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E se um dia não for preciso irmos ao consultório?

Miguel Gouveia (Católica) abre a sessão com um estudo sobre o estado da saúde em Portugal

António Bernardo

O futuro envolve tecnologias avançadas, inteligência artificial, exportação de cuidados médicos via telefone e até turismo de saúde em Portugal. Mas ainda há muito a desbloquear

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Parece utópico ou mesmo uma brincadeira, mas não é. O futuro da saúde está a caminhar para esta realidade, ou seja, não irmos ao médico fisicamente mas sermos acompanhados em consultas à distância, enquanto se está em casa ou no trabalho. Chama-se telemonitorização, já está em prática em alguns países, como nos EUA, tanto em consultas de rotina como no acompanhamento de doenças crónicas, e pode vir a existir em Portugal. Pelo menos há essa vontade, tanto da parte do público como do privado, e isso viu-se na opinião dos oradores da quinta sessão da conferência “Próximo Nível” organizada pelo Expresso e pelo Banco Popular esta semana em Lisboa.
“O próximo nível é as pessoas não irem ao médico, nem aos enfermeiros nem a lado nenhum. Acredito que seja possível acompanhar um doente diabético através de telemonitorização ou aconselhamento telefónico, ou seja, posso estar próximo dos meus doentes sem que eles tenham de ir ao centro de saúde de dois em dois meses”, disse o médico e presidente do Concelho de Administração da Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), Henrique Martins. E acrescentando: “Hoje já há pais que não levam os filhos ao médico durante um ano, mas têm o pediatra à distância de um telefonema.”
A acontecer isto representa uma mudança radical de paradigma e dos processos na saúde, mas é isso mesmo que se está à procura. “Os cidadãos não gostam de ir ao médico, gostam de estar saudáveis. O que queremos é trabalhar para termos uma sociedade que esteja saudável mais tempo”, disse ainda Henrique Martins. Para isso, referiu a responsável pela área da saúde na IBM, Cristina Semião, “temos de começar a fazer inovação pela gestão da saúde e não da doença”. Ou seja, é preciso apostar “na prevenção e na medicina personalizada”, comentou, por sua vez, o diretor executivo do Healthcare Cluster Portugal, Joaquim Cunha. Isto porque, adiantou ainda a representante da IBM, “se conhecer as pessoas [o que comem ou o que fazem nos tempos livres] consigo encontrar o melhor tratamento com o menor custo”.
E Henrique Martins tem dois bons exemplos disso. Um deles são as vacinas da gripe. “O que gastámos em outubro se calhar já poupámos em março porque houve menos pneumonias e menos pessoas internadas”, disse. O outro são as receitas digitais, com as quais garante já terem poupado dois milhões de euros.
Mas tudo isto tem de ser feito com peso e medida. “Não pode ser inovação por inovação. É preciso haver testes custo-efetividade, porque neste caso os testes de mercado não funcionam”, disse o professor da Católica de Lisboa, Miguel Gouveia, que abriu a sessão com a apresentação de um estudo sobre a saúde em Portugal (ver infografia na página ao lado).
Acesso a dados é limitado
Mas há ainda um outro caminho a percorrer para que haja uma aposta na prevenção da doença em vez de na doença em si: é preciso fazer cruzamento dos dados que já existem em todas as instituições de saúde públicas e privadas. “Há um estudo que diz que cada pessoa gere um GigaByte (GB) de dados de saúde (...) mas ter dados não é ter informação. É preciso trabalhar esses dados”, salientou Cristina Semião. Só que tem sido precisamente aqui que esta alteração de paradigma tem sido travada.
“O enquadramento legal português permite a utilização de dados em situações limitadas e os pedidos para se ter acesso a eles têm de ser feitos à Comissão de Dados e têm de ser muito específicos e às vezes não sei onde estão as informações que quero saber”, explicou Henrique Martins à margem da conferência. Isto porque cada instituição é dona dos dados que produz sobre os doentes e, por exemplo, não se consegue saber quantas vezes um medicamento foi usado no SNS porque uma parte dos dados pertencem às farmácias e a outra ao SNS. “A lei restringe os dados ao fim que ela teve e por isso é que devia haver uma legislação específica, uma lei de dados da saúde”, defendeu Henrique Martins.
Ora, isto é um grande entrave à investigação médica e até à saúde dos cidadãos. Por exemplo, Portugal é o primeiro país do mundo com um registo digital da mortalidade, mas esses dados não têm sido cruzados com outros. “Quantas vidas se perdem em Portugal porque não usamos os dados que temos para fazer saúde”, notou ainda Henrique Martins.
Para Joaquim Cunha, uma utilização mais alargada dos dados que existem podia colocar Portugal no mapa internacional da investigação em saúde. “Temos uma boa saúde e uma boa ciência e isto não passa para fora e um projeto de utilização de dados em saúde podia ser uma bandeira internacional. Exportar a investigação tem um potencial elevadíssimo”, sugeriu.
Mas não é apenas o cruzamento de dados que está em falta. Também não tem existido troca de ideias entre o público e o privado. “Em todas as áreas existe fertilização cruzada, mas na saúde nem por isso. Há pouca discussão entre médicos e devia haver mais porque esta competição entre público e privado traz criatividade e podia haver mais troca de equipas, mas isso não acontece porque as regras de contratação na função pública são ainda muito pouco flexíveis e quando se sai do público e vai para o privado não se volta para o público”, comentou Henrique Martins.
O responsável da Patient Innovation, Pedro Oliveira, também ele orador, não tem dúvidas que esse cruzamento de dados e de ideias só traz frutos. “Muitas inovações falham, mas as que nos são faladas é porque resultaram”, disse.

