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Chelsea Manning rejeitada em Harvard

Reitor da Universidade norte-americana de Harvard anulou convite a militar que foi uma das grandes fontes da Wikileaks. Explicou que não tinha considerado bem todas as implicações do convite mas houve CIA pelo meio

Luís M. Faria

Jornalista

Chelsea Manning já não vai falar perante os estudantes da Universidade de Harvard. A Kennedy School of Government, instituição de referência que faz parte da universidade, revogou o convite que tinha anunciado quarta-feira, após uma chuva de protestos. Entre outros, o de um ex-diretor da CIA, Michael J. Morell, que em protesto se demitira de 'visiting fellow' (investigador visitante) na escola, o mesmo título que Manning ia ter.

Um 'visiting fellow' é alguém que de vez em quando vai à escola transmitir a sua experiência e o seu conhecimento. Ninguém duvida que Manning tem uma experiência pessoal importante para estudantes de ciência política, independentemente da opinião que se tenha sobre essa experiência. Morell chamou "criminosa condenada" ao antigo soldado. Manning encontra-se num processo de mudança de sexo, depois de ter estado na prisão, condenado por ter passado documentos militares à Wikileaks, sendo sido indultada por Obama em Janeiro. Morell acusou-a de ter passado informação classificada e considerou "totalmente inapropriado" que a escola a convidasse.

O atual diretor da CIA, Mike Pompeo, apoiou a decisão, anunciando que também iria faltar a um fórum que estava marcado em Harvard, como forma de protesto. "Tem a ver com o facto de se tratar de uma traidora aos Estados Unidos e com a minha lealdade para com os funcionários da CIA", explicou.

Face às pressões, o reitor da escola, Douglas E. Elmendorf, resolveu mudar de ideias. Sexta-feira, às 00h30 da manhã, telefonou a Manning para lhe dizer que afinal já não ia ser 'fellow', garantindo-lhe que se quisesse ir falar à escola poderia fazê-lo. Manning, que terá ficado chocada, recusou. A conversa durou uns dez minutos.

Honrada com o afastamento

Numa carta que pôs no site da escola a seguir ao telefonema, Elmendorf justificou assim a sua decisão: "Constato que para muitas pessoas o título de 'visiting fellow' é honorífico, portanto devemos ter isso em consideração quando fazemos convites (...) Peço desculpa à visada e às muitas pessoas que ouvi hoje por não ter avaliado todas as implicações do convite original".

Manning publicou um tweet a declarar-se "honrada" por ter sido rejeitada. Acusou a escola de ter cedido a pressões da CIA, e a seguir comparou a sua situação com a de Corey Lewandowski, e outros próximos de Trump que são 'visiting fellows' da escola, apesar de estarem associados a algumas das mentiras mais graves do presidente e, no caso de Lewandowski, à agressão a uma repórter.

Pompeo, é conhecido por apoiar o recurso à tortura por parte da CIA, bem como a utilização sem restrições de drones para assassinar “combatentes inimigos”, incluindo cidadãos de países com os quais os quais os EUA não estão em guerra, caso de russos ou sírios. Defensores de Manning recordaram que, para a Kennedy School of Government, o único crime relevante parece ser a fuga de informação classificada. Um crime tão grave que justifica telefonar a alguém a meio da noite para revogar um convite embaraçoso...