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Casas com assinatura vendem-se melhor

O 8 Building é da autoria do arquiteto Manuel Aires Mateus

Arquitetos de renome dão credibilidade aos projetos e são argumento de comercialização

A qualidade da arquitetura made in Portugal é inegável. São vários os prémios nacionais e internacionais amealhados por arquitetos portugueses, dois dos quais já ganharam o Pritzker — Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura. Cientes de que um cliente informado quer um bom produto, há promotores que escolhem para os seus empreendimentos arquitetos conhecidos. Independentemente de estes nomes proporcionarem ou não mais vendas, são uma garantia de qualidade e notoriedade. Já para a mediação, são um acelerador da comercialização.

Localizado no Príncipe Real, em Lisboa, o Palácio Faria está a ser reabilitado para habitação pela EastBanc. A obra é de Eduardo Souto de Moura, que recebeu em 2011 o Prémio Pritzker, o mais prestigiado galardão da arquitetura mundial. Vai ter seis apartamentos, com áreas entre os 220 m2 e os 390 m2, varandas e terraços, e estará pronto a habitar no início de 2018.

Obra de Souto de Moura

Conhecedor da arquitetura nacional, Anthony Lanier, presidente da EastBanc, justifica a escolha: “Queria trabalhar com um arquiteto português de renome. O Eduardo Souto de Moura tem a certeza na mão, vê o edifício, entende o património, sabe o que quer fazer... Admiro-o em termos de arquitetura”, explica. Uma admiração que atravessa fronteiras. Já vieram ter com ele, para conhecer o palácio, pessoas do Brasil, por exemplo, que afirmaram que gostariam de morar numa obra deste arquiteto.

O Palácio Faria tem o traço de Eduardo Souto de Moura

O Palácio Faria tem o traço de Eduardo Souto de Moura

Para já, estas casas não estão à venda, uma vez que, sendo este o primeiro projeto de um conjunto de edifícios que a EastBanc vai transformar em apartamentos ou escritórios de luxo com a participação de arquitetos de renome, só serão vendidas quando estiverem prontas, de modo a que quem lá entrar saiba o que vai adquirir. Lanier garante que tanto ele como um sócio seu vão comprar ali apartamentos.

Na opinião do presidente da EastBanc, um arquiteto é um artista e faz um trabalho de perfeição. Se for conhecido, “quer fazer algo que seja ótimo e equivalente do seu nome. Um arquiteto não é famoso só por sorte. Eles são exigentes e fazem obras diferentes”, frisa. E, por vezes, o que fazem num edifício pode ser pouco percetível, mas está lá. “Vou continuar a trabalhar com o Eduardo Souto de Moura, porque ele tem a habilidade de modificar muito pouco um edifício. Cria por exemplo mais um andar, mas é difícil perceber o que mudou”, refere.

Consumidor informado

Como é óbvio, o objetivo de Anthony Lanier é ganhar dinheiro com os seus empreendimentos, mas é também importante para ele que o comprador fique com um imóvel de valor. “Se tiver de revender no curto prazo, que possa fazer lucro”, diz.

Mas até que ponto alguém compra uma casa por ser obra de determinado arquiteto? Patrícia Barão, diretora do departamento residencial da consultora imobiliária JLL, conta que nunca lhe surgiu um cliente à procura de uma casa nestes termos. No entanto, o nome que os arquitetos têm no mercado ajuda à comercialização. “Vende-se mais rápido um projeto que seja de um arquiteto conhecido e com bom nome na praça do que o de um desconhecido”, afirma. É mais um argumento comercial que imprime credibilidade e confiança e que torna os projetos mais comerciais e apetecíveis.

O Pestana Eco-Resort foi feito por vários arquitetos, sendo esta casa de Miguel Passos de Almeida

O Pestana Eco-Resort foi feito por vários arquitetos, sendo esta casa de Miguel Passos de Almeida

“Os arquitetos mais experientes e de renome sabem bem o que resulta ou não no imobiliário e podem aconselhar os promotores a fazer aquilo a que o mercado está mais recetivo e a agilizar processos de licenciamento e obra”, salienta Patrícia Barão. E, apesar de nomes sonantes nacionais dizerem mais a portugueses do que a estrangeiros, estes últimos, nomeadamente no segmento médio e médio alto, querem saber o máximo sobre o bem que estão a adquirir, incluindo quem é o arquiteto e o que já fez.

Luís Corrêa de Barros, CEO da Habitat Invest, tem vendido quase 100% do seu produto a estrangeiros. O 8 Building, onde funcionaram os serviços centrais dos CTT e que foi reconvertido num dos maiores empreendimentos alocados ao alojamento turístico, não foi exceção. Esta reabilitação, da autoria do arquiteto Manuel Aires Mateus, recebeu até um prémio nacional. Na ótica de Corrêa de Barros, “quando trabalhamos com um arquiteto é porque achamos que é o ideal para o que queremos desenvolver”. A sua clientela pode desconhecer quem é quem na arquitetura nacional, mas é exigente em termos de qualidade, dá muita atenção aos acabamentos, e neste mercado o passa-palavra é importante. O promotor acha que os arquitetos como autores do projeto são uma peça fundamental para a qualidade do resultado final.

Neste e noutros projetos, Luís Corrêa de Barros tem trabalhado com outros nomes conhecidos além de Manuel Aires Mateus, como, por exemplo, João Santa Rita e Luís Rebelo de Andrade. O promotor acredita que, embora os arquitetos conceituados e com mais procura possam cobrar mais, isso compensa se for o ideal para o que se tem em mente.
Mix de arquitetos

O Pestana Troia Eco-Resort & Residences lançou recentemente a sua última fase, depois de as anteriores estarem já vendidas. José Roquette, responsável pelo empreendimento, explica que aqui a escolha recaiu em vários arquitetos, entre os quais Miguel Passos de Almeida, Gonçalo Salazar de Sousa ou a Modular System. O critério foi “terem experiência, estarem rendidos ao conceito de ecoresort e que trabalhassem bem em conjunto”, declara.

Apesar de não conseguir avaliar se esta escolha se traduziu em maior rapidez ou no número de vendas, Roquette acredita que a qualidade e o conceito pesaram. E não tem dúvidas de que a escolha do arquiteto é um passo importantíssimo, quer na notoriedade, quer no sucesso, já que associada à fama e ao prestígio vem a qualidade arquitetónica, e é isso que faz a diferença.

Visão académica

Sandra Marques Pereira, investigadora do Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território, publicou em 2014 a obra “Visite o andar modelo” onde analisou anúncios de imobiliário de 1973 a 2001 e explica que foi no final deste período que a assinatura do arquiteto surgiu como uma mais-valia comercial. Dá como exemplo o projeto Terraços de Bragança, de Siza Vieira. “Esta tendência resulta de fenómenos interdependentes como a mediatização e globalização da arquitetura, a emergência do starchitet [arquiteto estrela] ou o investimento em edifícios icónicos como estratégia de competitividade urbana”, refere. Acredita que os promotores usam a arquitetura como meio de projeção da entidade que gerem, para aumentar visitantes e garantia de um processo rápido do licenciamento ao fim da obra. Hoje, a publicidade de imobiliário em papel tem menor expressão e o nome do arquiteto surge nas telas que cobrem os edifícios e sites do promotor e mediador. “A referência ao arquiteto e a relevância que lhe é dada, dependerá sobretudo do estatuto que o mesmo tem no campo da arquitetura. No mercado da reabilitação de Lisboa não me parece que seja um fator determinante na venda dos imóveis, embora possa ser em alguns casos, um fator de valorização.”