Os Atores do futuro

Pedro Oliveira Investigador principal da Patient Innovation
A Patient Innovation é uma plataforma online onde doentes e todo o tipo de prestadores de cuidados de saúde podem partilhar as soluções que criaram ou a que recorreram para curar ou lidar com uma doença que não conseguiam resolver de outra forma, fosse tradicional ou não. E podem ser soluções tão simples como a de Diogo Lopes, um rapaz que sofre da doença de Charcot-Marie-Tooth e que descobriu que tocar piano funciona como fisioterapia para as mãos. Ou ideias mais complicadas como o suporte pórtico criado por um cidadão britânico, “que já foi usado por 120 pessoas até agora”, diz Pedro Oliveira. Foi ele um dos mentores deste projeto, lançado em 2004, e que hoje conta com mais de 650 soluções provenientes de 40 países.

Cristina Semião Responsável pela área de saúde da IBM
A IBM é uma empresa centenária que começou por construir computadores quando eles ainda não se chamavam apenas computadores. Mas continua a acompanhar a evolução dos tempos e um dos focos atuais é a saúde e a construção de avançados equipamentos de diagnóstico. Para isso criaram um departamento chamado Watson, “o sistema cognitivo da IBM”, explicou Cristina Seimão, que “permite encontrar o melhor tratamento para determinado doente” e não para todos, porque a terapêutica pode não ser a mesma para todos. Cristina Semião trabalha na IBM desde 1985, a saúde é a sua área de especialização e acredita que o que a empresa está a desenvolver é crucial para a medicina personalizada.

Henrique Martins Presidente do Conselho de Administração da SPMS
A SPMS (Serviços Partilhados do Ministério da Saúde) é uma empresa pública criada em 2010 e tutelada pelos Ministérios das Finanças e da Saúde. É gerida pelo médico Henrique Martins e tem como missão “centralizar, otimizar e racionalizar a aquisição de bens e serviços no Serviço Nacional de Saúde (SNS)”. É a SPMS que trata das receitas digitais ou da compra de equipamentos para hospitais, e está também responsável pela transformação digital do SNS, ou seja, pela aplicação das novas tecnologias de informação ou da robótica aos processos e diagnósticos médicos. Isso implica investimento, diz Henrique Martins, mas garante que esses custos se transformam depois em ganhos para o Estado e para os doentes.

Joaquim Cunha Diretor-executivo do Health Cluster Portugal
O Health Cluster foi constituído no início de 2008 com 55 instituições de investigação, universidades, grandes empresas, startups, hospitais, entre outras. Hoje são 172 entidades que têm como objetivo juntarem-se para desenvolver e exportar a saúde que se faz em Portugal, não só os cuidados, mas também os medicamentos, os recursos humanos, os equipamentos, os métodos de diagnóstico, a educação, etc. Para Joaquim Cunha, Portugal tem um potencial enorme para exportar a investigação que se faz por cá ou, por exemplo, para apostar no turismo de saúde, agora que o turismo está em alta e que existe uma elevada faixa de visitantes que estão na terceira idade e até passam uma temporada em Portugal.

Texto originalmente publicado no Expresso, edição 16 de setembro 2017