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Portugal foi bem calçado a Milão

A segunda maior representação estrangeira na MICAM deixou Milão de boca aberta. Portugal é uma potência cada vez mais efetiva no mundo do calçado, mas é preciso que em terras lusas também se reconheça o trabalho que tem sido feito no sector

Dez pavilhões. Em cada um deles várias dezenas de ruas com outras tantas dezenas de stands. "Diz-me o que calças, dir-te-ei quantos quilómetros consegues andar" podia muito bem ser o lema da MICAM, a feira de calçado de Milão que também é a maior do mundo e que obrigou os visitantes à forma física de um atleta de alta competição. Ou quase.

Foram 1600 marcas representadas, 96 delas nacionais, tornando Portugal na segunda maior delegação estrangeira presente, apenas superada por Espanha. Essa representação contava a história de oito mil postos de trabalho (nas várias fábricas) e cerca de 550 milhões de euros em exportações.

Correspondeu também a 16 mil amostras de sapatos e artigos de pele que viajaram em 28 autocarros e a um investimento de dois milhões de euros feito pela APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos).

Dos sapatos fabricados em Portugal, cerca de 95% dessa produção é direcionada para o mercado internacional, com uma presença em mais de 150 países e um valor de cerca de 1900 milhões de euros, um aumento de 60% quando comparado com 2009. A liderar a comitiva estava Luís Onofre, presidente da APICCAPS, função que acumula há quatro meses com a de nome incontornável no calçado de luxo.

"A determinada altura cheguei a pensar duas vezes se tinha feito bem em candidatar-me, mas nesta fase, e passados estes quatro meses, com o esforço que tem sido feito por todos, temos conseguido fazer coisas muito boas. E é isso que me faz pensar que realmente valeu a pena. Mas espero fazer ainda mais por um sector a que devo muito e a que espero dar um contributo positivo, para que o calçado português se torne conhecido internacionalmente".

Para já, a aposta da APICCAPS centra-se nos EUA – o sexto país no ranking das exportações de calçado nacional –, um mercado bastante apetecível e um dos mais exigentes do mundo, onde um pequeno erro pode custar muito caro.

Como se conseguirá, então, presidir à associação do calçado e ao mesmo tempo não descurar a marca própria? "Houve um esforço adicional para conseguir fazer uma coleção de verão mas acho que conseguimos. Tenho uma equipa que me ajuda muito e torna-se mais fácil gerir as coisas", responde, acrescentando que "a marca Luís Onofre tem de estar em primeiro lugar, é o meu ganha-pão. Felizmente, as coisas têm corrido bem nacional e internacionalmente".

O homem que prefere ser invisível

Há uma figura no mundo do calçado português que quase não se deixa ver. Carlos Santos, o homem que é quase invisível mas que faz dos melhores sapatos por esse mundo fora, é discreto e fala num tom de voz baixo e sereno, quase envergonhado. "O que faz sentido é que sejam os sapatos a falar por si, pela marca, e não eu. Falo algumas vezes mas não é minha pretensão estar sempre a falar ou a ser mostrado, porque o que importa é aquilo que faço e não quem eu sou", diz.

Carlos começou a trabalhar aos 14 anos na fábrica que hoje é sua. Agora, aos 63 anos, diz ter a "experiência da vida". O segredo do seu sucesso vem do amor, da paixão, da dedicação e da persistência com que sempre encarou, e encara, a arte de fazer sapatos: "Sou uma pessoa muito persistente e quero sempre fazer melhor. Às vezes viajava para feiras em Itália, olhava para os sapatos de luxo italianos e perguntava-me porque é que nós não fazíamos aquilo. Porque também podíamos".

Em seu entender, ainda há uma parte importante do caminho a ser feita. Para Carlos "é preciso que os portugueses sintam orgulho naquilo que se faz no país, assim como os governantes. O made in Portugal é extremamente importante, é preciso que se tenha essa noção e que se puxe por isso. E é possível fazer mais e melhor, e hoje vamos tendo a prova disso, basta ver o patamar em que está o calçado português".

