefere pausas longas a escapadelas curtas e que tem mais rendimento disponível para gastar: a população acima dos 60 anos, os ‘seniores’.

Miguel Gouveia, professor na Católica Lisbon School of Business and Economics e especialista em economia da Saúde, foi um dos oradores da sétima edição dos “Encontros Fora da Caixa” — “Algarve todo o ano: emprego, turismo, saúde e segurança”, que decorreu esta terça-feira no Teatro das Figuras, em Faro, e tirou a temperatura ao fenómeno: na Europa, quando comparadas, por um lado, as faixas populacionais por idade e, por outro, o número de dormidas turísticas que cada uma delas faz, rapidamente se percebe que a fatia que tem maior propensão para viajar é, precisamente, aquela que tem entre 60 e 75 anos. “E essa ‘janela turística’ tenderá a alargar-se em linha com o aumento da esperança de vida saudável, que é uma das tendências atuais nos países desenvolvidos, a par do envelhecimento da população”, apontou o académico. Por isso, apostar num turismo ligado aos cuidados de saúde e à qualidade de vida é uma estratégia central para garantir mais turistas seniores e menor sazonalidade.

Turismo e saúde
Portugal, e nomeadamente a região do Algarve, está em “trajetória de convergência com países como França e Espanha, que têm os melhores indicadores em termos de esperança média de vida. Está até melhor, por exemplo, do que a Dinamarca”, referiu Miguel Gouveia. Ou seja, “somos um país para se envelhecer”. E esta evidência é mais importante ainda quando se compara a esperança média de vida (nos 80,4 anos em Portugal) entre os vários países europeus e o respetivo produto interno bruto (PIB) per capita (medido em poder de compra): face a estados mais ricos, Portugal encontra-se numa “boa” posição. “Comparado a outros países, temos uma esperança média de vida muito acima do esperado dado o nosso rendimento per capita”, notou.

E é essa imagem, a de um país onde se vive até mais tarde, que tem de ser transmitida, de forma apelativa, aos turistas estrangeiros e seniores. Se bem que ainda haja um longo caminho a percorrer. Quando se analisa a esperança média de vida saudável (um conceito que ajusta a esperança média de vida à qualidade de vida) em contraponto com o PIB per capita, Portugal já não converge com os países mais bem posicionados. “Temos maior longevidade, mas não temos tanta qualidade de vida a envelhecer”, enfatizou Gouveia.

Num país que gasta mais de 10% do PIB com despesas de Saúde, acima de muitos países europeus, “do ponto de vista da eficiência, não estamos tão bem quanto devíamos estar”. E a região do Algarve, em particular, mostra mais algumas debilidades: tem uma capacidade instalada de cuidados de saúde abaixo das outras regiões do país, com “ligeiramente” menos médicos e menos enfermeiros. Em contrapartida, é a que apresenta maior número de camas e lugares nos cuidados continuados por 100 mil habitantes.

Se o objetivo é fazer da região a Florida da Europa, então é preciso afinar fragilidades e, a nível nacional, “trabalhar para ter um bom Serviço Nacional de Saúde”. É que este já não tem grande capacidade excedente para acolher mais pacientes e lida com barreiras reputacionais grandes, além de, do ponto de vista de preço, não mostrar grandes vantagens competitivas quando comparado com os custos dos sistemas de saúde públicos de países como Reino Unido, França ou Espanha.

No Algarve, contudo, “as condições efetivas para estimular este turismo médico ainda não visíveis”, notou Nuno Ramos, diretor-geral do Hospital de Loulé. Sobretudo porque o trabalho de casa mais evidente e “mais fácil” ainda não foi feito — e que passa por identificar os residentes estrangeiros que vivem na região, mas que ainda recorrem aos países de origem para receber cuidados médicos. “Quantos são? De que cuidados precisam?

Este trabalho ainda não foi feito”, sublinhou o responsável, que integrou o debate dedicado ao tema “Condição de sustentabilidade do atual do boom de turismo”. Nuno Ramos lembrou ainda que, principalmente no barrocal algarvio, vivem muitos idosos estrangeiros, que chegaram a Portugal há décadas, ainda relativamente jovens. Atualmente, “vivem em moradas isoladas, que não servem as suas necessidades”. A implementação de residências medicamente assistidas seria importante, “mas ainda não temos um enquadramento legal” que facilite esta figura.

