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Porto: O luxo está a chegar à rua que já foi “um inferno”

Na Rua das Sobreiras, junto à Foz, “somos uma família”, diz quem lá mora

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

Numa casa, a renda é inferior a €100. Algumas portas ao lado, há um solar do século XVII à venda por €2,8 milhões

A manhã de sol convida a sair à rua e, pelas 9h, nas Sobreiras, frente ao Douro, paredes meias com a Foz, Maria Alice começa a estender a roupa à porta da casa térrea onde mora há 50 anos. É uma fachada estreita, apenas com espaço para uma porta e uma janela. Lá dentro há dois quartos, sala, cozinha, casa de banho, o suficiente para atrair os olhares de quem anda atento ao mercado imobiliário no Porto e não hesita em bater àquela porta, vezes sem conta, com propostas de compra. Ela nem chega a ouvir o que lhe oferecem. Paga a sua renda. Não quer saber desses negócios.

Para quem mora nas Sobreiras há muitos anos e conheceu “o inferno” que aquilo era — apenas com uma nesga de passeio, a água do rio e do mar a entrar portas adentro em anos de cheias —, o entusiasmo que a rua começa a despertar é estranho. E o preço do solar do século XVII, recuperado para uma clínica de estética, à venda por €2,8 milhões, nem parece real.

No solar, só um cartaz discreto numa das janelas indica que o edifício está à venda. A clínica de estética que ali funciona vai mudar-se para Gaia, e o negócio atraiu várias imobiliárias. É o caso da Cidade da Foz II, onde Manuel Cardoso explica que o edifício tem 805 m2 de construção, mais 400 m2 de área de jardim. Feitas as contas, o preço por metro quadrado anda nos €3400, “o que nem é dos valores mais altos praticados na cidade neste momento”, comenta. Talvez por isso, há já vários interessados, garante.

Ali, só o solar parece estar à venda, mas alguns metros à frente, no sentido da Foz, já na Rua do Passeio Alegre, há um prédio em construção onde pedem €6 mil por metro quadrado. E sobre as Sobreiras, mas com entrada por outra via, foi vendida há pouco tempo uma vivenda por €2,7 milhões, informa Luís Guimarães, da imobiliária Viver nas Ondas, com escritório aberto precisamente num dos extremos da Rua das Sobreiras, próximo da casa onde viveu o antigo guarda-redes do FC Porto Vítor Baía ou do apartamento escolhido pelo atual guarda-redes do clube, Iker Casillas, quando chegou à cidade.

De acordo com os números da Confidencial Imobiliário, o preço médio mais alto para casas novas à venda no Porto está nos €3277 e corresponde à zona da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde. O segundo lugar no top das zonas mais caras da cidade pertence à União de Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, com €2835. A medalha de bronze vale €2092 e está entregue a Lordelo do Ouro e Massarelos, a União de Freguesias a que pertence a Rua das Sobreiras.

Uma rua democrática

Num levantamento do portal Idealista, cabe a esta rua com pouco mais de 500 metros de extensão o título de campeã da Invicta no que respeita a imóveis à venda com preço médio mais alto (€2,013 milhões). É um resultado influenciado pelo solar do século XVII que surpreende os moradores mais antigos, alguns dos quais ainda pagam rendas abaixo dos €100, mas também podem ser proprietários, como Rui Freixinho, decidido a resistir ao assédio de potenciais compradores sem ouvir as propostas. No seu caso, chegou em 1977, um ano de cheias. Pressionado pela mulher, que nasceu ali, fez um andar por cima da casa do sogro. Em 2008, comprou o andar do cunhado, construído juntamente com o dele, no mesmo prédio. Pagou então €120 mil. Está num sítio de que aprendeu a gostar, onde tem “um amigo em cada vizinho”. Para estes moradores, mais do que falar do valor das casas, interessa dizer “somos uma família”, recordar que, “quando era preciso meter os pés na água e sair da cama sempre que o rio e o mar entravam porta adentro, havia mais gente a querer fugir do que a morar na rua”, como conta Maria da Conceição, ali nascida e criada.

Já Edmundo Ribeiro, administrador da Clínica Médica da Foz, uma cooperativa de médicos fundada há 30 anos, precisamente nas Sobreiras, tem um olhar diferente. O interesse do sector imobiliário confirma a “boa escolha” feita pela pequena casa que um dia foi um dos cenários do filme “Aniki Bóbó”, de Manoel de Oliveira. Em três décadas, a clínica cresceu, ocupou casas contíguas ao espaço inicial. Admite até expandir-se na zona.

Mas, por enquanto, a única novidade na rua é o projeto de alojamento local, na modalidade de estabelecimento de hospedagem, Duas Portas, a que se juntará um restaurante no final do ano. Tem dois meses, oito suítes com vista para o rio e para a faixa verde do outro lado da rua, ou para o jardim das traseiras, exploração e gestão de Luísa Souto de Moura, filha do arquiteto Souto de Moura, e de uma tia. Luísa, arquiteta como o pai, “observadora da cidade”, confessa que também ela foi apanhada de surpresa pela notícia do valor daquela rua, com um bairro social em fase de recuperação nas traseiras, uma ETAR no meio, pequenas casas onde antes residiam pescadores, mas admite que esta até é “uma boa imagem da organização democrática do Porto” enquanto cidade.