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Volkswagen não vai deslocar produção da Autoeuropa para outros países

Herbert Diess, presidente executivo da Volkswagen

Sean Gallup/GETTY

O presidente executivo da Volkswagen, Herbert Diess, disse ao Expresso, em Frankfurt, que as negociações laborais na Autoeuropa estão a deixar os alemães muito preocupados. Já falou com o Governo português e até admite que Palmela possa vir a receber investimentos adicionais

A Volkswagen na Alemanha está a acompanhar com “preocupação” as negociações laborais em Portugal para adaptar o fluxo das linhas de montagem da Autoeuropa ao aumento de cadência de produção do novo modelo T-Roc.

O presidente executivo (CEO) da marca Volkswagen (VW), Herbert Diess, referiu esta manhã ao Expresso, que “já houve conversas com o Governo português sobre as negociações em curso”, explicando que, “na VW, estamos muito preocupados com a evolução destas negociações, porque houve alterações que não estão em linha com a atividade desenvolvida pela fábrica de Palmela ao longo das últimas duas décadas”.

Apesar dos avanços e recuos nas negociações laborais, o CEO da marca Volkswagen disse que a fábrica de Palmela pode vir a receber investimentos adicionais e negou qualquer deslocalização de produção do T-Roc para fábricas estrangeiras da VW.

Herbert Diess falou ao Expresso à margem da 67ª edição do Salão Automóvel de Frankfurt (IAA – Internationale Automobilie Austetellung) de 2017, que se realiza de 14 a 24 de setembro. Na maior feira europeia do sector automóvel, a grande vedeta do gigante industrial alemão Volkswagen é, na edição deste ano, o T-Roc, um SUV (um utilitário desportivo, com capacidade para circular fora de estrada) que a marca pretende produzir em Portugal, na fábrica da Autoeuropa.

O CEO da VW referiu que o seu grupo manteve um “relacionamento de grande estabilidade laboral com a fabrica de Palmela ao longo de 20 anos, com indicadores de elevada qualidade de produção, e investiu no desenvolvimento e construção de um modelo que é muito importante para o Grupo VW, mas agora ficaram muito preocupados com a forma como se desenvolveram as negociações laborais para a produção do T-Roc”.

“Acreditamos que todas as questões em aberto possam ser resolvidas em breve para avançarmos no fabrico do T-Roc tal como pretendemos, para podermos responder às expectativas de procura nos principais mercados, o que implica que os acordos laborais fiquem concluídos em outubro”, adianta Herbert Diess. “Julgo que o que está a ser discutido por ambas as partes não se resume a dinheiro para viabilizar a produção de mais três turnos ao sábado”, comentou o CEO, considerando que “o entendimento entre as partes será alcançado com a negociação de uma solução de combine vários fatores”.

“É fundamental para a VW começar rapidamente a produção do T-Roc, dando à fábrica da Autoeuropa uma plena utilização da sua capacidade instalada”, referiu, detalhando que “nos últimos anos a unidade de Palmela teve nível de utilização reduzido, e agora tem possibilidade de voltar a laborar na sua capacidade total”.

Herbert Diess explicou que “a VW não tem qualquer plano que permitisse deslocalizar a produção do T-Roc para outras fábricas do grupo, nem mesmo de forma parcial”, assegurando que a totalidade da produção deste modelo será “feita em Palmela, e para isso precisa que a fábrica funcione na sua capacidade máxima”.

O responsável máximo da marca VW não descartou a possibilidade de serem feitos investimentos adicionais na Autoeuropa, em função das “necessidades de produção que venham a ser sentidas para dar resposta a um eventual aumento de procura”.

Neste sentido, se for preciso aumentar bastante a produção do T-Roc a VW admite terminar a produção do desportivo Scirocco, que está em fim de ciclo de vida. “A principal produção da fábrica de Palmela passaria a ser consagrada ao fabrico do T-Roc, ocupando o espaço que a linha de montagem atualmente dedica do Scirocco, que assim terminaria o seu ciclo de produção”, explicou Herbert Diess.

Carro português é "estrela" do maior salão automóvel europeu

Ser uma estrela da Volkswagen (VW) significa que a projeção do T-Roc vai muito além das áreas de exposição do Salão e Frankfurt. Logo à saída do aeroporto internacional de Frankfurt, as portas exteriores estão forradas com publicidade alusiva ao carro produzido em Portugal. Os gigantescos painéis publicitários colocados nas paredes dos edifícios que ficam em frente ao aeroporto têm imagens enormes do T-Roc e toda a pressão de divulgação deste SUV “português” que a Volkswagen pretende fazer se nota nas estradas de acesso ao salão automóvel.