A marca Carlos Santos está hoje presente em cerca de vinte países. França, Alemanha e Bélgica são os de maior expressão na Europa. "Depois, há alguns mercados com menor expressão mas onde temos clientes importantes que espalham os nossos sapatos em vários pontos do país e que contribuem para a notoriedade da marca. Tenho noção que nem toda a gente pode comprar os sapatos, mas ainda assim não os considero caros se compararmos com os de outros países fabricantes – quatro ou cinco – na relação qualidade/preço, onde somos muito melhores".

"Costumo dizer que é preciso ir a Fátima a pé muitas vezes para que os sapatos se estraguem, com todo o respeito pela parte cristã. Procuro manter sempre os produtos de alta qualidade. Claro que a sola tem a duração finíta que deve ter, como todas as solas que são naturais de couro, mas sei que têm uma duração acima da média. Se o cliente tratar bem o produto tem sapatos para muitos, muitos anos. Se não os usar todos os dias e tiver alguma preocupação com eles posso admitir que são sapatos para a vida", acrescenta.

Tem de haver um segredo para tamanho sucesso e reconhecimento. Fazer sapatos e tê-los figurados como dos melhores entre os melhores não estará ao alcance de todos. Isso é um facto. E é um facto que só se consegue "querendo sempre ser o melhor no que se faz. Se quisermos levar um projeto para a frente temos de ser excelentes e ser teimosos, não há outra maneira de fazer as coisas. É um trajeto bonito de se fazer, muito bonito, mas, naturalmente, há um espirito de competitividade", refere.

Costuma dizer-se que é difícil construir e manter mas muito fácil destruir. Para que aqui isso não aconteça é preciso que "a continuidade da marca que se criou esteja bem assegurada. Eu já não faço parte do futuro, eu faço parte de uma mensagem de continuidade e insisto que o caminho que aí vem tem de ser ainda melhor do que o que já foi", finaliza Carlos Santos.

Um modelo e uma marca conhecem-se...

Nem só de sapatos se fez a MICAM, embora fosse muito importante escolher uns confortáveis para palmilhar os quilómetros de feira. Nas dezenas de pavilhões e milhares de expositores também havia espaço para acessórios.

Rúben Rua, modelo, ator e apresentador já tinha desenhado uma coleção de óculos de sol há uns meses. Se dizem que a felicidade é atingida depois de se escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore, a Rúben falta-lhe a segunda, ainda que já tenha somado duas variantes extra. Depois dos óculos, juntou-se a uma marca portuguesa de acessórios de moda, a RUFEL, e desenhou uma coleção de malas para homem, num convite que surgiu quando menos esperava.

"Estava a gravar um programa para a RTP2 e entre reportagens precisava de vestir outra coisa. A equipa diz-me para irmos a uma fábrica ali perto onde eu poderia trocar de roupa e é aí que conheço as donas que me lançam o desafio de fazer uma linha de homem, que não existia apesar da marca já ter 43 anos. Podia estar a dizer que era um sonho antigo, mas foi mesmo só uma troca de roupa e agora estamos na MICAM", diz com um brilho nos olhos.

Rúben admite fazer as coisas pelo desafio e não pela vertente financeira, embora reconheça que "toda a gente precisa de ganhar dinheiro. Mais importante que isso é agora conseguir olhar para estas malas e saber que fui eu que escolhi as peles, as cores, o formato e até o logótipo, e sentir-me orgulhoso do que fiz. Vivi e senti cada passo que demos e foi incrível. É saber que as coisas custam a fazer e não aparecem do nada. Muita gente brinca comigo porque ganhei um Globo de Ouro à quinta nomeação mas foi preciso estar cinco vezes nomeado para que chegasse a minha vez, e isso é que foi importante", conclui.

* O Expresso viajou a convite da APICCAPS