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Pressões sobre o BCE são prejudiciais, avisa o FMI

PATRICIA DE MELO MOREIRA/getty

Poul Thomsen, diretor do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional, condenou em Londres “pressões prematuras” para o BCE iniciar uma saída da política monetária expansionista

Jorge Nascimento Rodrigues

“O Banco Central Europeu (BCE) tem de manter uma politica acomodatícia no futuro previsível”, referiu na quinta-feira em Londres Poul Thomsen, diretor do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI). O alto quadro do Fundo, responsável pela implementação da estratégia europeia da organização dirigida por Christine Lagarde, acrescentou que estava preocupado com “as pressões prematuras sobre o BCE para iniciar a normalização da política monetária”.

Os avisos de Thomsen foram proferidos na cimeira sobre Gestão de Investimento organizada pelo Financial Times e vão ao encontro das palavras de Mario Draghi, o presidente do BCE, ditas recentemente no Parlamento Europeu: “Não nos podemos dar ao luxo de movimentos apressados”. A tomada de posição do FMI é também significativa a menos de um mês da realização da próxima reunião do conselho do BCE que irá realizar um balanço do programa de aquisição de ativos, iniciado em 2014.

O dinamarquês Thomsen é uma figura conhecida do público português, pois liderou a equipa do FMI na troika no resgate de 2011 e, ainda hoje, continua a ser o alto quadro de Lagarde que supervisiona o programa com a Grécia e o pós-programa com Portugal.

Não a um aperto monetário para breve

Na linguagem do BCE e do FMI, política “acomodatícia” significa o conjunto de medidas não convencionais e convencionais de política monetária expansionista, vulgo estímulos, e em particular o programa de aquisição de ativos (nomeadamente o de compra de dívida pública dos países membros do euro no mercado secundário) e a manutenção da taxa diretora de juro em níveis historicamente baixos (atualmente em 0%).

Thomsen referiu explicitamente que “as medidas não convencionais foram decisivas para evitar os riscos de deflação e iniciar a recuperação [económica]”. “Em algum momento, o BCE terá que começar lentamente a descontinuar essas medidas, mas isso não significa que tenha que travar a sua posição acomodatícia em breve”, acrescentou.

O recado para as economias centrais do euro ficou dado: “Em particular, para que o BCE alcance a meta de inflação de médio prazo próxima de 2% para a Zona Euro como um todo, é inevitável que os países com uma posição cíclica mais forte nesta conjuntura aceitem que a sua taxa de inflação terá que subir acima desse objetivo por algum tempo”. É o caso da Alemanha com uma inflação de 1,8% em agosto e setembro.

Em suma, não a um aperto monetário - a tal 'normalização' - na zona euro para breve.

Inflação na zona euro longe de 2%

O comportamento da inflação tem sido uma dor de cabeça para o BCE. Uma subida sustentável da inflação não se vislumbra e as expetativas de inflação baseadas no mercado continuam baixas. As previsões dos analistas apontam para a inflação não ser superior a 1,4% em 2017 e as projeções do FMI só apontam para um ritmo de 1,9% em 2021. Para 2019, não deverá ser superior a 1,5%, avançou Draghi na audição perante o Parlamento Europeu.

O Eurostat, o organismo de estatísticas da União Europeia, divulga esta sexta-feira de manhã a previsão de inflação para setembro. Em agosto, ela subiu para 1,5%.

Recorde-se que o conselho do BCE realiza a sua próxima reunião de política monetária no dia 26 de outubro. O banco central vai proceder a um balanço do programa de compra de ativos, iniciado em 2014, e os analistas preveem que ele prossiga em 2018 com uma redução do volume mensal de aquisições de 60 para 40 mil milhões de euros. Há vários cenários para o período de extensão do programa, mas o consenso dos analistas aponta para uma descontinuação pelo final do próximo ano.