Para os elementos do Grupo Volkswagen contactados pelo Expresso em Fraankfurt, a importância do T-Roc é muito grande, porque é um produto que a marca aguardava há já mais de quatro anos, e que servirá para reforçar a gama dos seus SUV, com uma oferta que responderá a cerca de 30% das encomendas de automóveis que vão ser feitas ao longo dos próximos cinco anos, ou seja, será uma das categorias de veículos mais procuradas e produzidas até 2022.

O T-Roc completa este segmento dos pequenos SUV, ao lado do VW Tiguan, mas tem características mais desportivas e pode apelas a uma segmento de clientes mais jovens que os compradores do modelo Tiguan. Assim, para os quadros da VW, “o processo de construção do T-Roc tem mesmo de dar certo, porque é um modelo fundamental para o reposicionamento de mercado da marca VW”.

Na atual conjuntura de mercado, a VW está a tentar sair dos efeitos nocivos que o escândalo do dieselgate (a manipulação das emissões poluentes) produziu em muitos dos seus maiores mercados mundiais (sobretudo nos EUA e na Europa), onde o custo total da litigância, dos encargos e compensações a pagar pela VW - e das provisões financeiras destes custos – ainda não está totalmente apurado, ascendendo a muitos milhares de milhões de euros. É por isso que o T-Roc é tão importante para a VW, porque é um dos principais carros com que quer competir nos mercados mais sofisticados (no Brasil, que é o maior mercado de consumidores de língua portuguesa, não há previsões do T-Roc vir a ser comercializado, apesar de ser um veículo adequado ao tipo de circulação exigida pela rede viária brasileira, pois a VW preferirá colocar no Brasil alguns SUV produzidos no México).

Com 106 fábricas dispersas por diversas geografias em todo o mundo, os responsáveis por estas unidades fabris da VW competem entre si pela captação de novos modelos que possam sustentar os trabalhadores destas unidades e que permitam que cada fábrica suba nos indicadores internos de produtividade do Grupo VW. “Só na Europa há muitas unidades que gostariam de ter a produção de um carro como o T-Roc, que até à data foi atribuído à fabrica portuguesa de Palmela, como sinal pela capacidade de produção de projetos difíceis, como foi o descapotável Eos e como é o desportivo Scirocco, que vai entrar agora em fim de vida, para além de produzir os monovolumes Alhambra e Sharan, que já ganharam o galardão de melhores veículos produzidos pela industria alemã”, comenta um quadro do Grupo VW.

“Os processos de negociação de condições de produção no Grupo VW, entre administrações de fábricas e as comissões de trabalhadores são frequentes num grupo que tem 106 fábricas a laborar em todo o mundo, e essa é a razão pela qual os avanços e recuos que houve em Portugal para adaptar a produção ao aumento de cadência necessária às suas linhas de montagem, porque esse processo de negociação é normal, mas o impasse terá de resolver-se depressa”, refere o mesmo quadro.

No entanto, entre os responsáveis daas 106 fábricas há muita competição. “Ninguém vai ficar a dormir, porque todos estão atentos e sabem que a casa-mãe deu um sinal de confiança à fábrica de Palmela, e isso significa que depois do Eos, do Scirocco e até depois dos monovolumes, haverá necessidade de produzir novos modelos, e é nessa direção que todas as fábricas olham, sabendo que há mais novos modelos para produzir depois de 2020”, comenta.

Ou seja, o T-Roc é um teste que a VW faz à capacidade da fábrica de Palmela conseguir duplicar a produção – passando de uma média de 100 mil carros por ano, para cerca de 240 mil –, sabendo como conseguem correr os processos negociais para o aumento da laboração em Portugal, e aferindo se é fácil, ou difícil, introduzir novos modelos de grande produção numa fábrica que conseguiu produzir, com elevada qualidade, veículos de pequena produção, ou de nicho.

Dito de outra forma, a VW sabe que a Autoeuropa tem padrões elevados de produção em veículos de nicho, fabricados em pequenas quantidades anuais. Agora quer saber se a fábrica de Palmela consegue dar resposta a níveis de produção superiores, dentro dos padrões das grandes fábricas europeias, para saber se será uma unidade elegível para continuar este rumo de crescimento e poder vir a receber outro modelo de grande produção, o que exigiria um novo investimento alemão, a médio prazo, para a unidade de Palmela. Este teste atual de produção está a ser feito para uma dimensão aproximada de 5300 trabalhadores, 18 turnos semanais e 240 mil carros fabricados por ano. O próximo passo ainda tem muitas incógnitas e poderá será dado pela VW no sentido de manter este nível de produção em Portugal, de aumentá-lo, mas também – indesejavelmente – que poder reduzí-lo.

O jornalista viajou a convite da Volkswagen