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Janet Yellen (Fed): gradualismo, mas não em excesso

As incertezas sobre o que está a bloquear a subida sustentável da inflação para a meta dos 2% militam a favor de “um ritmo gradual” na normalização da política monetária. Mas, ao mesmo tempo, seria “imprudente” ser “demasiado gradual”, afirmou esta terça-feira a presidente do banco central norte-americano

Jorge Nascimento Rodrigues

A prudência exige duas coisas – descontinuar a política monetária expansionista de um modo gradual, mas, ao mesmo tempo, não ser “demasiado gradual”, deixando a normalização – nomeadamente a subida das taxas diretoras de juro - em banho-maria até que a inflação estabilize na meta dos 2%. É esta a orientação defendida por Janet Yellen, a presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed), o mais importante banco central do mundo, na intervenção que realizou esta terça-feira em Cleveland, nos Estados Unidos, na 59ª conferência anual da National Association for Business Economics. A presidente da Fed falava precisamente sobre "Inflação, incerteza e política monetária".

Os mercados financeiros interpretaram a posição – gradual, mas não em excesso – como um sinal de que a Fed procederá a uma subida da taxa diretora para o intervalo entre 1,25% e 1,5% até final do ano, com a probabilidade desse aumento de 25 pontos base (0,25 pontos percentuais) se concretizar na reunião de 13 de dezembro. No mercado dos futuros das taxas de juro do banco central a probabilidade de que nova subida ocorra em dezembro subiu para 81,4% depois das declarações de Yellen, quase 10 pontos percentuais mais do que anteriormente, segundo o monitor FedWatch do grupo CME.

No mercado cambial, o dólar caiu face ao euro logo que foi conhecido o teor da intervenção de Yellen e acumulou nos trinta e cinco minutos seguintes uma desvalorização de 0,3%. Foi invertida a trajetória de desvalorização do euro face ao dólar que se vinha a observar desde domingo após conhecidos os resultados das eleições federais na Alemanha, gerando enorme incerteza sobre o futuro governo da chanceler Angela Merkel.

Compreensão imperfeita sobre as causas de uma inflação baixa

A presidente da Fed reconheceu que há uma enorme incerteza sobre as ‘forças’ que estão a bloquear a subida sustentável da inflação para a meta de 2%. A compreensão das forças que influenciam a inflação “é imperfeita”, adiantou, sublinhando que “algo mais persistente poderá ser responsável pela atual” situação de inflação abaixo da meta. “Estabilizar a inflação em 2% pode revelar-se mais difícil do que esperado”, frisou.

Finalmente, equacionou a pergunta para a qual deu a resposta de gradualismo, mas não em excesso: “Como é que a política [monetária] deve ser formulada perante incertezas tão significativas? Na minha opinião, reforça a opção por um ritmo gradual do ajustamento. (…) Uma abordagem gradual é particularmente adequada à luz de uma inflação subjugada e de uma taxa de juro real baixa e neutra, o que implica que o FOMC [o comité de política monetária da Fed] terá uma margem de manobra limitada para reduzir a taxa diretora federal se a economia for atingida por um choque adverso. Mas também devemos evitar mudar muito [sublinhado por Yellen] gradualmente”.

Riscos de excesso de gradualismo

Uma mudança excessivamente gradualista tem dois riscos claros, no entender de Yellen. Primeiro: “Sem mais aumentos modestos ao longo do tempo na taxa diretora de juro, existe o risco de que o mercado de trabalho acabe por sobreaquecer, criando potencialmente um problema inflacionista gerando uma situação que pode ser difícil de superar sem desencadear uma recessão”. Segundo: “Uma política monetária persistentemente de estímulos também pode levar a uma situação de maior alavancagem e outros desenvolvimentos, com implicações adversas para a estabilidade financeira”.

E concluindo: “Por estas razões, e dado que a política monetária afeta a atividade económica e a inflação com um atraso substancial, seria imprudente manter a política monetária à espera que a inflação volte aos 2 por cento”.

  • Mario Draghi afirmou no Parlamento Europeu que BCE não se pode dar ao luxo de “movimentos apressados”. Benoît Coueré garantiu que saída da política expansionista será feita “com cuidado” e Yves Merch em Lisboa sublinhou que “ajustamento será prudente”

  • Claudio Borio, economista-chefe do Banco de Pagamentos Internacionais, avisa que a globalização e as disrupções tecnológicas, com a sua pressão desinflacionista, estão a trocar as voltas aos banqueiros centrais. Avisa que é mais importante, agora, evitar riscos de instabilidade financeira do que andar a tentar estimular a subida dos preços mantendo uma política monetária expansionista ineficaz