A vantagem da segurança
Cristóvão Lopes é o diretor-executivo do Falésia Hotel, de quatro estrelas, em Albufeira. Com 25 anos de idade, esta unidade hoteleira, como forma de se diferenciar da concorrência, apostou, há uma década, num conceito de férias inovador à época: assumiu-se como um hotel só para adultos. “O turismo sénior está a crescer e tem interesse. Estes turistas são muito ativos, querem conhecer os sítios que visitam e, mais importante, são pessoas com quem é fácil criar ligações emocionais. Acabam por voltar e isso ajuda na fidelização de clientes”, refere.

O hoteleiro reforçou que há espaço, na região, para a coexistência de diversos tipos de turismo, incluindo os mercados low cost e o alojamento local. E congratulou-se com o atual momento de crescimento da atividade em Portugal. “Não previa este crescimento tão grande nos últimos anos. Deu-se o alinhamento dos planetas e o facto de sermos visto como um destino seguro tem ajudado muito”, afirmou, referindo-se à onda de ataques terroristas que têm afetado destinos outrora concorridos, como a Turquia, o Egito ou a Tunísia. No entanto, reforçou que “há sempre a tendência para a normalização e estes países vão querer retomar a quota de mercado que tinham. E isso será feito através de uma estratégia de baixo custo”.

Rui Pereira, professor universitário e antigo ministro socialista da Administração Interna, abordou a importância do fator segurança para o turismo, “um fator competitivo” para Portugal. Daí a importância de, desde já, “desenvolver programas de videovigilância nas zonas centrais e históricas das cidades portuguesas. Estes mecanismos são comprovadamente úteis, quer para a prevenção de criminalidade quer para a ajuda nas investigações”. A criação de contratos locais de segurança, assim como de políticas intermunicipais também são ações prementes. “A segurança não atrai mais turismo; mas a falta de segurança afasta os turistas”, afirmou Rui Pereira, que não tem dúvidas: “Se houvesse um atentado terrorista bem-sucedido no Algarve, o turismo ressentia-se imediatamente.”

O Algarve e o investimento

O “colapso do investimento” em Portugal coloca em causa o “crescimento” do país e do Algarve, que se tem desenvolvido à custa das vagas de investimento que se foram sucedendo ao longo das últimas décadas e que infraestruturaram a região. Para continuar a afirmar-se como a “zona turística mais madura e mais experiente” de Portugal, o Algarve precisa de receber mais investimento, disse o economista José Manuel Félix Ribeiro. “Quando olhamos para a construção dos campos de golfe algarvios, vemos que a região acompanha os ciclos imobiliários mundiais. E nós não podemos perder essa velocidade”, sublinhou.

Citações

A janela turística, dos turistas entre 
os 60 e os 75 anos, tenderá a alargar-se em linha com 
o aumento 
da esperança de vida saudável e com o envelhecimento da população nos países desenvolvidos
Miguel Gouveia
Professor na Católica-Lisbon 
School of Business and Economics


O Algarve ainda 
não fez o trabalho mais fácil, que 
é o de identificar 
os residentes estrangeiros que 
cá vivem. Quantos são? De que cuidados precisam? As condições efetivas para estimular 
o turismo médico ainda não 
são visíveis
Nuno Ramos
Diretor-geral do Hospital de Loulé


Não previa este crescimento tão grande nos últimos anos. Os planetas alinharam-se 
e o facto de sermos um destino seguro ajudou. Mas há sempre a tendência para a normalização, e estes países [afetados pelo terrorismo] vão querer retomar a quota de mercado que tinham. E isso será feito através de uma estratégia de baixo custo
Cristóvão Lopes
Diretor-executivo do Falésia Hotel


A segurança não atrai turistas, mas 
a falta de segurança afasta os turistas. 
Se houvesse um atentado terrorista bem-sucedido 
no Algarve, o turismo ressentia-se imediatamente
Rui Pereira
Ex-ministro da Administração Interna


O Algarve é uma zona turística madura, experiente. E tem de se mostrar como o melhor sítio na Europa para um turista com mais 
de 65 anos. Tem de criar um ecossistema de inovação e tem 
de saber criar narrativas históricas, porque os turistas gostam disso
José Manuel Félix Ribeiro
Economista

Textos publicados originalmente no Expresso de 29 de setembro de 2017

  • Os protagonistas do sétimo Encontro Fora da Caixa

    Organizado pela Caixa Geral de Depósitos, com o apoio do Expresso, o sétimo Encontro Fora da Caixa teve como tema “Algarve todo o ano: emprego, turismo, saúde e segurança”. Conheça as opiniões dos convidados