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Saíram da PT há dois anos e já empregam 200 pessoas

Adérito Ferreira (em pé, à esquerda) esteve 18 anos na PT. Saiu quando a Altice entrou. João Casteleiro (à direita) ajudou a fundar a empresa

rui duarte silva

Tecnologia. A ReadinessIT está no Fundão, Lisboa e Porto, mas tem representação em quase 20 países

Esta é uma história “quase religiosa, pois tudo começou a 13 de maio” (de 2015) e continuou três meses depois não na Cova da Iria mas na Cova da Beira. Mais concretamente na cidade do Fundão. É assim que tem início o relato de Adérito Ferreira para explicar que, 18 anos depois de ter entrado para a Portugal Telecom, chegou um dia em que concluiu que o seu futuro já não passava por ali. Tinha a seu cargo uma equipa de 150 pessoas, que liderava de forma apaixonada e entusiástica, mas “rapidamente percebemos que, com a entrada do novo acionista [o grupo francês Altice], algo iria mudar”.

E continua dizendo que “foi fácil destrinçar que a estratégia da PT para aquela área de investigação (integração de sistemas de telecomunicações) não voltaria a ser a mesma e que o meu futuro já não passava por ali. Estava claro que não podia seguir o rumo da estratégia que tinha traçado para mim e para a minha equipa”.

Recorda que se seguiram fases de profundas reestruturações na empresa e que, cada vez mais, se tornava difícil motivar o grupo de pessoas com quem trabalhava diretamente. Ponderou muito antes de falar abertamente com os seus colaboradores mais próximos. Mas acabou por lhes dizer que, não se tratando de um “baixar de braços”, tinha de ir embora. E foi. Quase em simultâneo outras 25 pessoas que trabalhavam com ele fizeram o mesmo.

De imediato, criou a ReadinessIT e instalou-se no Porto, em Lisboa e também no Fundão. Ou seja, não se limitou à escolha óbvia do litoral, mas optou também pela parte de dentro do país. Porquê? “Foi uma espécie de alinhamento dos astros. Sabíamos que era mais difícil encontrar mão de obra nas grandes cidades e arriscámos no interior. Curiosamente, em simultâneo, a Câmara Municipal do Fundão estava precisamente a apostar na formação de desempregados, transformando-os em programadores informáticos”.

A ajudar a todo este processo não foi estranho o facto de um dos administradores, João Casteleiro, 33 anos, também ex-PT, ser da região. “Conhecia bem o Fundão e a estratégia que o presidente da autarquia se propunha seguir para atrair emprego qualificado para o seu concelho. Falámos uns com os outros e rapidamente materializámos os escritórios da ReadinessIT nesta cidade.”

Da PT à moagem do Fundão

Mais original era impossível. O edifício já foi uma moagem, mas agora está transformado num espaço cultural e museológico, com uma componente gastronómica associada e, no último piso, trabalha-se literalmente para o mundo — a ReadinessIT tem representações permanentes em quase duas dezenas de países.

Através das enormes vidraças, olha-se para norte e lá está a enorme serra da Estrela, ainda despida de neve, mas com um recorte austero, seco, depurado e profundamente inspirador. Percorre-se a paisagem com o olhar em direção a sul e rapidamente se chega à Gardunha, a rematar o enorme vale da Cova da Beira que se estende praticamente desde a cidade da Guarda.

Perto de 50 jovens, com uma média de idades a rondar os 25/26 anos, trabalham intensamente no aperfeiçoamento de técnicas de programação informática para lidar com integração de sistemas de informação: “uma ‘ferramenta’ de extrema utilidade para grandes empresas e em especial para gigantes das telecomunicações que, basicamente — e tentando simplificar —, ajuda a pôr os sistemas informáticos das organizações a comunicarem entre si”, eliminando perdas de eficiência e desperdício de tempo e de energia, ganhando em eficácia.

É assim que o presidente executivo da empresa, Adérito Ferreira, 47 anos, tenta explicar — descodificando — a base de trabalho da ReadinessIT.

“Diria que se a nossa empresa fosse um rio a nascente seria no Fundão”. Sublinha que foi precisamente ali que encontraram a tranquilidade e o contexto adequado ao exercício desta atividade, que exige extrema concentração e dedicação. Nota que, para o exercício das suas funções, os jovens trabalhadores da ReadinessIT todos os dias contam com TPC: Transparência, Partilha e Compromisso.

“Isso tem sido a chave do nosso sucesso, mas também do sucesso dos nossos colaboradores”, aos quais, em 2016, a empresa distribuiu €120 mil em incentivos para lá do ordenado. Sem especificar valores, o presidente executivo garante que um jovem recém-licenciado em engenharia informática ganha mais no Fundão que em Lisboa ou no Porto. A empresa tem protocolos com a Universidade da Beira Interior e com os institutos politécnicos da Guarda, Viseu e Castelo Branco.

Em 2016 — um ano depois de ter sido fundada —, a ReadinessIT faturou 8,5 milhões de dólares (€7,1 milhões) e este ano deverá ultrapassar os 10 milhões de dólares (€8,4 milhões). As contas fazem-se em dólares, pois é a moeda mais transacionada nas diversas geografias onde está presente.

Em apenas dois anos e meio de existência, conta já com representações em permanência na Nova Zelândia, Chile, Canadá, Estados Unidos, Sérvia “e mais uma quantidade de países cuja lista se poderia tornar enfadonha”, nota o presidente da companhia.

Por essa mesma razão, no Fundão trabalha-se praticamente 24 horas por dia, pois “as equipas estão em contacto permanente umas com as outras, independentemente do fuso horário onde se encontram em cada momento. Quando aqui é noite, é dia na Nova Zelândia e, muitas vezes, é necessário darmos algum acompanhamento técnico mesmo à distância”, explica Adérito Ferreira.

O acréscimo de trabalho tem sido tanto que, até final do ano a empresa praticamente irá duplicar o número de trabalhadores no Fundão. Isso vai exigir, inclusivamente, a ocupação de um segundo edifício contíguo à antiga moagem, mesmo ao lado da estação da CP, no Fundão.0 empregados até 2020

“Atualmente trabalham connosco perto de 200 pessoas — de várias nacionalidades —, mas, até 2020, deveremos ter mais de 400 empregados”, enfatiza João Casteleiro, que tem precisamente a seu cargo toda a área dos recursos humanos. A empresa foi recentemente considerada estratégica para o país, pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, e está também a trabalhar na criação de protocolos com as universidades de Salamanca e de Badajoz. “Com isto queremos dar litoralidade ao interior de Espanha”, explica Adérito Ferreira.

Este gestor, que ajudou o Fundão a ficar mais cosmopolita que nunca, viaja mais de avião que de carro. Passa apenas cinco meses por ano em Portugal, sendo que o resto do tempo é dividido por dezenas de países em visita às delegações da ReadinessIT, ou à procura de novos clientes, ou ainda em busca de conhecimento nas feiras e encontros especializados do sector.

Se gostava de passar mais tempo com a família, que vive perto do Porto? “Claro que sim, mas já estão habituados a isto, especialmente os meus filhos, que se sempre me conheceram assim.”