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Ministro do Ambiente: “99,8% da água consumida é de excelente qualidade”

Tiago Miranda

Os novos desafios e tendências da fileira hidráulica estão em debate no Porto. A nova fase é de investimento nas redes inteligentes e novos modelos de gestão

Nos últimos 25 anos, Portugal investiu 10 mil milhões de euros no ciclo urbano da água, desde a captação até ao tratamento das águas residuais. Este esforço financeiro "conduziu o país a um patamar de excelência" e a uma nova fase em que a prioridade se centra "na renovação de redes e adoção de modelos inovadores de gestão que potenciem a eficiência e garantam a sustentabilidade ambiental e financeira do sistema".

Esta foi a mensagem que o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, deixou esta quarta-feira na abertura na conferência EIP Water Conference 2017”, promovida pela Parceria Europeia de Inovação para a Água (European Innovation Partnership on Water) e que está a decorrer no centro de congressos da Alfândega, no Porto.

Matos Fernandes, que transitou da presidência do conselho de administração da empresa Águas do Porto para o Governo, citou dois indicadores como prova da excelência portuguesa: 99,8% das análises à água que chega às torneiras das casas confirmam que se trata "de excelente qualidade" e o país conta com 320 praias com bandeiras azuis, "o que atesta que o sistema de tratamento de efluentes é eficiente e robusto".

Virar a página para a digitalização

Como país está na fase de "virar a página", esta 4ª conferência "surge no momento certo para Portugal dar a conhecer o seu desempenho neste domínio" . A nova etapa será a da eficiência e do recurso a novas tecnologias.

O ministro do Ambiente reconhece que o sistema de abastecimento de água está atrasado, face a outras utilities como a energia elétrica ou gás, na utilização de redes inteligentes ou ferramentas da indústria 4.0. Só um processo gradual de digitalização que sinalize caudais e pressões em toda a rede e o recurso a plataformas tecnológicas de gestão permitirão maximizar a eficiência e reduzir as perdas de água.

A diferença entre a água captada e faturada é especialmente alta em municípios de baixa densidade populacional. Em Lisboa (10%) é inferior ao benchmark internacional (15%) e no Porto está perto dessa referência (18%).

Agregar sistemas municipais

A prioridade do Ministério do Ambiente é promover a agregação de sistemas municipais para ganhar escala e viabilizar investimento na digitalização. O ministro do Ambiente regista ainda como exemplos da capacidade científica portuguesa na fileira da água, dois centros de saber instalados no LNEC - Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Um deles (Liswater) é um centro de formação à escala mundial no domínio da regulação do sector da água, e o segundo é um centro de excelência para o ciclo urbano da água das Nações Unidades.

Frederico Fernandes, presidente da empresas Águas do Porto que organiza o EIP Water Conference 2017, cita a telemetria como um dos avanços recentes na cidade. Em 155 mil contadores instalados, 25 mil são da mais recente geração, permitindo que aos clientes conhecerem o seu perfil de consumo e dispor de uma aplicação que os avisa se o consumo regista desvios súbitos.

Esta conferência coloca a Águas do Porto "na primeira linha de debate sobre os novos desafios e novas tendências". A inovação acontece "nos modelos de gestão e no uso de novas ferramentas tecnológicas", diz Frederico Fernandes ao Expresso.

O exemplo do Miya Group

Explorar a água como agente da economia circular e debater soluções inovadoras para promover a eficiência dos sistemas, eis o desígnio da conferência que congrega no edifício da Alfândega 70 oradores e perto de 1000 participantes,

Na primeira sessão, o presidente do grupo Águas de Portugal, João Nunes Mendes, referiu que a prioridade do grupo está na eficiência energética das suas instalações, com o lançamento de um programa para reduzir o consumo e os custos elétricos.

Noam Komy, vice-presidente do grupo de origem israelita Miya (dono da Indáqua), defendeu que a economia circular "está sempre no centro das preocupações das empresas privadas". Porque não estão focadas apenas no lucro e "têm uma visão de longo prazo em que a sustentabilidade do sistemas é essencial", ao contrário da visão de curto-prazo dos políticos.

Noam Kommy contou que em Israel as crianças são ensinadas "logo no jardim de infância a não desperdiçar uma gota de água que seja". Para ele, "não se deve falar em escassez mas em abundância de água porque o problema está nas perdas". E contou o exemplo do Miya Group em Manila: em pouco tempo reduziu as perdas de 67% para 24%, permitindo fornecer água a mais três milhões de residentes. No caso das concessões da Indáqua, o desempenho é irrepreensível. Mas, há municípios com "sérios problemas" no domínio da eficiência.

Reciclar água das minas

A segunda sessão sessão do EIP Water Conference 2017 colocou a indústria no centro do debate. Um dos exemplos extremos de reciclagem envolve a indústria mineira e foi abordado por Mona Arnold, o investigador finlandês que dirige o centro de pesquisa para o meio ambiente do seu país.

Como tornar a água das minas num recurso utilizável, eis o desafio que move o investigador. O seu centro lida com um conjunto de processos biológicos, químicos e tecnológicas para purificar as águas poluídas e devolvê-las ao sistema.

A contaminação de águas de minas ativas ou abandonadas "é um problema à escala mundial e um dos fatores que impede a Europa de alcançar as metas anunciadas em matéria de água", refere Mona Arnold. Na Europa, há 8 000 km de rios contaminados por descargas de minas (50.000 quilómetros em todo o mundo).

Para o investigador, "torna-se imperativo um programa de tratamento e recuperação desta água, através de operações de remoção dos poluentes que podem revelar-se economicamente viáveis e lucrativas num futuro próximo". O desígnio "é aplicar uma solução tecnológica adequada a cada caso que produza água de qualidade a um preço razoável".